Édipo Rei: Solidão e abandono

Por Fernando Boechat

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“O outro eleito é a parte fantástica e gozosa de meu corpo que me prolonga e me escapa “(NAISO, 1993, p.95)

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Temos a interdição de um objeto como motor para o desenvolvimento do desejo. Interdição daquilo que se deseja aumentando o desejo que se tem pela coisa à medida que aumenta sua interdição. Há também a proibição enquanto lei, uma lei que proíbe o incesto no caso. Recalca-se assim o desejo no inconsciente e uma busca por esse objeto perdido passa a te guiar, claro, inconscientemente. Sim, o velho caso de Édipo.

Nos 10 minutos inicias do filme podemos perceber algumas escolhas de enquadramento e posicionamento da câmera que reiteram uma perspectiva psicanalítica de abordar o arquétipo (universal?) de Édipo. Devo sublinhar, portanto, que não me aterei com fidelidade conceitual e me darei à liberdade de utilizar livremente meus parcos conhecimentos alinhados a uma visão subjetivista de mundo. Comecemos então.

A narrativa do filme é não linear, a saber, não ocorre através de uma sucessão cronológica de acontecimentos. Se assim o fosse, x, x’, x” representariam o início do filme (x), seu desenvolvimento em um tempo posterior (x’) e o desfecho como um ponto posterior aos outros dois (x”). Não é o caso desta película. Começamos o primeiro plano do filme com uma câmera vacilante que focaliza um monolito onde se lê “Tebas”, para nos próximos dois planos já sermos situados em um momento mais atual em relação ao ano de filmagem, mesmo que seguramente represente um passado em relação a este.

O momento intermediário revela o nascimento de um menino em planos mais distanciados como a de um espectador da história, mas se alterna para planos que remetem ao ponto de vista do menino, ainda uma criança de colo, que no momento em que suga os peitos da mãe é logo apresentado imagens de baixo para cima enquadrando as árvores em combinação com o céu de forma que remete a uma imagem abstrata, ainda não capaz de diferenciações como na vida adulta, e principalmente a um sentimento oceânico e de entrega ao prazer, tendo a mãe como veículo para alcançar esta sensação transbordante.

Em uma atmosfera sombria (em seu termo subjetivo, mas também alcançado pela escolha de uma iluminação escassa, por vezes em penumbra) sentimos uma angústia que envolve o filho, mãe e pai. Mas principalmente, e privilegiadamente pela narrativa, temos o pequeno “Édipo”* pressentindo um mal que lhe assolará. Sua mãe parece adotar uma postura ambígua, ao mesmo tempo em que é fonte de um prazer intenso e supre suas necessidades fisiológicas, dando-lhe alimento através de seu próprio corpo e garantindo-lhe a vida, relaciona-se de forma entregue a seu pai, que passa a ser um obstáculo para realização em tempo integral de seu desejo. Para piorar a situação, temos neste obstáculo natural que é seu pai, uma pessoa que manifestamente o odeia, algo que na verdade é escondido de sua mãe, mas que aparece muito claramente nas expressões de forte incômodo e raiva que este tem para com o pequeno menino. De certo modo a estrutura afetiva de seu pai é similar à dele, enquanto o pequeno quer a mãe inteiramente para si, seu pai quer sua esposa de modo integral, sem que ela precise dividir seu tempo para cuidar da criança.

No início do filme é evidenciada a dor da criança ao ver sua mãe tendo prazer com outro homem (seu pai). Poucos planos após essa cena, teremos uma elipse temporal que nos arremessará em um tempo mítico, na qual a criança é amarrada como um animal, no cabo de madeira da ferramenta de um agricultor e depois deixada à morte sobre a areia do deserto. Experimentamos aqui, através desse brusco hiato temporal, algo que já se sinalizava no primeiro plano do filme: o reencontro com um vestígio ancestral. Exprimindo assim a vivência daquela criança tomando por base sua origem estrutural (ou a origem que a estrutura), a realização imensurável de uma experiência que agora se reencontra com seu mito fundador.

