A Caça e a Ironia Romântica

Por Philippe Leão

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A Caça 2
Ao mesmo tempo que o olhar é direcionado para seu amigo, Lukas olha diretamente para a câmera. O julgamento é estabelecido, somos testemunhas racionais de sua inocência, mas a ironia é escudo do poético, não permite que a razão destrua a narrativa.

 

A Caça e a Ironia Romântica

A filosofia do romântica buscava um rompimento com o que se dizia ditadura da razão. Dessa forma, os românticos visam romper com a modernidade e a filosofia da razão trazida pelo renascimento e consolidada na racionalidade pura do Iluminismo.

Em termos narrativos, a racionalidade pura prejudica os mistérios em sua constante tentativa de mensurar, de buscar uma explicação pratica e racional para os eventos. A revelação dos mistérios pressupõe uma perda de força narrativa, uma decadência poética.

Vive na poesia a anulação das leis da razão. Racionalizar o poético significa perde-lo, não ser. No caos da natureza humana vive a verdade, e esta não pode ser mensurada.

O combate a essa racionalidade pelos românticos vem da ironia, e nela a esperança de vida à poesia. Contudo, a ironia romântica não representa uma figura retórica no qual se insinua algo enquanto deseja dizer o oposto. Também não se trata da ironia socrática: “só sei que nada sei”. Serva da razão – nada sei e por isso devo buscar, através da razão, saber mais, mesmo sabendo que jamais teremos todo o conhecimento do mundo – e amplamente difundida pelos iluministas.

Na ironia comum, os românticos descobriram o desconhecido. No sabido encontrou-se a dúvida. Um mundo rico de significados surpreendentes.

Ao depararmo-nos com o primeiro e conhecido ponto de virada de A Caça – a acusação de pedofilia por parte da menina à Lukas, seu professor – Há o conhecimento, sabemos que Lukas nada fez, mas não cabe à razão explicar a natureza humana. No conhecido – sabemos que Lukas é inocente – nos é entregue o desconhecido, a ironia romântica. O professor entra em um túnel sem fim, no final desse túnel, dessa caverna, não há um mundo inteligível, há mais escuridão, mais dúvidas. A razão nos diz a todo instante: “Ele não fez nada!”, mas o desconhecido supera nossas expectativas, e é ele que transforma A Caça em uma narrativa memorável.

A Caça
Com a mesma razão, a sociedade protege a menina. Contudo, a natureza humana é imensurável, irracionalizável, e o desconhecido está sempre presente.

 

Com o desenrolar dos acontecimentos, porém, vemos a razão ganhando espaço diante do desconhecido. As investigações caminham a inocentar Lukas. Como em um filme de policial de sessão da tarde, A Caça não poderia caminhar para um final pior. Seria detestável essa vitória da razão (em termos narrativos, que fique claro). Ao tentar a tudo mensurar, a razão busca a finitude dos acontecimentos, por outro lado as possibilidades da natureza humana através do romântico são infinitas.

Assim, todo enunciado determinado significa, diante da ultracomplexidade do mundo, uma redução de complexidade. A razão é capaz de reduzir a complexidade com a qual o caos se estabelece (se entende caos não como desordem).  Nenhum comunicado é verdadeiramente capaz de se fazer entender através da razão ou de forma alguma. As possibilidades são infinitas e o mundo um oceano de incompreensões. Assim, ironia é produzir frases compreensíveis que, quando se olha bem, aludem ao incompreensível. Por isso, o desconhecido novamente se revela. Ao final, Lukas dando uma de caçador, retorna a ser a caça que durante toda a extensão do filme fora. Eleva-se a narração novamente ao indeterminado, ao poético, as inúmeras possibilidades que não nos farão esquecê-lo.  O incompreensível é, portanto, a força viva que seria ameaçada se a razão o desvendasse completamente. O não saber é uma exigência da vida.

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