“Suspiria” e o Sentido do Oculto

Por Leonardo Carvalho

Itália- 1977

Direção: Dario Argento.

Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Joan Bennett.

“Suspiria” e o sentido do oculto 

 

Nos filmes de terror, principalmente, muitas cenas com espelhos e com escuridão são acionadas para criar alguma expectativa no espectador. Em algumas ocasiões, encontramos diversos momentos em que achamos estar vendo alguma coisa no reflexo do espelho ou no meio de um canto escuro.

É difícil achar um filme voltado para o suspense melhor que “Suspiria” para trabalhar esse tipo de aspecto. Não é preciso ser um grande observador da estética fílmica para perceber que o longa-metragem é recheado de detalhes em sua cenografia. Em um dos primeiros momentos, quando a protagonista vai a um hotel, vemos que as paredes avermelhadas são compostas por inúmeras figuras geométricas.

Essas figuras parecem não significar nada, mas conforme o espectador embarca nos medos da menina americana recém-chegada em uma escola de dança na Alemanha, percebe que tudo por lá é muito oculto, e nesse oculto os atos são realizados de maneira metrificada, como se tudo fosse calculado, como a perfeição simétrica de uma figura geométrica. O assassinato que acontece no local onde está a menina é muito calculado.

Bem, são interpretações de acordo com a rica imagem apresentada em toda a duração do filme. Pensando em um caminho oposto, não daquele que possui visões sobre detalhes, temos a sensação de existirem pseudovisões sobre algo que parece não existir no interior dos enquadramentos do longa-metragem.

Vemos que isso é proposital, pois o plano fica fixo em imagens que pedem para que o espectador imagine que exista alguma coisa por lá. Dois momentos devem ser destacados. O primeiro é ainda no hotel, quando uma menina, sentindo-se ameaçada, olha diversas vezes para a janela, e consequentemente para fora dela, enquanto o ambiente está todo escuro em seu lado externo.

Continuando, Dario Argento sugere  que a imagem da janela, quase em um plano subjetivo, seja visitado e revisitado, com um olhar cru, ou com o auxílio de um abajur para iluminar aquele pedaço, para que o espectador tente achar algo por lá. Surpresa! Uma sensação de oculto foi criada e um susto foi causado.

O leitor pode pensar que isso é um estereótipo, mas é um esquema pouco repetido, não há tanta exploração, não é repetitivo, portanto, não fica esgotado. O outro exemplo, por outro lado, não provoca o susto, mas em um plongèe enxergamos com uma luz noturna a visão completa de um quarto, e uma movimentação por parte de uma atriz concede tensão, procuramos o tempo todo por algo que possa estar por lá. Desta vez, não há susto.

É uma brincadeira muito válida para a proposta do gênero, que é ser tensa através das expectativas criadas pela direção do suspense, seguido ou não de surpresa. Vale dizer que a trilha musical, composta pela banda italiana Goblin em sua segunda parceria com Argento, é acionada nos momentos certos para perturbar, em outras situações ela é ausentada para acomodar o suspense.

Agora, voltando à parte interpretativa, saindo do campo da sensação do invisível, “Suspiria” abusa da perturbação pela música citada acima, e pela exagerada, mas positiva, exploração do vermelho, seja no esmalte, nas paredes dos locais ou no suco derramado em uma pia. Já na chegada da protagonista é possível enxergar a vermelhidão. Para falar a verdade, o longa-metragem é muito sangrento.

Para fechar, é bom dizer que há cortes rápidos e uma gradação de horror com o passar do tempo. Argento, por mais que tenha deixado um final bem expositivo, mostra como sua maturidade chegou em um momento brilhante de construção. “Suspiria” é uma referência no campo do terror e suspense, uma aula de exploração da imagem e do som sobre a proposta.

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