Crítica: A Árvore da Vida

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 2011

Direção: Terrence Malick

Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn.

É preciso que haja um nível enorme de insensibilidade e insensatez para colocar “A Árvore da Vida” como um filme do National Geographic Channel. Junto a “Além da Linha Vermelha”, temos aqui a grande obra-prima de Terrence Malick, que é extremamente poética, vencedora do principal prêmio no Festival de Cannes na ocasião.

Desde o começo da narrativa, é preciso entender que existe um diálogo entre o criacionismo e o evolucionismo. A fé por parte dos personagens, como uma forma de sensibilidade afetiva por meios divinos como elementos de explicação a todos os acontecimentos. Em um plano mais externo, o universo sendo formado é visto através da biologia evolutiva, desde os primeiros passos da vida no planeta Terra, passando pelos dinossauros, chegando nos humanos, até a extinção destes.

O diálogo entre as duas linhas de pensamentos acontece pela razão de unir uma voz over de uma personagem que acaba de perder um dos filhos junto à evolução da vida no mundo. A mãe do menino recém-falecido entende que Deus é quem cura, mas é quem coloca a ferida; é quem coloca a vida, mas é quem a tira. São dois movimentos que são casados em “A Árvore da Vida” para discutir a evolução dos seres vivos em dois planos diferentes.

Enquanto a Bíblia, livro básico para a construção da narrativa, enxerga a vida, praticamente, como uma condição humana em termos de regras a serem cumpridas perante a Deus, ou até mesmo uma punição do ser tão poderoso ao homem, a Biologia Evolutiva, ciência que também serve de base para o filme, entende a vida como uma forma de adaptação e evolução, de transformação, e o ser humano, diferente do livro sagrado que o preza demais, é enxergado apenas como mais uma espécie no meio de tantas outras. Todas as duas teorias estão somadas no longa-metragem o tempo inteiro, podendo o espectador enxergar, se tiver um pouco de reflexão, as ações humanas pelos dois caminhos.

O cristianismo pode enxergar o ato de julgar como um pecado terreno, já que Deus é o único que pode cometer tal ato; a ciência, por outro lado, atribui a ação como uma característica humana, um ser dotado de racionalidade e capaz de se diferenciar dos animais justamente pelas memórias articuladas que o fornecem bases para o julgamento. São muitos os momentos do filme em que é possível enxergar os atos das crianças e dos adultos como aprendizados, sejam estes aprendizados da natureza humana ou da natureza divina.

Não há espaços para encaixar uma teoria como superior a outra. Poder-se-ia falar até que o lado espiritual é muito enfatizado aqui, pois serve de base para a família protagonista, além de haver os principais caminhos poéticos do longa-metragem. É possível interpretar três grandes momentos da estrutura da película de acordo com passagens bíblicas: a vida da família como o jogo de erros e acertos dos seres humanos, os aprendizados do que é errado e do que é certo, as punições, isto é, o ser humano e sua relação com os dogmas cristãos; com algumas alternâncias ao longo da narrativa, o apocalipse, em que um mundo de caos urbano está formado; finalmente, a terceira, com mais ênfase na conclusão em imagens de uma praia, uma espécie de paraíso.

Tudo é muito delicado em “A Árvore da Vida”. A fotografia com iluminação natural do genial Emmanuel Lubezki energiza bem o plano mundano com algumas penetrações do plano divino. Essa interseção acontece com a escolha de enquadramentos tortos, muito espontâneos, atrelados a paisagens, ao vento, ao sol, a fatores abióticos. O diretor sugere com muita maestria os enquadramentos mais fixos, mais duros, quando há atitudes mais rudes de um pai com seus filhos e sua esposa.

O crescer humano é muito pequeno se comparado com o crescer da natureza. Os humanos se adaptam rapidamente para com sua forma de viver em uma sociedade organizada, isto é, para com as responsabilidades da vida sobre o que pode e o que não pode fazer. A natureza universal, porém, demora a afinar seus mecanismos de adaptação, são processos lentos, mostrando que a adaptação de vida é muito maior do que a adaptação sobre negócios e responsabilidades.

Deus concede, mas tira, a natureza também, a energia natural precisa da morte para que evolua, sem ela a vida estaria estatizada, sem a evolução nos recursos de adaptação. O jogo duplo da natureza e da religião é uma poesia belíssima em “A Árvore da Vida”, com uma estética única e de uma amplitude que oferece riquezas em imagens.

★★★★★

Um comentário em “Crítica: A Árvore da Vida

  • 14 de abril de 2017 em 03:51
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    Se o seu foi Psicose, que o colocou no mundo dos filmes, o meu foi a Arvore da Vida. Primeiro sem entender nada, mas aprendendo que o cinema poderia ser mais que uma simples narrativa com apresentação, climax e desfeixo

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