Especial Cronenberg: Calafrios

Por Leonardo Carvalho

Canadá – 1975

Direção: David Cronenberg

Elenco: Lynn Lowry, Barbara Steele, Joe Silver, Paul Hampton, Susan Petrie.

Como na tela do pintor surrealista René Magritte, Philosofy in the Boudouir, de 1947, “Calafrios” preza por discutir, através de um enredo bastante esquisito, a sexualidade envolvida com o ser humano. As duas obras, porém, não tratam do tema com superficialidade, mas com uma visão voltada à psicologia e ao movimento naturalista que abraçou, principalmente, a literatura em um final de século XIX quando o cientificismo estava em ascensão.

O quadro do pintor belga pode ser enxergado totalmente através do lado psicológico pela razão de vermos a ideia de Freud, em que o desejo reprimido é explicado pela utilização de roupas no manequim central, mas o que se percebe, na verdade, são as partes internas, os seios, por exemplo. Isso também é encontrado no naturalismo, pois o instinto sexual humano fala mais alto do que as regras de vestimentas estabelecidas pelos ocidentais. “Calafrios”, outrossim, pode ser vistos por ambas as visões, sobretudo as ideias de id, ego e superego, do pai da psicanálise.

O longa-metragem, dirigido por David Cronenberg, conta a história de um condomínio de luxo, de muitos aproveitamentos em termos de vantagem ao morador, de muitos oferecimentos, que acaba sendo vítima de uma infecção por um parasita. Uma vez que esse parasita entre em um hospedeiro, em algum ser humano para ser mais específico, ele aguça os lados mais selvagens do indivíduo: a violência e o sexo. Só através desse básico resumo, percebe-se que há, aqui, a questão naturalista, dos instintos, da comparação entre o homo sapiens e um mero animal.

Como de costume, os filmes cronenberguianos são violentos e contém um grande nível de sexualidade. “Calafrios” não é o trabalho do diretor que mais tem o primeiro aspecto, mas é um dos que possui mais do segundo, principalmente quando se trata de um final extremamente incômodo. Ambos aparecem para conceder a ideia de instinto do ser humano, o que acontece com boa parte dos personagens. O naturalismo aparece nessa forma, só que mais complexa, em que não importa o sexo da pessoa, o desejo precisa ser combatido de qualquer maneira, e caso não aconteça isso, parte-se à violência.

Na parte psicológica, como foi pode ser enxergado essa questão do impulso sexual, não existe limites para que o desejo seja combatido. De acordo com esse pensamento, o id de Freud é apresentado pelos personagens fazerem o que querem sem medir qualquer tipo de dogma, deixando de lado o ego, que é o mediador. O único que, na maioria dos momentos, está mais equilibrado, é o médico, o homem da ciência e da razão, mas acaba não resistindo no final das contas, sendo engolido pela natureza selvagem dos seres ao seu redor. Diferente disso, a pintura de Magritte nem mesmo possui esse lado do ego, já que o apreciador da imagem enxerga puramente o desejo carnal humano.

Para criar toda essa atmosfera na obra cinematográfica, alguns aspectos foram muito bem entendidos e executados pelo diretor canadense. A trilha musical, como modelo, é um fator que preza a agonia por sons quase imperceptíveis, bem mais fundo que um segundo plano, mas que são essenciais no que foi falado agora, na construção dessa atmosfera de sexualidade originada pelo instinto. Quando juntada a ângulos tortos da câmera, muitas vezes explorados pelo diretor ao longo da película, existe a ideia de uma distorção grande no que está sendo consumido pelo espectador nesse experimento de Cronenberg que envolve “zumbis” em um condomínio de luxo em meados dos anos 1970.

Cara de “filme B”, reflexão de “filme A”, mas, é claro, de uma maneira hiperbólica, embora muito bem-vinda de acordo com a proposta. O longa-metragem vale não só por tudo o que foi discutido acima, trazendo como apoio o brilhante quadro de Magritte e uma teoria de Freud, contudo pela ótima construção, pelo estilo predominantemente underground, combinando com o tema e com proposta do estilo.

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