6º Olhar de Cinema – Retrospectiva Murnau

Por Matheus Petris

A retrospectiva do 6º Olhar de Cinema conta com exibições de dez filmes de Friedrich Wilhelm Murnau, desde seus clássicos aos filmes menos conhecidos. Todos os filmes são cópias restauradas enviadas diretamente da fundação Murnau (The Friedrich Wilhelm Murnau Foundation).

Tendo em vista os conflitos de agenda e mesmo prioridades, acabei por perdendo algumas sessões que queria muito ver, mas em compensação vi outras inesquecíveis. Dos dez filmes exibidos, tive a oportunidade de ver seis.

A ordem apresentada é cronológica e não a ordem em que os filmes foram assistidos:

 

Caminhada Noite Adentro (Der Gang in die Nacht, 1921)

O segundo filme conhecido de Murnau é repleto de simbologia e sofrimento, é intrinsecamente ligado a própria sociedade, algo que voltaria a ocorrer em Nosferatu (1922). O filme é um romance-tragédia, aqui reside certa melancolia, elemento que só enxergo novamente em Aurora ou Tabu,  mas ainda sim é Murnau, mesmo que não dotado de tanta genialidade e visionarismo. 

Todos os conflitos pré-estabelecidos são resolvidos de forma a dialogar – mesmo que nem todos os diálogos sejam providos de um bom final – algo que existe bem devidamente dentro dos filmes de Murnau, mas não neste. Se a tragédia é o desemboque, é também o egoísmo e a falta de apatia ou mesmo altruísmo, problema esse que continua enraizado em nossa sociedade, mesmo quase 100 anos depois (talvez até em intensidades maiores). Murnau “começa” visionário.

O encontro da mulher amada e o desencontro ao mesmo tempo, algo gerado por ele mesmo, que o faz questionar se suas boas ações valeram mesmo a pena, dar a luz a alguém cego ou continuar com sua mulher amada?

O Castelo Vogelöd (Schloß Vogelöd, 1921)

O castelo é um dos primeiros filmes de Murnau, é perceptível suas experimentações, percebe-se um grande cineasta em desenvolvimento. A forma como o castelo é filmada, já denota essa preocupação com a arquitetura dos filmes de Murnau, elemento esse que é mais desenvolvimento em Nosferatu (1922). São quase que sempre, planos abertos de dentro do castelo, e a movimentação dos personagens em cena é constante, os atores trabalham frente às câmeras e o mistério vai se formando e nos intrigando a cada instante – mesmo que a história não seja tão efetiva.

Há outro dois pontos que me intrigam na maioria dos filmes de Murnau, algo que enxergo desde este filme, até Caminhada Noite Adentro, ou mesmo As Finanças do Grão-Duque, existe uma espécie de preocupação quase urgente na abertura e fechamento das portas, no entra e sai dos personagens. Existe uma necessidade tanto da chegada quanto da saída desses corpos em cena. O Castelo Vogelöd é marcado pelas sutilezas, experimentações e um carma fantasmagórico. 

Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922)

Aqui, habita embrião do gênio de Murnau, é neste filme que ele consegue mostrar suas habilidades narrativas e criativas, é o que faz com que Nosferatu seja tão aterrorizante e delicadamente proveitoso ao mesmo tempo, desde a ingenuidade do protagonista, a integridade e preocupação de sua esposa, as sempre ações má intencionadas do “corretor imobiliário”, e de claro, da peste, mas faz aquilo que é de sua natureza, do conde Orlok.

Por outro lado, vejo aqui a criação e preocupação de Murnau com o mar, suas fronteiras, seu balanço. A peste – seja ele um mito ou não – vem junto às águas, traz consigo as doenças e os males que desembocaram naquela pacata cidade. Se o final pode soar feliz para alguns, faz justamente o contrário para outros, afinal, a vida ali foi destruída. Ao pensar neste final, não se deve cometer o mesmo equívoco do protagonista de Caminhada Noite Adentro, erro esse, que apenas lhe deixou em total sofrimento e solidão, ele cometeu o erro de não pensar no próximo.

Em tempo, vale ressaltar, enaltecer e engrandecer a atuação de Max Schreck, atuação de pura fisicalidade e presença, sem sua presença, Nosferatu jamais traria o impacto que traz, mesmo com seus grandes planos e inventividades, Nosferatu é um filme também de direção de atores, é um filme de Murnau e Schreck.

As Finanças do Grão-Duque (Die Finanzen des Großherzogs, 1924)

O retorno da mudança através de vias marítimas, momentos esses que são os pontos chaves de compreensão de As Finanças do Grão-Duque. Mesmo que sua história gire em torno de conspirações políticas e amorosas, a mudança e reconhecimento são aspectos que fazem esse filme tão delicado e especial dentro da filmografia de Murnau. Além disso, também possui momentos geniais, que ainda possuem certas movimentações de câmera, mesmo que na época não fosse comum. Uma dessas cenas pode ser percebida no momento em que o barco chega a Abbaco e a câmera sai do barco, junto a possível esperança. 

O filme também é marcado por um toque de humor já conhecido de filmes anteriores, mas que aqui pode ser descrito com ainda mais delicadeza e leveza. A narrativa dessa história e a forma como Murnau apresenta os fatos, problemas e soluções, faz com que seja um dos filmes mais otimistas de Murnau e, claro, leves.

Tartufo (Herr Tartüffe, 1925)

Tartufo pode ser visualizado como um dos filmes mais críticos de Murnau, crítico no sentido de tentar passar uma mensagem específica ao espectador, algo que é direcionado com bastante ênfase. Com uma espécie de metalinguística, Murnau insere um filme dentro de um filme para comunicar. E o faz, deixando que não só os espectadores do filme sejam atingidos pela história, como nós sejamos por ambas. Seja com o aprendizado dos personagens do filme ou com a superação e evolução dos personagens do “meta filme”.

Travestido de comédia, o filme é muito mais um drama focalizado em ensinar do que qualquer outra coisa. Mesmo em 1924 uma crítica direcionada a religião é realizada, por exemplo – não que seja o foco crítico do filme, mas é também uma espécie de alerta a sociedade. Murnau busca a evolução de seus espectadores através do cinema, do espectador de seu próprio filme e de nós mesmos, espectadores de ambos, sendo assim, temos a chance duplicada de aprender com os erros de todas essas camadas.

Tabu (Tabu, 1935)

Tabu pode ser lido como um filme testamento de Murnau, é sobre aquilo que ele sempre esteve realmente interessado em filmar: a relação entre pessoas, suas mudanças e a busca por seus objetivos e, claro, o mar. O mar aqui, ainda mais emblemático do que em Aurora, o mar se move com a própria narrativa. Os protagonistas buscam apenas uma vida tranquila, se amando, não precisam mais do que isso, mas os costumes e a sociedade não os permitirá. A retração de toda a cultura dos povos, é filmada de forma mais genuína e honesta possível, passando o tom de realismo que faz jus a própria narrativa. Tabu é inventivo, visceral, sentimental, e um dos melhores filmes de Murnau.

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