Especial Cronenberg: Os Filhos do Medo

Por Leonardo Carvalho

 

Canadá – 1979

Direção: David Cronenberg

Elenco: Samantha Eggar, Oliver Reed, Art Hindle, Cindy Hinds, Susan Hogan

Depois de encontrar sua filha com ferimentos bem marcados nas costas, Frank deduz que ela está sendo agredida por sua esposa, uma mulher preenchida de distúrbios mentais, internada sob a visão de um estranho doutor Raglan. Cada vez mais convencido de que a mãe é a causadora disso, tudo pelo comando do médico, Frank acaba sendo inserido num drama que precisa, a qualquer custo, proteger sua filha.

Antes de esboçar qualquer comentário voltado ao estilo e aos bons pontos, eliminaremos os aspectos ruins da obra. Um deles é a atuação do protagonista, quem não convence em momento algum seu papel de um pai em pânico, está mal posicionado e não possui expressões competentes se levarmos em conta a intenção desesperadora de um pai ao ver uma filha sendo ameaçada. O outro aspecto é a estrutura, que não é totalmente ruim, mas erra na questão da condução do enredo em quedas de ritmo, culpa também de uma montagem que poderia articular melhor na fluência da narrativa, isto é, provocar mais agressão, tal qual a proposta de uma obra extremamente agressiva.

Tirando isso, David Cronenberg volta a dirigir uma película recheada de artifícios nojentos ao lado de um suspense que envolve a carne humana com a forma mais crua possível. Mais uma vez temos uma gradação crescente de tensão criada nas mãos do diretor canadense, comum na história de sua filmografia, como aconteceu em “Calafrios”, como aconteceria em “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” e “A Mosca”. Isso é ótimo por colocar o espectador pressionado, cada vez mais, contra a poltrona, pois com o passar do tempo, o ritmo vai se intensificando, a agressão vai crescendo, uma estrutura à lá Edgar Allan Poe em sua literatura.

Um dos aspectos que contribui com esse crescimento do suspense é a trilha musical. A melodia tensa, de violinos rasgando, lembrando muitas vezes “Psicose”, arrebenta a imagem de tensão. O único problema a ser destacado nesse caso é que ela deveria ser pontual, em vez de estar presente durante boa parte da duração da narrativa. Mesmo assim, não há tanto escorregamento, mas a composição sonora poderia atingir o espectador com muito mais força na altura do clímax se aparecesse com menos frequência.

O peso das cenas contribui, outrossim, com essa questão da gradação crescente de tensão e suspense. Esse peso aparece no que podemos classificar como os dois melhores elementos de “Os Filhos do Medo”. Em primeiro lugar, a atuação ótima de Samantha Eggar no papel de Nola, a mãe suspeita de machucar a criança. A atriz, diferente do protagonista, convence nas expressões, no posicionamento, nos gestos e na sensualidade. Ademais, a forma como a surpresa é tratada para chocar o espectador, mais especificamente nos trechos de assassinato (à martelada em um deles). No clímax, esse fator é grandioso, chega a subir a um nível perturbador, ainda mais que é revelado quem está comandando as pequenas criaturas e como elas são, uma bela surpresa.

Em contraste a isso tudo, vemos uma garotinha, a filha, a vítima, contracenando sua inocência com um ambiente extremamente inseguro e com atos extremamente agressivos. A menina é a linha central do enredo, ainda que não seja a protagonista, sofrendo traumas fortes ao longo da trama. Ela está envolta de um cenário bastante inseguro, como se tudo ao seu redor fosse uma ameaça; o espectador fica tocado com sua infantilidade natural no meio de tanta sujeira. É interessante pensar, também, que na maior parte do tempo ela fica calada, criando uma atmosfera de mistério ainda maior.

Por fim, a montagem paralela chega ao clímax para deixar evidente a ligação de Nola e as crianças. A alternância dos núcleos é excelente, agora, sim, a estrutura acerta em cheio, causa, como consequência, uma enorme tensão no espectador para saber o que está acontecendo e o que acontecerá às figuras centrais da narrativa. Nesse momento do filme, todo o espaço cênico é bem aproveitado, arremessando ainda mais suspense e surpresas.

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