Um pastor o salva da morte e o entrega direto nas mãos do rei de Corinto. Mesmo com o amor de seus novos pais, Édipo é atormentado frequentemente por pesadelos e pressente que há algo errado em sua vida e que deve consultar o Oráculo, pois os deuses parecem querer lhe dizer algo. É através desse sentimento de inadequação, mesmo nas condições mais favoráveis possíveis, que ele irá buscar uma resposta para suas angústias. Sai de Corinto em direção a Delfos e de lá ouve que seu destino é matar seu pai e se deitar e casar com sua mãe. Desolado, parte de modo infantil, cobrindo seus olhos e girando para tomar um caminho aleatório e enganar o destino (como se estivesse brincando de cabra cega), chegando finalmente à Tebas onde concretiza seu destino.

“Pobre Édipo, talvez nunca saiba quem é”, foi o que disse sua mãe (e esposa) Jocasta logo que descobriu a verdade percebida por Édipo e também encaminhada de ser revelada pelo mesmo destino que já havia lhe imposto à tragédia. Todo um semblante de normalidade é rompido se aproximando assim do real, onde toda aquela angústia inconsciente agora retornaria de uma forma visceral que levaria posteriormente Jocasta a cometer suicídio e Édipo a se cegar e a furar seus ouvidos para não ouvir mais verdades após vislumbrar o corpo nu enforcado de sua mãe. A frase ainda dialoga com a incessante busca de Édipo por construir seu próprio caminho e seu inevitável fracasso nessa empreitada. Mesmo ao perceber a verdade, ainda beija eroticamente Jocasta, num ato de desespero por perceber que está fadado a perder aquela que foi seu único objeto de desejo. Esta por sua vez fitava o vazio com uma expressão atônita.

Pouco antes da verdade ser revelada aos dois, o rosto de Jocasta aparecia enquadrado de forma que metade estava luminoso e a outra metade sombreado, denotando os dois lados que ela desempenhava em sua vida: uma fonte de prazer e de desgraça. E por mais que Édipo tenha tido tantas facilidades na vida (coroado rei duas vezes!), em uma época em que todos os outros eram miseráveis, mesmo assim foi um dos mais infelizes dentre os homens. É como se essa violência primeira que marcou seu nascimento este o carregasse dentro de si como uma maldição de início inconsciente e depois insuportável demais para seguir com a vida de forma normal, passando a perambular como um zumbi e vivendo de esmolas.

O final é enigmático, e agora sim retrata o contemporâneo, com o mesmo ator que representou Édipo na Antiguidade agora como pedinte, espécie de espectador cego na vida acompanhado pelo até então mensageiro de Tebas, que agora desempenha papel de guia e fiel escudeiro. A câmera percorre a paisagem de modo contemplativo e temos uma trilha sonora serena e melancólica encerrando a película.

Ao refletir sobre o filme eu passei a me questionar se a busca do desejo é o que por fim leva a ruína do homem. Édipo estava decidido a seguir seu próprio destino, ter autonomia e uma vida fora das facilidades que o destino havia lhe propiciado ao ser adotado por um rei. Logo ele, filho genético de um rei, é adotado por outro rei e mata seu próprio sem saber conscientemente e torna-se, enfim, rei. A cena em que ele mata seu pai se dá por um motivo quase gratuito e isso foi uma decisão muito acertada do diretor. Enquanto ele caminhava pela estrada de terra seu pai vinha em uma carruagem acompanhada de soldados e ordenou que ele saísse de seu caminho. Mesmo não sendo uma ordem em tom tão rude, Édipo foi tomado por uma grande revolta, é como se no fundo de seu íntimo ele houvesse reconhecido seu pai e seu tom de voz tivesse trazido à tona uma série de sentimentos reprimidos, inconscientes, que agora entravam em erupção mesmo que ele continuasse a não saber conscientemente o motivo de sua revolta em tal grau. O motivo de tanta desgraça e, principalmente, a dúvida se Édipo poderia ter seguido outro caminho menos infeliz fica tão nebuloso quanto o desfecho do filme.

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