Crítica: The Eyes of My Mother

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 2016

Direção: Nicolas Pesce

Elenco: Kika Magalhães, Will Brill, Diane Agostini, Clara Wong.

O estereótipo do homem louco foi colocado em cena logo no começo do independente “The Eyes of My Mother”, filme de estreia do diretor Nicolas Pesce. Vemos que um homem esquisito chega à casa de uma humilde família, que vive num lugar calmo, certamente uma área rural, e pensamos, rapidamente, na ideia de que ele cometerá algum crime com essa família.

Isso é ruim para a narrativa, a previsibilidade é muito ruim, na verdade. Seria muito melhor se o diretor não utilizasse planos muito próximos do descabelado homem que fica fazendo caretas, além de que não deveria utilizar diálogos para deixar claro o que ele fará, isto é, todo o estereotipamento acerca da construção física do personagem poderia ser trocado para propagar mais surpresas.

Tirando isso, a apresentação é excelente, sendo que ela se projeta de uma forma que chama muito a atenção em diversos outros aspectos, ou seja, compõe uma atmosfera muito boa através de uma pegada à lá “Mártires”. É preciso muito estômago para acompanhar o que o filme dispõe. Tudo bem que não é um longa-metragem escrachado em agressividade apenas por causa de mutilações, de sequestro e de mortes, mas todo o silêncio promovido é excelente, condiz com o isolamento proposto. O público, portanto, necessita de estômago, de forças, para aguentar essa fábula macabra de pouco mais de uma hora de duração.

Há uma trilha musical, sim, mas ela aparece de maneira pontual, apenas para engrossar certos aspectos doentios cometidos por uma menina que, traumatizada, começa a manter as pessoas como reféns eternos em um celeiro ao lado de sua casa. A melodia aparece de maneira quase silenciosa, quase imperceptível, cria um peso muito grande quando casa com as imagens fortes por natureza, ainda mais quando sabemos sobre o que aconteceu nos primeiros momentos do filme.

O mais curioso de tudo é que a protagonista arranca os olhos dos indivíduos, uma espécie de homenagem da sociopata – sociopata porque ela mata e machuca sem sentir qualquer peso na consciência – à mãe, uma ex-cirurgiã de olhos que foi assassinada na sua frente pelo homem citado no primeiro parágrafo deste texto. A ideia é doentia, e a construção fílmica ajuda a marcar a identidade de peso.

Somando mais fatores para essa criação de clima doentio, silencioso e pesado, ou melhor, claustrofóbico, há a utilização da fotografia em preto e branco. A escolha por esse tipo de película está, claramente, voltada para a ideia de monotonismo por parte da menina, além de valorizar, de maneira ampla, o toque sombrio que a obra possui. Para isso, uma iluminação precisa foi acionada, para deixar evidente que todo aquele local é macabro, podemos até dizer assombrado, assombrado por fantasmas do passado, por traumas muito sérios que vão evoluindo gradualmente. Em muitos momentos vemos a luz apenas em certos pontos, nos pontos onde a atriz está no espaço cênico. Tudo é muito calculado por Pesce.

É bom falar também do lento ritmo jogado na obra. Em primeiro lugar, ele serve para adicionar a questão proposta de claustrofobizar o espectador. Em segundo lugar, não menos importante, o mesmo ritmo lento pede para que o espectador aproveite cada quadro do filme, que mais parecem pinturas, brilhantemente dirigidos. Esses quadros contêm significados, como uma aproximação às expressões dos atores; esses quadros, através do distanciamento, formam o isolamento; esses quadros mostram a métrica na movimentação, sem muitas tremidas, para deixar claro que todas as atitudes da protagonistas são calculadas; quando o enquadramento treme, vemos a tensão; é possível entender que existe uma elegância enorme em termos cinematográficos, aproximando as imagens, muito bem iluminadas também, como foi dito acima, ao sublime.

Uma pena que a escolha da atriz Kika Magalhães não tenha sido uma das melhores. Ela erra em muitos movimentos faciais, assim como não consegue se expressar muito bem através de olhares para jogar significados de loucura. É verdade que o diretor deveria coordenar melhor os cortes para que tudo isso não ficasse muito forçado, ou até mesmo coordenar melhor a atriz em relação ao que foi falado, mas é nítido que há problemas voltados puramente à moça, quem precisa de mais naturalidade em sua representação, ainda mais sobre um filme independente.

É um filme reto, com viradas no roteiro, mas sem aqueles tipos de viradas como estamos acostumados a ver em Hollywood. São viradas mais singelas que servem apenas para impulsionar o desenvolvimento. Mais ao final, quando achamos que haverá um clímax, há um corte sábio da equipe para que não exista escorregões em fórmulas que já estamos cansados de assistir. Resumindo: quando achamos que haverá mais movimentação, o filme acaba.

Há uma coerência muito grande por parte do diretor estreante Nicolas Pesce, a não ser sobre os erros falados acima. Mesmo assim, deve-se reconhecer o trabalho de um cineasta promissor, que em sua obra de estreia já surpreende muita gente grande por sua enorme sensibilidade artística de construir um filme sem deixar escorregar em estereótipos dentro de um enredo já batido na história do gênero no cinema.

★★★★☆

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *