Crítica: Alien: Covenant

Por Matheus Fiore

O autor é dono do site parceiro – Plano Aberto

Estados Unidos – 2017
Direção: Ridley Scott
Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Carmen Ejogo & Amy Seimetz.

Em 1979, Ridley Scott mudou o terror e a ficção científica com Alien, o Oitavo Passageiro, primeiro filme da interminável franquia. Ali, notamos tudo que um bom terror precisa: vasto e vulnerável time de personagens, uma ameaça imponente, com visual amedrontador e silhueta marcante, uma direção que sabia causar tensão mesmo quando nada acontecia, um design de produção que torna a situação crível e uma protagonista heróica. Em suma, um filmaço. Após o primeiro longa, porém, Ridley Scott partiu pra outra (um tal de Blade Runner). Alien, então, caiu nas mãos de James Cameron, se tornando uma longa franquia de ação que, entre altos e baixos, cativou uma legião de fãs. Em 2012, Scott decidiu voltar à sua história e dirigiu Prometheus, um prelúdio que decepcionou pelo paupérrimo roteiro.

Chegamos, então, em 2017. Ridley Scott volta à franquia Alien mais uma vez. Dessa vez, com uma continuação direta do infame Prometheus. Na trama, acompanhamos os passageiros da nave Covenant, que dez anos após os eventos do antecessor, chega a um planeta após receber uma transmissão humana. Como espera-se, claro, tudo dá errado e agora os personagens devem lutar por sua sobrevivência. Após tentar mergulhar em um filme mais filosófico em 2012 (quando fracassou miseravelmente), Scott aqui prometia voltar às origens da saga: o terror. Infelizmente, o terror de Covenant é um dos pontos fracos. A violência e o sangue jorrando estão lá, claro. Mas não há medo nem tensão ou clima. E o motivo é até óbvio. Em 1979, o terror existia não só pela figura do xenomorfo, mas pelo desconhecimento dos tripulantes da nave Nostromo sobre seu paradeiro. Antes de descobrirem sobre sua existência, Ripley, Dallas e cia sempre eram pegos desprevenidos (assim como o público), e o uso da câmera subjetiva fortalecia isso por nunca sabermos por qual ponto de vista estávamos observando a cena.

Em Covenant, Scott faz o contrário. Em toda aparição do xenomorfo, há inúmeros planos enaltecendo o belo trabalho de computação gráfica que constrói o monstro. Inclusive, em momentos desnecessários, quando o alienígena perambula pelo planeta em direção aos humanos. O uso da câmera subjetiva também não funciona, sendo utilizado nos únicos momentos em que o Alien realmente ataca, tornando a cena previsível. A montagem ainda prejudica ao ordenar os ataques em sequência às cenas que trazem o ser indo em direção aos personagens. Não há surpresa ou quebra de expectativa, o público sempre percebe o que e quando vai acontecer.

O filme tem dois grandes momentos. O primeiro é a cena de abertura, que estabelece  a natureza do androide David e suas motivações de se tornar um criador. Além de esteticamente bonita pelo lindo cenário, a cena também é importante para cimentar o desprezo que o robô interpretado por Michael Fassbender sente pelos humanos, quando ele expõe uma fragilidade de seu criador, o dono da Weyland Corporation, e o empresário, numa atitude infantil, o força a executar uma tarefa “inferior” para estabelecer sua hierarquia.

E falando de hierarquia, eis outro problema do filme. Em muitos elementos, Scott repete a fórmula do filme de 1979, mas em poucos acerta. No original, Ripley se torna a líder de sua equipe por sua postura, por ascender ao poder graças às suas boas escolhas diante de situações emergenciais. Aqui, a protagonista (Danny) só chega à liderança por hierarquia e não possui mais do que uma cena que a desenvolva, que é justamente sua primeira. Todas as suas escolhas posteriores enfraquecem sua personalidade. Há um momento, por exemplo, em que ela aconselha seu capitão a não fazer algo porque colocaria a tripulação em perigo. Ele não a escuta e mantém sua postura, e Danny simplesmente aceita, de braços cruzados, e segue suas ordens, praticamente oposto ao que Ripley fazia.

Scott parece não se interessar mais por aprofundar seus personagens e joga para agradar seu público com os famosos “fan services”. Na cena em que David finalmente se sente um criador, por exemplo, cria-se um clima de tensão com a iminente morte de um dos personagens. O problema é que logo após estabelecer essa tensão, o filme insere piadas que tornam a cena não triste, violenta ou nojenta, mas… Engraçada. Claro que não é um defeito, e sim uma escolha. Mas em um filme que se propõe a ser um terror, tornar um momento que poderia ser glorioso e até assustador em algo engraçado é, no mínimo, questionável.

Há acertos na construção dos personagens. O capitão Oram, vivido por Billy Crudup, por exemplo, tem rumos interessantes. Por não ter sido escolhido originalmente para liderar a equipe, sente-se inseguro no posto de líder e não vê seus subordinados acatando suas ordens facilmente. É curioso ver que, além dos diálogos (um pouco óbvios e expositivos) que trazem suas inseguranças, há momentos de sutileza que aprofundam o personagem, como quando perguntam sobre “o líder da missão” e, relutantemente, Oram responde, incerto se deveria se apresentar como chefe.

Na primeira aparição alienígena, Covenant também tem vislumbres de um bom terror. Até ali, o filme fazia uso de planos muito harmônicos, com predominância de uma fotografia ora azulada, ora acinzentada, além de quadros em constante e lento movimento, dando a impressão de que o filme progredia. Com o primeiro “parto” extra-terrestre, porém, há uma mudança enorme no uso das cores. Não só o vermelho entra em cena (graças ao já famoso banho de sangue que o “parto” traz), mas os planos perdem a harmonia mencionada acima, passando a ser mais trêmulos com o uso de câmera na mão. Com tantos defeitos, resquícios do brilhantismo de outrora ainda destacam os trabalhos de Ridley Scott dos demais.

Há outros jogos visuais interessantes, como o reflexo de um dos personagens que mostra como ele “enlouqueceu” e desvirtuou de suas diretrizes primárias, com o rosto distorcido na imagem. Mas sempre há uma sequência com problemas no roteiro para trazer a narrativa para baixo. Há uma sequência vergonhosa onde uma sub-comandante não apoia as decisões de seu superior em duas situações consecutivas. Quando ele precisa de sua ajuda na terceira, porém, ela abre mão de todos os seus princípios e aceita ajudá-lo, simplesmente porque o roteiro exigia sua colaboração. Esse momento sintetiza o script de Covenant: um roteiro que não desenvolve seus acontecimentos, apenas os distorce à bel-prazer para levar a narrativa ao rumo desejado.

Alien: Covenant não é a volta da franquia ao terror como foi prometido e mal consegue superar seu antecessor, o problemático Prometheus. A falta de profundidade do roteiro e de seus personagens impede que o público crie qualquer empatia pelas vítimas do horror proporcionado pelo xenomorfo. Em um filme do gênero, o maior crime que pode ser cometido é fazer o público não lamentar, mas rir da morte dos personagens, que, infelizmente, é o caso. Ao fim do dia, Covenant não se justifica como prelúdio ou continuação, funcionando apenas como um sci-fi de horror genérico e insosso.

★★

Um comentário em “Crítica: Alien: Covenant

  • 9 de maio de 2017 em 23:57
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    Muito bom o texto, divertido!
    A crítica bem colocada se torna uma leitura agradável e engraçada.

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