De Barreto a Mungiu: um paradoxo parecido

Por Leonardo Carvalho

 

Se na nossa literatura brasileira temos uma crítica social vinda de Lima Barreto, no cinema romeno conhecemos Cristian Mungiu por colocar o dedo na ferida nos problemas sociais do país. Ambos são/foram reconhecidos em seus respectivos países, louvados por críticos e pelos estudiosos nas respectivas áreas.

Todo esse reconhecimento não é exagerado, já que ambos não concedem uma lição no leitor/espectador de maneira forçada, mas tudo é, na verdade, forrado por baixo de uma provocação estética. Não há uma forma melhor de encaixar a denúncia feita pelos dois artistas.

Lima Barreto possui um caráter mais debochado, despreza toda a elite carioca através de ironias afiadas, que por mais distintas que sejam das de Machado de Assis, possuem uma qualidade parecida em termos de proposta. Mungiu não é diferente, denuncia a corrupção da elite e o preconceito social em “Graduation”, mas com uma intenção discrepante na composição de suas obras.
Diferente do brasileiro, o romeno não trata as denúncias de maneira debochada, mas de uma forma muito séria, chegando a incomodar até mesmo o público mais acostumado com enredos fortes. Seus planos estáticos e a ausência de música em “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, além de “Graduation”, arrastam o público para uma série de imagens fortes, impactantes.

 

Outra diferença entre os dois é a forma como discutem a classe baixa em termos financeiros. Lima Barreto busca mostrar um povo feliz, ou melhor, um povo exaltado pelas suas esperanças de um futuro melhor, por mais que sofram com repressão da elite, como acontece em “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Mungiu, por outro lado, coloca essa parcela não tão beneficiada em um nível ainda mais baixo, como se não houvesse esperança para eles.

Semelhantes agora, a temática explorada entre ambos também está relacionada com a crítica à sociedade de bacharel. Em “O Homem que Sabia Javanês” existe uma forte ironia acerca desse tipo de poder, do capital cultural institucionalizado, em que um diploma é um meio influente, por mais falido que seja esse documento. Em “Graduation”, de Mungiu, toda a formação acadêmica do protagonista é desconstruída através de atitudes de desprezo e corrupção.

O mais interessante de tudo é a construção dos trabalhos de ambos é feita por um formato informal. Mungiu abusa de um narrador tremido, a câmera na mão, enquanto Lima Barreto quebra com todo o formalismo parnasiano para tratar, com um estilo coloquial, a relação entre as mais diversas classes do Rio de Janeiro no início do século passado.

Entre semelhanças e diferenças, por mais distantes que sejam os países e as épocas, a realidade dos dois autores é parecida quando colocamos suas obras em comparação. O peso dramático de Mungiu e o peso irônico de Barreto se casam perfeitamente, por mais tenham suas oposições. As comparações são dignas de reflexões por parte do público, seja ele mais ligado em discutir os valores sociais, seja ele mais ligado em discutir os valores artísticos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *