11 Filmes com Helena Ignez para Compreender a Evolução da Mulher no Cinema Nacional.

Por Catarina Almeida

 

 

A representação da personagem feminina no cinema em seu início – com raras exceções – até a era de ouro Hollywoodiana em meados de 30 a 50, é marcada unicamente por uma erotização da mulher extremamente fetichizada. O fato indica uma mulher objeto onde narrativamente seu intuito é acompanhar o herói em sua vida sexual – abrindo para o olhar voyerista do público. A intenção que sua atenção perante a obra cinematográfica seja criada voltada ao homem, condutor das ações, ignora a presença e uma mente que pensa e questiona.

É a partir dos anos 50, com o filme “Monica e o Desejo” do diretor sueco Ingmar Bergman, que podemos perceber uma tentativa de ruptura dessa imagem passiva da mulher no cinema. Temos o que seria um dos primeiros momentos no cinema em que existe uma libertação da figura sensual da mulher ao se colocar nua para si, e não para o homem, seguidamente para o olhar voyerista e sexual do espectador. Monica se despe para ela própria, ali é o ponto onde sua liberdade se inicia em um plano não muito compreendido pelos críticos da época, pois ali não era representada uma nudez de fetiches, e sim uma nudez de alma e libertação. Antoine Baecque observa:

Entretanto, por ora, quanto o filme é lançado na França, na primavera de 1954, poucos são os críticos e cinéfilos que veem nele a expressão suprema da liberdade; menos ainda os que nele observam qualquer erotismo (BAECQUE, 2011, p. 323)

Pode-se concluir que Bergman tenha sido um dos primeiros diretores ao lado de uma atriz, neste caso Harriet Andersson que tenham revolucionado a posição da mulher perante uma cinematografia. O diretor, então, coloca uma personagem feminina que assume seu corpo e seus desejos sem a necessidade de sensualizar um desejo voyer que era comum na época, muito por conta da representação passiva das mulheres perante a indústria Hollywoodiana.  Apenas com o surgimento de Marilyn Monroe, que apesar de submissa, existe uma tentativa de mudanças nos papeis de atuação na indústria americana.

Essa evolução da mulher em começar a dominar a mise em scène no cinema se concentra mundialmente muito a partir dos anos 50 e 60, principalmente pela onda de debates feministas, Simone de Beauvoir, movimentos feministas, etc.

No Brasil, Helena Ignez a “musa” do Cinema Marginal revoluciona o modo de atuação com uma representação libertária ao lado de Rogério Sganzerla. Juntos, produzem diversos filmes em que temos a mulher como personagem central, diversificando personas de mulheres periféricas – Sonia Silk, a Fera Oxigenada -, mulheres casadas, porem livres em saber o que quer pra si, não se deixando levar a uma relação abusiva e monogâmica – Angela Carne e Osso – até a mulher que ocupa o “papel” do homem da relação, sendo ela a que banca a casa, enquanto mantém uma relação com um casal gay improdutivo na sociedade. (personagem do filme A Família do Barulho, de Júlio Bressane).

Essas diversas mulheres dentro de uma atriz múltipla, foram essenciais para a criação de um posicionamento mais presente da mulher cinematográfica, além de uma contribuição necessária para a criação do que hoje é visto como Cinema Marginal. Sem Helena Ignez ocupando o seu papel nesse movimento, não existiria a força que foi construída nessas obras fundamentais para uma maior compreensão do que fora a época de total repressão política. Temas como aborto, prostituição, homossexualidade, também são postos em pauta por esse cinema que pode ser visto artificialmente como sendo criado por homens, mas que foi gritado, vomitado, cantado e interpretado por uma mulher principal, claro que ao lado de outras grandes mulheres.

Deixo uma pequena seleção do que vem pra mim a ser, obras essenciais dessa atriz, diretora e produtora que conseguiu multifacetar as infinitas mulheres que o cinema precisava contar e explorar.

 

O Pátio 

Direção: Glauber Rocha

Ano: 1959

País: Brasil

Primeiro trabalho de atuação de Helena Ignes, além de ser a estréia de Glauber Rocha na direção.

 

A Grande Feira

Direção: Roberto Pires

Ano: 1961

País: Brasil

Sua estréia em uma personagem com personalidade mais bem enraizada, além de levantar certo incômodo que existia nas mulheres da época ao serem vistas ainda de forma patriarcal, apresentando claramente a transformação da mulher da moderna a partir da maneira que elas pensam.

Mulheres que buscam sua liberdade e felicidade, em certo momento uma das amigas de Ely (Helena Ignez) desabafa: “Precisamos acabar com essa falsa honra feminina, tão diferente dos homens“. Além de trazer outra forte presença feminina na personagem de Maria (Luiza Maranhão), uma prostituta que impõe suas palavras perante os homens e é respeitada por eles, independente de sua profissão.

 

Assalto ao Trem Pagador

Direção: Roberto Farias

Ano: 1962

País: Brasil

Baseado no assalto real liderado pelo “famoso” assaltante da época, Tião Medonho, o filme traz o acontecimento ocorrido contra o trem de pagamentos da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Helena Ignez tem um papel rápido porém importante se relacionado com suas futuras personagens. 

 

O Padre e a Moça

 

Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Ano: 1966

País: Brasil

Baseado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, conta a paixão que nasce entre uma jovem mulher e um padre.

