Especial Cronenberg: Crash – Estranhos Prazeres

Por Leonardo Carvalho

 

Canadá – 1996

Direção: David Cronenberg

Elenco: James Spader, Deborah Kara Unger, Holly Hunter, Rosanna Arquette, Elias Koteas.

Uma mistura entre a sensualidade e o grotesco, uma mistura entre os prazeres da carne, naturais, e os prazeres doentios; como o longa-metragem sugere, os estranhos prazeres. Isso acontece pela razão de as relações sexuais em uma cidade – Cronenberg adora isso, como fez em “Calafrios” – estarem ligadas a desejos um tanto esquisitos junto ao sexo.

Esses desejos, ou fetiches em alguns casos, estão ligados ao ato sexual junto a acidentes de carro, são impulsos de prazer originados em graves acidentes de veículos, alguns programados, outros não. Muitos dos personagens criam situações de batidas, ou representam tragédias de famosos, ou ficam excitados com acidentes alheios, em que chegam a fotografar os cadáveres ou as manchas de sangue em torno do automóvel.

Aliás, muito do que foi dito acima resume bem o longa-metragem. Primeiro, a sensualidade presente o tempo inteiro na construção da película. Cronenberg não poupa, pois cria cenas de sexo com uma iluminação misteriosa, passeia com a câmera no encontro de pernas, seios e línguas. Segundo, essa sensualidade está conectada aos prazeres doentios em que envolve sangue, ferro e fumaça, elementos de uma batida de carros.

A excitação pode funcionar em alguns momentos da narrativa, mas o que vemos em outros momentos são aspectos incômodos, diria até perturbadores, à lá Cronenberg. A forma como o diretor canadense constrói esse tipo de mistura entre acidente e sexo é muito interessante. Às vezes há partes cafonas, como na cena inicial em que a mulher esfrega seu seio em um avião, mas posteriormente isso é firmado, o bizarro encontra o natural e o casamento entre ambos é bom.

Não é por menos que há uma trilha musical que mistura, em sua melodia, mistério e sensualidade em um som lento, quase que sedutor, mas ao mesmo tempo entendido como soturno. É bom lembrar que sempre que há barulhos relacionados a automóveis na parte sonora, justamente para que o ambiente, a proposta, não escape das percepções do público. Além disso, uma montagem calma, sem intensidade, com a mesma função, é ligada à melancolia, pois tudo é entregue como uma doença em que os efeitos de prazer são mutilações e graves sequelas, ao mesmo tempo que o ritmo lento traz com precisão a valorização das imagens em cenas de sexo.

O auge disso tudo é quando o protagonista possui uma relação com uma mulher que possui a perna totalmente danificada, muito provavelmente devido a um ato sexual relacionado a batidas de carros. Na cena, o diretor compõe bem a tensão sexual vivida entre os dois envolvidos, com sensualidade nos movimentos dos personagens, com muita perturbação no foco do prazer do homem, visto através da afeição dada à perna da mulher.

Podemos tirar reflexões do longa-metragem em torno de toda essa mistura de sexo e estranha excitação. Uma delas é que o capitalismo faz com que o povo ocidental sempre tenha que renovar seus desejos, suas vontades e suas formas de consumo e consumismo. O sexo é uma necessidade, mas, aqui, está ligado ao consumismo, ao automóvel, a uma forma que extrapola o ato em si, precisa ser renovado em questões que ultrapassam alguns limites.

Cronenberg, com toda a sua experiência em meados dos anos 1990, não poderia evitar que os personagens da película tivessem consequências terríveis. Isso acontece, e não poderia ser diferente, se levarmos em conta sua filmografia antecessora a “Crash”. O peso imprimido aqui não está apenas nas relações carnais ou nos acidentes, mas na intenção das figuras, no extrapolar dos limites de segurança e desejo, são pessoas doentes, pessoas que sentem falta de atos sexuais que envolvem riscos sérios de vida, que podem envolver riscos a pessoas comuns, fora daquele grupo.

Na verdade, tudo é encarado como as drogas proibidas da vida real, isto é, os acidentes sexuais, digamos assim, são proibidos no interior da narrativa, em que a polícia monitora esse tipo de coisa. Uma metáfora? Pode até ser, mas é uma metáfora hiperbólica, exagerada ao nosso cotidiano, ainda que existam tantas práticas doentias.

Uma pena que a película seja extremamente repetitiva, variando apenas os pares sexuais, os locais de acidente e os automóveis, mas a forma, de um modo geral, é praticamente a mesma, sempre envolvendo batidas. A duração, então, passa a ficar um pouco cansativa, mesmo que prenda a atenção em boa parte do tempo pelo seu alto nível de incômodo, com cenas realmente fortes e impactantes.

Não é uma película marcante em termos de qualidade na carreira de Cronenberg, mas certamente uma das mais marcantes por sua temática relacionada a modos reflexivos. Mais uma vez o diretor afasta qualquer envolvimento com o cinema convencional, um ponto positivo e coerente em toda a sua filmografia.

Um comentário em “Especial Cronenberg: Crash – Estranhos Prazeres

  • 18 de julho de 2017 em 01:51
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