Filme de Fevereiro: Cenas de um Casamento – Ingmar Bergman

Por Philippe Leão

Direção: Ingmar Bergman

Ano: 1970

País: Suécia

Elenco: Liv Ullmann; Erland Josephson; Anita Wall; Barbro Hiort af Ornäs; Bibi Andersson; Gunnel Lindblom; Jan Malmsjö; Lena Bergman; Rossana Mariano.

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Filme de Fevereiro: Cenas de um Casamento

É sempre um desafio enorme escrever qualquer coisa sobre Ingmar Bergman. Incontestavelmente um dos maiores diretores da história, sua filmografia é repleta de existencialismo, quase uma autoanálise psicológica como método de fuga das angústias humanas.

Cenas de um Casamento – apesar de ser uma série dividida em seis episódios para a televisão – não é diferente de seus outros clássicos em longa metragem. Aqui Bergman vai discutir a condição amorosa, a necessidade de sua existência e a suposta importância da presença do amor nas relações e no casamento moderno. Já que sabemos que nos antigos isso não era necessariamente um pré requisito, será que hoje é? Ou ainda vive-se de aparências, máscaras?

Máscaras que aliás, é um tema recorrente na filmografia de Bergman, se apresenta em Cenas de um Casamento como uma capacidade narrativa incrível de aplicar personagens multifacetados. Não há nunca em Bergman qualquer personagem unidimensional, suas ações são representantes dos encontros em que vivem, jamais serão apenas bons ou apenas maus, mas frutos do meio. Veste-se máscaras de acordo com os encontros.

É por isso que, a cada episódio que Cenas de um Casamento apresenta, uma nova máscara surge e um novo conflito emerge. A casa episódio estamos vendo os mesmos personagens modificados que foram pelas ações antecedentes. Em especial por uma ótima direção os atores e atrizes de Bergman são o melhor que o cinema pôde trazer.

No primeiro episódio, intitulado “Inocência e Pânico” vemos em Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) um casal maduro aos olhos do mundo moderno. Logo de cara uma entrevista para uma revista retrata tal situação a medida que busca uma matéria sobre o relacionamento de ambos. A princípio, não há brigas entre os dois, mas um eminente conflito que jamais é resolvido. Não há qualquer sentimento passional aparente, é colocado em jogo o amor como posse, onde o desejo há de sumir.

Ainda neste primeiro episódio vemos um casal extremamente passional em uma discussão de relacionamento fervorosa. Em especial, nesse momento, a narrativa nos apresenta o que estaria por vir, na verdade, o que o casal gostaria de ser, mas é moralmente reprimido.

Os conflitos envolvendo os problemas não resolvidos começam a ser discutidos no capítulo seguinte, “A Arte de Empurrar Problemas para Debaixo do Tapete”. O problema evidente no casal modelo agora começa a ganhar nome em um erotismo muito particular. Há uma ausência de sexo na relação de ambos, problema que é constantemente empurrado para debaixo do tapete.

Há um evidente desconforto sexual no casal. O desejo some a medida que temos o que antes desejávamos. A afirmação é um dos motores narrativos.

Fica cada vez mais evidente o amor como posse nesse momento e, então, uma dialética que se auto anula surge. Amor como posse de um lado e o amor como desejo de outro. Dentre muitos conflitos que vão surgindo conforme a série se desenvolve, este parece ser o motor narrativo. Em um momento em que ambos se pertencem, há posse entre os dois, é evidente a ausência de desejo. É claro, como Platão já definira, só há desejo naquilo que não se tem, no momento em que aquilo te pertence não há mais amor (o amor como desejo). Este problema é tratado pelo casal com uma naturalidade desconfortante, é evidente a natureza da repulsa.

É justamente deste conflito psicológico do casal que surge o grande ponto de virada do seriado. Atraído pela ideia do amor como desejo Johan abdica da posse e se entrega as vontades. Johan termina abruptamente com Marienne para ficar com outra mulher, Paula, que da nome ao terceiro capítulo da série. Justamente a ausência das relações amorosas, a ausência do desejo em virtude da posse, faz com que Johan busque. Marienne, porém, mesmo que daqui por diante busque novas relações, parece estar sempre presa ao seu antigo relacionamento. É interessante, em especial, perceber que Marienne enxerga de longe Johan, quase autorebaixando-se pela sua condição de mulher (fortalecido pelas constantes conversas em que Johan fala sobre feminismo).

É importante dizer que a maioria das figuras narrativas do seriado é extra diegético, ou seja, fazem parte da ação, mas não aparecem, ficam apenas na ideia. Paula, famílias, filhos, tudo no campo das ideias na maior parte do tempo. A opção narrativa de Bergman amplia a imersão nos dois personagens principais, permitindo que seus conflitos psicológicos se elevem em relação à banalidade da presença dos demais. Esta ausência cria, também, elementos imaginários sobre a presença destes que não aparecem. Apesar de não estarem no quadro, estão sempre presentes.

No quarto capítulo de “Cenas de um Casamento” Johan sente-se aprisionado pelo seu novo relacionamento com Paula (que, mais uma vez, jamais aparece na série). O sentimento de posse retorna, dessa vez com Paula, reacendendo uma paixão ainda presente por sua ainda esposa (ainda não assinaram o divorcio). O desejo mudou de lado, a ideia de não ter Marianne impulsiona as vontades de Johan por sua mulher, reacende uma vontade erótica. Ao não mais possuí-la, o desejo retorna. Enquanto isso, Marianne tem relações com outros homens que não aparecem – e pouco interessa que apareçam – mas não passa de relações de fachada.

O quinto episódio da série é o mais intenso e interessante. O momento da assinatura dos papéis, a quebra dos contratos, da burocracia. O desejo entre os dois é intenso, provocado pelo tempo em que não se tinham. A burocracia é a única coisa que ainda os prendem como objetos de posse e, portanto, todos os conflitos do casal enquanto ainda estavam juntos volta a surgir.

Os mega close ups usados por Bergman permitem uma melhor interação psicológica com os personagens. Há, proporcionado pela técnica, um impedimento de que nos distraiamos com o que há em volta. A sugestão que o diretor nos passa é que apenas aquele casal interessa.

O desenvolvimento narrativo de toda a série se enclausura em espaços fechados que criam sensações claustrofóbicas e elevam a percepção sobre os conflitos psicológicos dos personagens. O desfecho de Cenas de um Casamento, porém, foge a regra, abrindo a câmera em alguns momentos e filmando ambientes externos em outros. Ainda existem os mega close ups que nos faz penetrar na mente dos personagens em seus longos monólogos, criando um incrível controle imagético durante todos os episódios anteriores, mas a opção por abrir os espaços cria um ponto fora da curva na narrativa. Além disso, parece se sustentar em uma leveza proporcionada por uma nostalgia que cansa nos momentos em que se decide sair dos planos abertos para o fechado. Não há mais toda a intensidade que havia antes.

Apesar dessas escolhas narrativas, a cena final nos apresenta novamente toda a intensidade psicológica que Bergman buscava, em que o filme se sustentava. Ainda há algo que incomoda aquele casal, uma angústia proporcionada por suas escolhas. O ser humano não sabe ser livre.

 

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