Critica: A Ovelha Negra

Por Leonardo Carvalho

 

Islândia – 2015

Direção: Grímur Hákonarson

Elenco: Sigurour Sigurjonsson, Charlotte Boving, Gunnar Jónsson, Theodor Juliusson.

“A Ovelha Negra”, obra selecionada no Festival de Cannes e bastante reconhecida na premiação, não é uma narrativa de fácil digestão. Em primeiro lugar, trata-se de uma cultura muito diversa em muitos sentidos, o que é interessante até. Em segundo lugar, o principal fator, é o formato como a película é composta, sobretudo em termos de ritmo.

O enredo é cercado por pessoas de uma zona de habitação isolada na Islândia. Por lá, anualmente, existe um concurso para que seja escolhido o melhor carneiro, levando em conta a lã, os músculos, ou seja, toda a aparecia fisionômica. Dois irmãos que não se falam há muito tempo disputam, sendo que um vence, enquanto o outro, o protagonista, fica em estado de revolta, chegando a descontar essa raiva no próprio carneiro.

O formato do longa-metragem condiz perfeitamente com a proposta. O ritmo, um dos fatores primários para a execução da intenção do filme, consegue quase paralisar o espectador em uma lentidão tal qual a vida dos personagens. Estamos em uma região rural da Islândia, banhada por montanhas e gramas, banhada por carneiros, mas não é muito ocupada por humanos, eles são deslocados no local de tanta natureza.

Durante toda a duração da película existem poucos deslocamentos daquele local, e a passagem do tempo, quando acionada, é acionada de maneira sutil, ou seja, sem um movimento drástico. Essa passagem de tempo acontece ao vermos a barba de um personagem crescer, ou a troca de estações. Se aquela zona já era isolada em um clima mais ameno, imagine no inverno, época em que o gelo engole o local.

Mesmo que haja um número muito pequeno de pessoas, são duas delas, os dois irmãos, que ditam a história. O conflito entre eles vai crescendo gradualmente, a ponto de imaginarmos que um deles vai matar o outro. Mais uma vez, os movimentos são sutis, mas é possível entender que naquele local isolado algum deles fará algo grave, ainda mais quando envolve a disputa por causa dos cordeiros. São poucos os momentos em que as ameaças tornam-se muito extremas, tal como a parte em que um, ainda no começo, acerta a janela do outro com um tiro.

Não existe uma ovelha negra, só se levarmos em conta a figura física de um carneiro escuro. Os dois irmãos, desculpe-me o termo, são “farinhas do mesmo saco”. Eles brigam por pouco, ou brigam por muito, mas como o longa-metragem quer voltar as imagens à relação de ambos, esse ditado popular mostrado aqui é a melhor forma para resumir a película, ditado esse justificado, também, em um clímax dramático, oposto sobre tudo o que estamos assistindo – como bisbilhoteiros – em boa parte da narrativa, mostrando a relação duvidosa entre amboso os personagens.

A representação de ambos é boa, joga faíscas de maneira natural a todo o ambiente isolado. Ainda, existe uma boa trilha musical, capaz de complementar, pontualmente, a tensão e a solidão como duas palavras essencias para o entendimento do longa-metragem. Ao mesmo tempo que é “parada”, a obra incomoda – de maneira positiva – pelo conflito constante dos personagens principais.

Esse formato com poucas variações é de difícil digestão para um espectador mais acostumado ao cinema convencional de Hollywood. Mesmo assim, “A Ovelha Negra” merece a atenção do espectador mais apaixonado por composição, do espectador mais apaixonado pela arte.

★★★★★

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