O Tabu como Arma nas Relações Sociais de um Estado em Dente Canino

Por Philippe Leão

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Ao se deparar com Dente Canino, de Yorgos Lanthimos, é inevitável a comparação com a Alegoria da Caverna de Platão. De fato esta característica está presente de maneira bastante clara, porém, há de se perceber que o filme pode se relacionar com uma alegoria política de formação de Estado através dos Tabus. A Alegoria da Caverna por ser um artifício para tal exposição de ideia.

O longa-metragem grego conta a história de uma família com três filhos já jovens em suas idades mas que, primeira estranheza, são criados como crianças. Esta família vive em uma grande e bela casa isolada no subúrbio envolto por uma alta cerca que os afasta mais ainda do que há do lado de fora. As “crianças” jamais tiveram contato com o mundo exterior. Toda a educação dos filhos é de exclusividade dos pais, sem que se permitam os encontros com o desconhecido. Assim, por diversas vezes nos deparamos com situações peculiares, como um saleiro que, na verdade, é chamado de telefone – uma clara manifestação do desejo dos pais em não permitir o contato com o externo, escondendo o verdadeiro significado da palavra telefone. Várias palavras, por isso, ganham conotações diferentes.

Dente Canino
O grande muro impede a saída das “crianças” que vivem do lado de dentro. Através do medo elas permanecem dentro dos limites demarcados.

A caverna de Platão se torna clara. O mundo dentro da casa é, para as “crianças”, o seu mundo, o real. O que os prende do lado de dentro é o medo proporcionado por uma estratégia que pode ser identificada em políticas de Estado: o medo, o tabu.

Em primeiro lugar há, de maneira visível, uma fronteira demarcada por muros, de onde o contato com o mundo externo é impedido – semelhante, guardada as devidas proporções, com a Coreia do Norte – onde histórias sobre o que há do lado de fora são contadas para que não se ultrapasse o muro e entre em contato com uma cultura estranha. Em Dente Canino há a invenção de um monstro que ladra. Já na política de estado, diversos medos e tabus são construídos a fim de constituir uma moral estabilizadora dos costumes.

Dente Canino
O pai simula ter sido atacado do lado de fora e tenta fortalecer o medo nas “crianças”. Tática comum utilizada pelo Estado na manutenção das relações através do sensacionalismo das mídias.

No Brasil a carne de porco por muito tempo foi tida como a pior das carnes para a saúde – ainda hoje esse tabu sobrevive. O discurso se pautava, apesar de parecer inocente, no medo com a saúde e a tendência do humano em sobreviver. É sabido que é da essência humana a angústia, ou seja, a percepção de sua finitude, o que faz com que a todo custo tentemos prolongar nossas vidas. Dessa forma, o tabu trabalha com essas questões. Hoje, tempos de crise econômica, é percebido que a carne de porco não faz tão mal assim. A resposta pode ser encontrada nas políticas de mercado. O porco servia a uma lógica de abastecimento externo e, por isso, uma estratégia pautada no tabu foi adotada para diminuir o consumo interno da carne do porco e aumentar a capacidade de exportação. Por outro lado, hoje, em tempos de crise, a carne de porco se tornou uma alternativa mais barata para solucionar problemas alimentares e compor a mesa da classe média.

São diversos os tabus que se estabelecem nas relações sociais de uma política moral de Estado ao longo da história: monogamia, homossexualidade (até pouco tempo), incesto, pedofilia são tabus que visam à proteção dos valores da família. Vandalismo e o ócio (vagabundagem) como meios morais de estabelecer regras de convivência. uso de drogas, canibalismo e etc. Todos eles com explicações, plausíveis ou não, para a manutenção do Estado nacional e seu status quo.

*é importante que se diga que não estou aqui fazendo uma defesa à pedofilia, incesto e canibalismo pregando que são tabus que necessitam ser derrubados. Apenas informando que são sim, tabus sociais que na origem das relações humanas não era pautadas no medo da existência destas práticas.

Assim, tabus são construídos e modificados com o tempo. Monogamia para a proteção da família tradicional – invenção da traição e contenção das vontades mais primitivas do ser e manutenção do status quo do Estado – é um dos tabus mais comuns no mundo. O humano é um ser sexual e, portanto, o ato de monogâmico é um ato moral de origem no medo. Constrói-se o medo no próprio ser, o medo de pecar, de trair, de abandonar a ideia de família cristã (que está ligada a construção orgânica do Estado).

Dente Canino
A manutenção do medo é importante no processo de estabelecimento do status quo do Estado.

E é justamente no ato sexual que as “crianças” começam a descobrir o mundo. De maneira diferente, é claro. Estes não tem a percepção do sexo como o que acontece do lado de fora. Uma moça pertencendo ao mundo exterior faz trocas com uma das filhas, em troca de um presente pede sexo oral a esta. O ato é inocente para a “criança”, é apenas uma lambida no “teclado” da mulher – assim chamam as partes íntimas. À medida que se desenvolve, a menina quer presentes melhores pelo ato, percebe que aquilo é de certa forma, importante. Daí por diante outro tabu se estabelece, o incesto. Para aquelas crianças não há uma moral, um estabelecimento prévio pautado no medo das relações entre irmãos e a descoberta do sexo faz com que se relacionem, afinal, só há eles na casa. Até mesmo o pai ganha algumas lambidas na mão – lembrando que a lambida ganha um simbolismo sexual de descoberta, a mulher de fora pede a lambida no “teclado”, a menina experimenta lamber a todos em qualquer lugar, não há maldade nas partes íntimas.

As “crianças” não sabem muito bem o que significam seus atos, mas a essência sexual humana começa a surgir. Com o desenvolvimento dessa potência original, a vontade de escapar dos limites impostos pelos muros cresce. Assim Dente Canino, como alegoria também política, revela uma tendência das narrativas e reações a estas nas políticas de Estado. Quando a vontade, a potência supera a moral estabelecida pelo Estado através do medo imposto pelos tabus impostos, nasce à revolta, a inquietação e o motor que movimentas as relações sociais em equilíbrio.

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