Filme de Abril: O Leopardo – Luchino Visconti

Por Philippe Leão

Filme: O Leopardo

País: Itália

Ano: 1963

Elenco: Burt Lancaster; Alain Delon; Claudia Cardinale, Anna Maria Bottini; Brook Fuller; Carlo Valenzano; Giancarlo Lolli; Giovanni Melisenda; Giuliano Gemma; Halina Zalewska; Howard Nelson Rubien; Ida Galli; Ivo Garrani; Leslie French; Lola Braccini; Lou Castel; Lucilla Morlacchi; Marino Masé; Olimpia Cavalli; Ottavia Piccolo; Paolo Stoppa; Pierre Clémenti; Rina Morelli; Romolo Valli; Sandra Christolini; Serge Reggiani; Terence Hill.

 

Confira a análise em vídeo!

O Leopardo é reconhecido como um dos maiores filmes já feitos. Dirigido pelo mestre do Cinema italiano, Luchino Visconti (Obsessão), trata-se de um épico histórico situado na Sicília as vésperas da unificação da Itália. Como pano de fundo a revolução garibaldiana. Assim como em Doutor Jivago, porém, a revolução é “apenas” um gatilho para os conflitos morais de uma aristocracia decadente. Visconti trabalha a revolução de forma a tornar o filme muito mais do que sobre acontecimentos históricos, mas o desdobrar destes nas individualidades e nas classes sociais, em especial a dominante aristocracia. Para isso, o personagem principal, Príncipe de Salina (Burt Lancaster), não é mais que um voyeur do que estaria se tornando a Itália. Não se trata de um grande herói que tenta, a qualquer custo, a revolução, ou impedi-la, mas um agente mais observador do que ativo da atuação revolucionária que, de uma forma ou de outra, mudaria em definitivo as estruturas aristocráticas.

A percepção da decadência e a tentativa de manutenção do poder diante da inevitável mudança é o cerne em um primeiro momento. Tancredi (Alain Delon), sobrinho de Don Fabrizio, o príncipe de Salina, torna-se um revolucionário assim que a Revolução Garibaldiana desembarca na Sicília, – interessante perceber que o herói da história, o personagem principal, não é o agente ativo, mas o sobrinho – não como um entusiasta, um sonhador, suas intenções são claras: “se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, frase que profere a seu tio. É evidente desde a abertura construída por Visconti – vemos membros da família reunidos em um cômodo rezando aterrorizados com a revolução que do lado de fora germinava – que a aristocracia temia a perda de poderes. Para que isso não acontecesse tudo precisava mudar, e permanecer como antes. A construção da cena em questão estabelece uma riquíssima capacidade imagética de conduzir os sentimentos. O uso do plano onde apenas os aristocratas amedrontados são mostrados exclui qualquer elemento externo da imagem, mas os introduz através do som. Do lado “de fora da imagem” escuta-se os tiros, a presença se faz ausente aos olhos, mas perceptível aos amedrontados agentes dominantes incrédulos perante ao seu iminente desaparecimento enquanto classe.

Mesmo diante a essa histeria, Don Fabrizio reconhece a importância da revolução para a manutenção de seus interesses. A circularidade nas relações de poder é apresentada de forma magistral, ao mesmo passo em que Don Fabrizio repudia o novo mundo que está por nascer, sustenta seu sobrinho na revolução e reconhece ser este o único mundo possível, ao tempo que vê a decadência da aristocracia. Mais uma vez o Principe de Salina não é mais que um articulador, um observador do que pode vir a ser.

O casamento arranjado entre Angélica (Claudia Cardinale), filha do burguês Don Calogero (Paolo Stoppa), e Tancredi (Alain Delon) representa a união entre a velha aristocracia e a classe em acensão, a burguesia.

Lutar contra a unificação política seria inevitável. Então em um ato extremamente simbólico de defesa, a aristocracia em decadência se une a classe em ascensão, os burgueses. O casamento arranjado entre Tancredi e Angélica (Claudia Cardinale) criaria um novo signo ao constante olhar voyeur de Don Fabrizio. Visconti irá abusar do Efeito Kuleshov para sugerir o olhar observador de seu herói-passivo. A articulação da câmera entre um plano no rosto do Príncipe e, em seguida, o que ele observa é uma constante para ampliar o sentimento de ambíguo entre a necessidade do novo mundo e o repúdio ao mesmo.

O conflito descrito provoca uma dialética em constante movimento. Ao contrário das personagens femininas ao longo do filme, Angélica é uma mulher diferente não apenas por sua beleza também explorada, mas por seus hábitos em oposição a solidez da etiqueta aristocrata, sua força e vontade de potência. Desde o primeiro momento sua presença é percebida e suas diferenças exploradas. Em uma atuação brilhante, a personagem de Claudia Cardinale ri alto em um jantar aristocrático.

Angélica é o novo e, em sua presença, o antigo passa despercebido na cena mais marcante da obra, o baile. Em meio a muitas mulheres sem individualidades, corrompidas por uma moral aniquiladora das vontades, revestidas por máscaras sociais agora ultrapassadas pelo que é novo, Don Fabrizio concede uma dança a jovem. O ímpeto de Angélica convence a velha aristocracia a dançar conforme a música, o novo pede passagem, e a ele foi dado.

 

Em uma das cenas mais belas da história do Cinema o novo pede passagem ao antigo e este dança conforme a música da história!

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