Os Nibelungos, O Mito Heroico

Por Philippe Leão

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Siegfried é atingido nas costas, seu ponto fraco.

 

Os Nibelungos, O Mito Heroico*

* Artigo publicado na primeira edição da Revista Cineplot – O Cinema e o Mito.

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Fritz Lang é um dos diretores mais cultuados do cinema alemão. De sua fase muda muito se fala de Metropolis que, para público e crítica, talvez seja a maior de suas obras. Contudo, pouco se fala do épico dividido em dois filmes que antecedeu sua mais aclamada e lembrada película. Trata-se de Os Nibelungos, adaptação do Mito que tornou-se símbolo, narrativa potencializadora de pretensa união germânica.

Em um primeiro filme (Os Nibelungos: Siegfried) o grande herói é apresentado e suas características desenvolvidas em um processo de unificação. Há aqui uma esperança pela presença do jovem que luta pela liberdade e união dos homens que, contudo, culmina na morte do herói. Em um segundo momento (Os Nibelungos: A vingança de Kriemhild), depois da morte do símbolo da libertação heroica e da unificação dos homens, chega a decadência da esperança.

Há todo um contexto histórico rondando o uso de Nibelungos. Em especial, falemos da filosofia romântica na importância do resgate do Mito. É característica fundamental dos pensadores e exploradores românticos a busca por canções, poesias, narrativas e Mitos provenientes do solo, das mais diversas culturas. Com A Canção dos Nibelungos – como originalmente é conhecido o mito – não foi diferente. Muito mais que isso, com este os românticos realizaram um sonho antigo, um sonho posto em prática por Richard Wagner em sua adaptação O Anel dos Nibelungos, um ciclo de quatro obras épicas que intentavam criar um espírito heroico no povo germânico.

O feito de Richard Wagner não para por aí. Diziam os românticos que o resgate e a criação de uma nova mitologia deveriam partir da arte. Eis que o compositor realizou. A partir das buscas dos poderes originais do solo, daquilo que faz emergir as culturas, o mito deveria ser criado, inventado, para que organicamente possa emergir nas pessoas e seus hábitos.

O surgimento do novo mito não acontece ao acaso. Em meio a um contexto burguês pós-iluminista – movimento pelo qual os românticos foram explicitamente contrários – de um espírito egoísta e utilitarista sobre as coisas, a criação de um mito seria primordial para devolver à sociedade, carente de narrativas originais, a união. Unir os homens em uma percepção comum era o projeto. A chamada “ditadura da razão” imposta pelos utilitaristas burgueses teriam desmistificado a arte e os mitos, os assassinado. Contudo, não se concebe uma vida sem mito. Daí a importância da obra máxima de Richard Wagner.

Se o surgimento do mito deveria vir da arte, a força da união não seria provinda das religiões. A ideia do homem livre tende a tomar o lugar das religiões. A figura de Siegfried é uma imagem prática da personificação da liberdade dos homens, liberto dos Deuses. A ideia do homem livre proposta por Wagner, um homem das possibilidades que a vida pode oferecer, é também um ultimato às forças divinas.

Essa potência significada pela figura de Siegfried vem da força de união do herói que vai lutar com o dragão, torna-se quase imbatível (há um ponto frágil, assim como em Aquiles na mitologia grega), conquista o ouro e os entrega novamente aos donos. Não vem dos Deuses a salvação, rompendo com um círculo vicioso de poder.

No primeiro filme de Fritz Lang, há um claro espírito de aventura que rodeia os acontecimentos do herói. Mesmo que com limitações provenientes da época, as cenas heroicas de Siegfried contra o dragão, a vitória nos desafios da Valkiria Brunhild, são belíssimas a medida que encaram o mito com o real. Há na obra de Fritz Lang a proximidade do mito com as coisas da vida, as indumentárias, as paisagens, os movimentos, fatos que se perderam nas novas adaptações mitológicas, onde a exuberância desloca o mito e o coloca em um mundo das ideias, evidenciando-o como uma mentira.

Contudo, o mundo dos Nibelungos, que dá nome ao mito, é o oposto do mundo de amor, liberdade e união de Siegfried. Se o herói vem para unir os povos – expostos em

cenas como a luta para casar-se com Kriemhild, a disputa com Brunhild e o pacto selado com o Rei Guntário – os Nibelungos são tomados pela ganância, pelo ouro e relações de poder viciosas. É justamente desse espaço de ganância que, dentre outros, Richard Wagner põe em obra seu asco pelos Judeus, povos degenerados a seus olhos, que circundam o dinheiro e não se libertaram de uma figura divina. Para Wagner, os judeus são a personificação do homem do comércio, do dinheiro.

Inserido nesse mundo degenerado, o forte, porém, ingênuo Siegfried não é experto o suficiente para perceber a ganância que o circundam. A sociedade dos Nibelungos é uma metáfora do mundo moderno, utilitarista. Em um primeiro momento há um selamento de paz que dá esperança por uma sociedade unida em uma percepção comum, mas Siegfried é assassinado.

A morte de Siegfried carrega uma série de significados, dela nasce o fim da esperança e a vingança utilitária contra aqueles que o matou. Da morte de Siegfried vem a queda dos Nibelungos, afundados em um egoísmo terrível (tanto de Kriemhild como dos demais).

As cenas que narram a queda dos Nibelungos são das mais emblemáticas que Fritz Lang jamais criou. A posição fatal de Kriemhild observando o palácio ser consumido pelo fogo da vingança é demonstrada em uma justaposição de planos. A impiedade na expressão de Kriemhild e o fogo da queda de uma sociedade inteira é um símbolo narrativo de grande potência.

Por fim, é importante salientar que a lógica a qual Richard Wagner cria o mito é semelhante ao momento histórico em que Fritz Lang realiza seu épico. Temos aqui a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e um povo desmoralizado. Havia de se criar um espírito heroico que, novamente partia da arte. Mau interpretado, este espírito viria se tornar, anos depois o Nazismo.

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