Filme de Maio: O Barba Ruiva, de Akira Kurosawa

Por Philippe Leão

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O Barba Ruiva (Akahige)

Direção: Akira Kurosawa

Japão – 1965

Elenco: Akemi Negishi; Chishû Ryû; Eijirô Tono; Haruko Sugimura; Kinuyo Tanaka; Kyôko Kagawa; Miyuki Kuwano; Reiko Dan; Takashi Shimura; Tatsuyoshi Ehara; Terumi Niki; Toshiro Mifune; Tsutomu Yamazaki; Yoshio Tsuchiya; Yoshitaka Zushi; Yûzô Kayama.

 

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Filme de Maio: O Barba Ruiva – Akira Kurosawa

 

O Barba Ruiva pode ser considerado um filme de menor relevância na aclamada carreira do mestre japonês Akira Kurosawa. Suas três horas de duração, contudo, entregam ao espectador uma experiência única e reveladora, expondo as mais profundas doenças da alma humana.

O filme conta a história de um ambicioso médico consumido por um individualismo e prepotência perversos. Dr. Noboru Yasumoto (Yuzo Kayama) é designado a trabalhar em uma clínica popular, porém, tem como ambição ser um grande médico de Shogun, o que para ele é digno com seu nível de escolaridade. Contra sua vontade o médico fica na clínica e, em um primeiro momento, é rebelde a sua condição. Seu comportamento é simbolicamente representado por sua escolha em jamais utilizar o uniforme que, obviamente, lhe identifica como médico de uma clínica “degenerada” às suas capacidades.

Ao se apresentar ao Barba Ruiva, o rebelde e jovem doutor fica indignado com sua condição. Almejando ser um médico de Shogun, Noboru recusa usar o uniforme da clínica. (Noboru encontra-se à direita da imagem, enquanto o Barba Ruiva e outro médico utilizam o uniforme).

A construção do primeiro ato soa para muitos um pouco arrastada, mas sua função é perfeita a medida que estabelece seu personagem principal e, em especial, nos apresenta o misterioso Barba Ruiva (Toshiro Mifune). Em um primeiro momento o personagem de Mifune é apresentado quase como um ditador, impondo regras de convívio dentro da clínica. Com o desenvolvimento da trama percebemos que sua imposição não passa de regulamentações para melhor atender a quem mais precisa. Os pobres e doentes. Em determinado momento o Barba Ruiva ordena que o médico recém chegado, nosso personagem principal, entregue-lhe os relatórios de seus aprendizados. Ao receber a recusa do jovem rebelde, o chefe da clínica afirma ser o conhecimento médico livre de direitos, deve ser de todos.

Assim, nos atos seguintes o antes ditador começa a se construir como um herói, como um guia para os inexperientes médicos, em especial o Dr. Noboru Yasumoto. Mifune imprime em seu personagem características bastante significativas: o mexer na barba, o caminhar diferenciado e a forma de falar lhe entregam uma aura de um monge detentor de conhecimentos a serem descobertos.

Ao tempo que há uma mudança na percepção do personagem de Mifune, as características do Dr. Noboru também se alteram a medida que o filme desenvolve. A constante construção do prepotente doutor vai abandonando um individualismo extremamente egoísta que procura exercer sua profissão de acordo com suas ambições elitistas, porém, sua percepção com o meio e os ensinamentos do agora Mestre – O Barba Ruiva – faz com que mude aos poucos.

Para isso Kurosawa construirá seu filme quase como uma antologia dos acontecimentos. Aos pobres enfermos é dado uma história quase deslocada da trama principal e, ao tempo em que o jovem doutor é penetrado por essas narrativas, consegue entender o quanto pode aprender e o quanto é útil entre aqueles que precisam de seus conhecimentos. Em um simbolismo riquíssimo e uma rima visual repleta de poesia Noboru passa a usar seu uniforme.

Uma jovem aparentemente histérica conta-lhe o que porventura teria passado em uma infância tenebrosa, ao tempo que quase mata o jovem médico ainda rebelde. Em outra história um enfermo a beira da morte faz com que nosso personagem tenha contato com a morte em um primeiro momento fazendo com que tenha uma outra visão sobre o acontecimento. A ideia do sofrimento como causa da doença e morte é invertida. Aqui a morte é tratada sob um valor romântico, onde o sofredor alcança a paz. Uma visão Schopenhaueriana sobre as dores do mundo que percorrerá por toda a metragem. Mas é, em especial, na história de um pequeno menino que constantemente roubava comida da clínica que o filme atinge o ápice de sua filosofia.

Para chegar a tal, contudo, devemos antes falar da história de uma menina que, aos seus 13 anos de idade, sofria abusos que os deixou com sérios problemas psicológicos. Entregue aos cuidados de Dr. Noboru, essa foi a maior de suas experiências como médico e um marco na narrativa. A recuperação da jovem acompanha a extinção da doença da alma de Noboru. Barba Ruiva percebe que o afeto é crucial para a recuperação da jovem.

A jovem abusada é salva por Noboru e O Barba Ruiva e levada a clínica.

 

Em recuperação entra em questão o pequeno ladrão. O afeto entre ambos é evidente, a menina antes abusada encontra uma forma de ajudar o próximo e fazer com que este não precise mais roubar. Até que chega o momento cataclísmico, o pequeno menino avisa para a moça que não voltará mais, que sua família prometeu estar viajando para um lugar melhor, onde pássaros cantam sem parar. É claro, mais uma vez estamos falando das dores do mundo daqueles que são miseráveis em sua existência. A família inteira tenta cometer suicídio e, em uma tentativa desesperada, como um mito local, todas as mulheres gritam o nome do menino em um poço para tentar trazer sua alma de volta. O desespero toma conta da tela e uma câmera que aproxima o poço e reflete o desesperado semblante da jovem antes abusada na água cria uma das cenas mais lindas em Kurosawa.

Por fim, O Barba Ruiva é um filme que está em constante mudança. A linha principal do jovem médico confunde-se com os aprendizados com seu mestre e as histórias dos enfermos. Assim, o longa trata de uma antologia sobre a miséria da alma. Do fisiologicamente doente e vitimados pela pobreza extrema ,àquele impregnado pelo idealismo racionalista que confere às coisas valores primordiais.

 

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