Filme de Março: EROS+MASSACRE – Kiju Yoshida

Por Philippe Leão

Direção: Kiju Yoshida
País – Japão
Nome Original: Eros+Massacre
Ano: 1969
Elenco: Toshiyuki Hosokawa; Mariko Okada; Daijiro Harada; Ejko Sokutai; Etsushi Takahashi; Kazuko Ineno; Masako Yagi; Taeko Shinbashi; Yuko Kusunoki

Confira a análise em Vídeo!

Depois de assistir a outros dois filmes do diretor Kiju Yoshida (Purgatório Heróica e Paixão Ardente), finalmente chego a Eros+Massacre. A introdução nos filmes mencionados foi importante para a percepção do diretor em questão. O japonês traz um cinema diferente, irreverente e subversivo tanto em suas temáticas como em sua montagem e fotografia, esta logo se escancara ao assisti-lo. Não poderia ser diferente, Yoshida encabeça – junto a Nagisa Oshima – a Nouvelle Vague Japonesa. O movimento, assim como as demais ondas espalhadas pelo mundo, é crítica ao chamado cinema clássico japonês composto por grandes nomes como Yasujiro Ozu, Mizoguchi e Naruse. A empreitada não é fácil, mas para isso Yoshida articula suas câmera de maneira anárquica a medida que desconstrói a inércia dos planos clássicos (os conhecidos planos na altura do chão que reproduzem a maneira de sentar dos japoneses) introduzindo uma composição indisposta a qualquer regra, criando uma enorme inquietação estética. A movimentação e composições incomuns criarão uma natureza estranha que percorre a narrativa, impulsionada pelo não-comportamento da fotografia.

O uso dos mega-plongè e mega contra-plongè são uma constante na criação da composição anárquica da fotografia de Kiju Yoshida. Isso acontece tanto em EROS+MASSACRE como em seus outros filmes. Seu interesse pela filosofia política é coerente com sua estética.

O filme vai trabalhar com uma montagem paralela para apresentar, de um lado, uma biografia do revolucionário anarquista Sakae Osugi (Toshiyuki Hosokawa) e seu relacionamento com três mulheres, em especial Itô Noe (Mariko Okada). A aptidão pelo anarquismo de Yoshida, portanto, não é apenas estética, mas também temática, o que amplia o sentido de sua técnica à narrativa. De outro lado temos dois jovens estudantes em uma pesquisa sobre a ideia de Amor Livre do revolucionário. A ideia de liberdade Sartriana é bastante clara. Somos seres condenados à liberdade, isso nos angustiaria. O amor livre estaria fadado aos problemas justamente pela essência humana de sentir-se fracassado perante as suas angústias. A liberdade nos angustia a medida que a nós são apresentadas possibilidades de escolha e, portanto, existência. Ao fracasso, contudo, atribuímos sempre ao outro, “O inferno são os outros”.

Ao apresentar esse paralelismo, Yoshida põe em conflito a ideia do Japão Clássico e Moderno em sua temática. Assim, há a primeira metalinguagem de Eros+Massacre acerca de seu tempo. O filme se comunica com seu movimento a medida que apresenta duas épocas de um mesmo país, uma delas àquela que a nova onda deseja combater enquanto estética. Para isso, mesmo ao mostrar o Japão Clássico, Yoshida não se abstém de sua inquieta fotografia de onde os terços jamais se enquadram em suas composições. A opção é uma incisiva proposta da necessidade de modernizar o cinema japonês.

Perceba como as composições de Yoshida ignoram qualquer aptidão por regras de enquadramento. Há diversas iguais (diferentes) a essa durante o filme.

A metalinguagem não para por aí. A ideia de esculpir o tempo, sugerida por Tarkovski, se torna bastante visível à medida que os tempos se comunicam através de uma introdução de um em outro. Os jovens pesquisadores da filosofia do anarquista são constantemente introduzidos ao contexto dos personagens a qual estudam. Assim, há uma quebra da temporalidade proposta criando uma anarquia narrativa conivente com a temática. Ao mesmo tempo Yoshida nos instiga a uma reflexão acerca da possibilidade de filmar o passado, contar histórias passadas. Na fotografia é de fácil compreensão a ideia de que a obra é um objeto de ação do passado, isso acontece devido a sua característica estática. No cinema, contudo, o movimento proporcionado pelas diversas fotografias por segundo criam a sensação de que aquilo está se passando aqui e agora, mesmo que fisicamente tenha sido filmado no passado. Portanto, no Cinema, o que importa é justamente a verossimilhança, é o parecer real, não que algo que seja possível, mas que transmita a ideia de uma expressão da realidade no aqui-agora.

Pensando nisso a impossibilidade metalinguística de se filmar o passado se torna presente no filme de Yoshida. Ao criar essa alteração temporal em que dois tempos dialogam, introduz também a ideia da recriação de acontecimentos através da ficção. Portanto, ao trazer essa ideia, Eros+Massacre diferencia o cinema do real, mesmo em seu aspecto documental. A impossibilidade de filmar o passado faz com que a apresentação ficcional dos acontecimento tornem-se interpretações sobre os mesmos. Assim, as teses sobre o Amor Livre de Sakae Osugi, seu relacionamento com Itô Noe e a morte de ambos no incidente de Amakasu não tem respostas reproduzidas no filme.

 

 

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