Especial Cronenberg: Mistérios e Paixões

Por Leonardo Carvalho

 

Canadá – 1991

Direção: David Cronenberg

Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm, Julian Sands, Roy Scheider.

Duas ideias relacionadas a artistas diferentes, em intertextualidade, prenderam a minha atenção ao longo das quase duas horas de “Mistérios e Paixões”, adaptação da obra de William Burroughs dirigida por David Cronenberg. É interessante notar que os dois pontos são voltados à literatura e à pintura, a dois conteúdos ligados ao surrealismo.

A primeira dessas ideias está relacionada à grandiosa novela “A Metamorfose”, do autor tcheco Franz Kafka. David Cronenberg já havia feito uma grande homenagem ao autor em “A Mosca”, com transformações físicas, com transformações de personalidade, tudo isso a ver com algum tipo de confronto para com a sociedade, seja em qualquer campo. Em “Mistérios e Paixões” há uma referência explícita pelos diálogos que deixam claros os cambiamentos de um personagem em várias características, físicas ou psicológicas, o tempo inteiro observamos citações pela aproximação do homem ao inseto, como acontece na literatura de Kafka.

A segunda ideia está de acordo com René Magritte – um grande nome para haver comparações junto a Cronenberg. A conexão entre o filme e as artes plásticas do pintor belga não é apenas pelas pitadas surrealistas, mas o pôster do longa-metragem, além das várias cenas em que o protagonista aparece com um chapéu numa posição ereta, é parecidíssima com o quadro “O Filho do Homem”. A única diferença está entre uma fruta e uma máquina de escrever, mas o trocadilho da ausência de face é uma claríssima referência, como se o protagonista estivesse tendo sua verdadeira face abafada com o seu processo de metamorfose.

O nível de citação já mostra o quão erudito é o conteúdo. Não só isso, mas mostra que o enredo contém temperos surreais de acordo com a evolução do longa-metragem. Falando no enredo, é uma difícil tarefa resumi-lo. Acompanhamos a história de um detetizador, esforçando-se para ser um escritor, que acaba se viciando, junto à sua esposa, nos próprios produtos contra os insetos que combate. Após a aquisição desse vício, o homem passa a ter conversas com criaturas parecidas com os mesmos insetos, além de achar que está envolvido em uma organização misteriosa. Muito pouco para fazer sentido.

O que acontece, na verdade, é que “Naked Lunch”, “Mistérios e Paixões”,  é baseado no livro “Almoço Nu”, de William Burroughs, como foi dito acima. Onde eu quero chegar com isso? Todo o romance se encaixa em uma autoficção do próprio autor. Em sua literatura, ele explora situações familiares de sua vivência. Um exemplo, é a exposição de sentimentos através da tentativa de não crer no assassinato da esposa. Outro ponto bom a ser lembrado é a questão da utilização das drogas no autodesempenho artístico. Por esses meios e outros, entendemos o porquê da extrema subjetividade encontrada na relação narrador-protagonista, sempre juntos, fazendo-nos até pensar na distorção de todo o ambiente por seus pensamentos, como se estivesse, em boa parte do tempo, sob o efeito de misturas das drogas.

No meio de uma atmosfera nonsense, não poderia ser diferente, encontramos uma presença muito grande de símbolos ao longo de toda a apresentação do drama. A partir de belos efeitos visuais, por exemplo, entendemos que os insetos foram fundidos a máquinas de escrever, uma composição, no mínimo, bizarra. Em uma possível interpretação, pegando uma ligeira base na vida do autor resumida a grandes metáforas no romance, podemos pensar que ele está se sentindo semelhante a um inseto, tanto como escritor quanto uma pessoa comum no seu cotidiano.

Tudo isso se passa na metade do século XX, lembrando muitas vezes o filme noir, pois há proximidade entre o tempo que se passa o enredo, a época do auge do gênero e a construção de determinas cenas ao longo da película. O clima é bastante misterioso, não somente sobre querer entender o que está acontecendo com a figura principal, mas também com a investigação do personagem protagonista – muito bem representado por Peter Weller, preciso, principalmente por suas expressões e gestos de dúvidas – em ambientes pouco seguros.

Ajudando nessa combinação de mistério e dúvida está a direção de arte. Ora favorece o surrealismo, ora valoriza um realismo maior, cria diversos pontos de interrogações e rupturas no ritmo, rupturas propositais na migração para os dois estilos citados agora. Além disso, em uma função mais básica, vemos que a cenografia, ao lado do figurino, transporta o espectador à época em que a história é passada. Com a mesma intenção está a trilha musical em melodias voltadas ao jazz, que não só ajuda nessa ambientação, mas favorece a loucura por marcações de tempos confusos em sua linha melódica.

Nonsense, surrealismo, ou um pouco dos dois. Cronenberg entrega-nos, talvez, sua obra mais difícil de interpretação através de símbolos muito pessoais do autor adaptado. A escolha do cineasta canadense para o filme analisado aqui foi excelente, pois o estilo das conspirações e das alucinações do personagem protagonista em uma fita que não agradará a todos, carimbará mais pontos de interrogação do que afirmações, não poderia ser executada por outro diretor.

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