6º Olhar de Cinema – Dia I – La Familia e a Identidade Visual

A abertura do 6º Olhar de Cinema foi marcada pela presença do filme venezuelano de Gustavo Rondón Córdova, La Familia, que faz jus a própria identidade visual da sexta edição do festival.

Partindo desse princípio, o filme foi uma excelente escolha para retratar esse viés da nova edição, sem contar que optam por um filme extremamente atual – politicamente falando -, e também por ser um filme de uma nação amiga, a Venezuela, que enfrenta uma crise política ainda mais grave que a nossa.

A nação venezuelana se aproxima muito da nossa em diversos aspectos culturais, também enfrentam os mesmos problemas sociais, portanto, a comunicação do filme com nós brasileiros, se torna no mínimo curioso. A vida nas periferias/comunidades e suas dificuldades, e é isso que sustenta o filme no final das contas, “comunidades essas”, que são justamente repetidas no pôster oficial do festival.

Com todo o ambiente político, de retratação social, o filme gira em torno de outra narrativa: da relação entre pai e filho. Entes esses, que pensam de formas extremas, opostos inerentemente, mostram-se desde o início em uma péssima relação. Obviamente, essa relação e as atitudes do filho, são facilmente atribuídas a sociedade e condições em que vivem e, consequentemente, a falta de oportunidades, portanto, a própria comunidade, o tráfico e o crime, estão totalmente ligados a narrativa. Porém, as escolhas estéticas no filme são totalmente contrárias a essa ideia. São em no máximo dois planos em que realmente podemos visualizar a comunidade/cidade sem que a profundidade de campo esteja no mínimo possível, quase que “exclusivamente” nos personagens; o filme todo a profundidade de campo é mínima, o que faz com que a cidade – que era um dos interesses da própria narrativa – nem sequer seja filmada de forma a acrescentar ao filme, e nesse ponto, a própria escolha estética contradiz em certa medida a identidade visual do festival. Não que o filme de abertura tenha necessariamente que fazer isso, mas é importante ressaltar, pois ele poderia estar totalmente ligado a isso, mas não o está, e está ao mesmo tempo, como numa espécie de ubiquidade.

Perdendo o que a escolha de filmar nas ruas, nas comunidades e na vida marginal venezuelana, teria de melhor, que era justamente ser filmada de forma honesta o filme se torna unicamente a relação entre pai e filho, o que se torna um novo problema, pois não consegue desenvolver isso de forma adequada. São poucos os momentos em que ambos se conectam ou transmitem qualquer tipo de emoção e simpatia – com relação às suas atuações e escolhas do diretor para ambientá-los. Os únicos momentos genuínos de ambos, são quando trabalham em silêncio, ali eles parecem se conhecer, sentem-se como pais e filhos, fora isso, são apenas inimigos do sistema e deles mesmos, sendo esse sentimento o único que o diretor consegue exprimir de forma sincera. Mesmo no início, duas cenas gratuitas foram lançadas e reafirmações desnecessárias realizadas: o plano em que o filho conta as balas e caminha sendo aporrinhado pelos traficantes, coisas tão óbvias, que só parecem estar ali para politizar ainda mais. A constante forma das crianças se mostrarem maduras – pelo menos no “plano” sexual e “malandro”.

No final de tudo o filme se auto-sabota, o que torna ele ainda menor. Como escolha de abertura, foi uma decisão interessante no final das contas, pois mesmo com as contradições mencionadas, toda essa política e identidade visual (e estética in-natura) não abordada, acaba sendo no mínimo vislumbrada.

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