Crítica: Asas do Desejo

Por Leonardo Carvalho

 

Alemanha – 1987

Direção: Wim Wenders.

Elenco: Otto Sander, Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Peter Falk.

Ninguém os vê, somente as crianças. Muitas referências de enquadramentos através de altura, como avião, topos de prédio e torres de rádio. São anjos. O primeiro fator da visão pode estar ligado à pureza infantil junto à angelical, enquanto o segundo fator está ligado às asas, por isso é tudo muito alto.

Esses anjos podem ouvir os pensamentos das pessoas. Para isso, diversos indivíduos aparecem através dos aparecimentos dos anjos, como nós bisbilhoteiros, nas janelas dos moradores. Pequenos planos-sequência são acionados para vermos os pensamentos altos dos diferentes humanos, e com a mesma função são utilizados travellings em um metrô.

Esses pensamentos são diversificados. As crianças não são focadas nesse quesito, já que possuem a visão clara da fisionomia dos anjos. Os adultos é que são focados em seus pensamentos. Alguns pensam no futuro através de planejamentos, outros pensam nas contas de fim de mês ou até mesmo em felicidade.

Esses pensamentos são muito organizados, pouco embaralhados, com um direcionamento concreto de suas reflexões e vontades. Essa escolha organizada dos pensamentos foi sábia pela razão de haver um tom extremamente poético ao lado de imagens vazias como o céu ou representativas como a migração de pássaros, condizendo com o atual estado de pensamento do indivíduo.

Se em “Alice nas Cidades” as estradas são vazias para somar às almas vazias dos personagens, em “Asas do Desejo” a narrativa difere em sua cenografia, com foco em zonas urbanas bastante povoadas. Essa ferramenta serve para que haja a elaboração de um pensamento conjunto da população sobre seus anseios, mas não quer dizer que todos os corações ou almas são cheios, pois, na verdade, são vazios, sobretudo a do anjo Damiel que se apaixona por uma trapezista e quer virar humano.

Ele não está satisfeito em ser uma divindade, em poder voar e ouvir pensamentos. Ele quer sentir o amor, a sensação de estar junto em uma união, talvez improvável, talvez solidificada. A partir do momento que se apaixona por Marion, o ritmo da estrutura é freado, o número de pessoas vistas diminui drasticamente, os cortes também.

É interessante notar que ao encontrar a trapezista, ela está vestida de anjo e parece estar voando com o trapézio. Ele se encanta com a arte de voar da mulher, por isso passa a ver algumas imagens coloridas, algumas poucas imagens rápidas. Saindo de um tom cinza, ele está saindo de uma forma angelical e se humanizando, diferente de Cassiel, um companheiro, quem permanece na forma angelical até o fim.

Cassiel, diferente, não consegue enxergar o mundo com a visão apaixonada de Damiel, pois seus olhos estão voltados a dramas fortes, como a guerra e a destruição. A narrativa permanece agitada ao lado dele, com alguns momentos de calma para pensar na crueldade terrena: as câmeras distorcidas, os cortes rápidos, as faces derrotas e os violinos expressionistas.

As representações são excelentes. Bruno Ganz e Otto Sander formam uma dupla convincente com suas expressões de apego e de decepção, posturas ereta e gestos muito contidos, sincronizados, como em uma cena em que andam lado a lado e os pés são trocados ao mesmo tempo, demonstrando disciplina e padronização, perfeição entre eles. Wim Wenders adiciona, ainda, cantos divinos e sons de harpas para ambientar o espectador ao lado dos anjos, um complemento mais do que necessário às imagens bem dirigidas.

★★★★★

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