Provavelmente o papel mais importante da carreira de Helena antes da criação de suas eternas personagens marginais. O filme apresenta uma Helena única e nunca explorada até então, existe nela uma mulher pura, simples carregada por uma atuação rígida – Helena diz que não teve liberdade de criação para a personagem -, porém é uma daquelas apresentações onde se é visto a tristeza e solidão da mulher apenas pelo seu olhar. Além de ser uma mulher solitária, aborda também o cotidiano do que é ser abusada, estuprada e cercada por uma sociedade extremamente conservadora e católica, onde a mulher ali, não tem voz para expressar seus sentimentos, desejos e dores.

Existe ali uma atriz como nunca antes havia sido vista e explorada, com múltiplas facetas, onde sua alma é cultivada em cada um de seus personagens.

 

O Bandido da Luz Vermelha

Direção: Rogério Sganzerla

Ano: 1968

País: Brasil

 

Janete Jane, primeira personagem marginal, primeiro símbolo marginal. Estamos falando também do primeiro longa metragem de Rogério Sganzerla, aquele que viria a ser a maior referencia do Cinema Marginal, e um grande visionário em trazer questões ainda não abordadas de forma escancarada. O aborto é um ponto forte nesse filme, além do terrorismo e a fome – aspecto abordado em todos os filmes de Sganzerla.

Janete Jane surge apor 50 minutos de filme para mudar o rumo do Bandido, não existia ali só um bandido, temos a interferência da mulher na narrativa como forma excepcional para conclusão da trama. A voz off intercalada por homem e mulher já prenunciava:

Janete Jane: tipo perereca, mundana e mascadora, culpada de tudo, e ela, mascadora de chicletes, tipo aeromoca, 22 anos, seria, catolica e de boa formacao moral.

A partir daí, nasce uma parceria que dura quase 40 anos entre Helena e Sganzerla. Além de companheiros, criam juntos uma nova forma de fazer cinema, onde não existe só a política por si só – exemplo do Cinema Novo -, mas também questões gerais envolvendo o ser humano. A abordagem é irônica, escrachada, remetendo também a herança existente das chanchadas que o Cinema Novo tanto repudiava.

 

A Mulher de Todos

Direção: Rogério Sganzerla

Ano: 1969

Pais: Brasil

Angela Carne e Osso é, talvez, a personagem mais impactante de sua carreira. Trata-se de uma mulher casada, objeto de seu marido e em contra partida, objetifica os homens, busca diversão e uma companhia para ir a Ilha dos Prazeres, local utilizado para ironizar o ponto de entretenimento paulistano, aproveitando para abordar a violência doméstica que existe entre um casal na praia.

Uma personagem livre e que sabe o que quer, além de se intitular como inimiga número 1 dos homens, remetendo também ao termo das vamps girls. A Mulher de Todos é um filme para ser visto e revisto, observando sempre a força de atuação existente ali em Helena Ignez, importância essa que o próprio Sganzerla¹ põe em uma entrevista para O Pasquim:

“Eu quero dizer que A Mulher de Todos é um filme que revela, sem dúvida nenhuma, sem falsa modéstia, o maior trabalho de atriz do cinema brasileiro. Eu queria que vocês vissem o filme pra poder sentir, realmente, o trabalho de Helena Ignez.” (SGANZERLA, 1970)

 

Copacabana Mon Amour

Direção: Rogerio Sganzerla

Ano: 1970

País: Brasil

Fome, sede, dança.

De Gomorra vieram seus bárbaros antepassados, na Primavera do ano 1080 Nicolau di Cuzza estuprou uma princesa oriental descendente de Gengis Khan, concebendo Davi e Davi gerou Dom Fernandes e Dom Fernandes gerou Diacui e Diacui gerou o Preto Velho Zezinho da Perna Dura e Zezinho da Perna Dura gerou Noel, e Noel gerou Edmilson e Edmilson gerou Aristides e Aristides gerou Ela, Sonia Silk- A Fera Oxigenada

Apresentada a partir de sua genealogia, existe uma aproximação cultural histórica muito forte com essa personagem, pois sabemos de onde vem e sabemos onde está. Sonia Silk é sonhadora, quer ser cantora da Rádio Nacional, é periférica, mora na favela, convive com abusos sexuais diários do irmão e escuta horrores da própria mãe. No “asfalto” se prostitui e é enganada, grita aos berros que todos são tarados e que ela não é tarada, além de ter pavor da velhice, muito provavelmente por não querer deixar de sonhar e se assemelhar a mentalidade das pessoas que a cercam. Sonia Silk é uma sobrevivente do Terceiro Mundo, a única personagem realmente sã que cerca o filme, todos os outros são resultado de um processo constante do capitalismo selvagem e é claro, da ditadura militar. Sonia Silk quer ser livre, ela busca essa liberdade, não procura homens, não se apaixona mas também não é boba.

Sonia Silk é a personificação da raça brasileira, em sua árvore genealógica consta mestiços, negros, princesas… Enfim, muitos em um, resultando em um ser além do lógico.

É também um dos primeiros filmes produzidos pela Belair, produtora fundamental durante o movimento e conduzida por Helena Ignez, Rogerio Sganzerla e Julio Bressane nos anos 70.

 

Sem Essa Aranha

 

Direção: Rogerio Sganzerla

Ano: 1970

País: Brasil

Obra inestimável para a cinematografia brasileira, Sem Essa Aranha ironiza o Brasil dentro do Brasil, onde seus exilados vagam eternamente enquanto não são levados novamente para o Brasil. Conta com uma das sequencias mais bonitas do cinema em que América (Helena Ignez) participa de uma roda ao lado de Gonzada enquanto é rotacionada a câmera, dando a ideia de carrossel. Atuação emblemática também de Maria Gladys (também presente em A Família do Barulho), que interpreta Maria.

 

A Família do Barulho

 

Direção: Júlio Bressane

Ano: 1970

País: Brasil

 

Um trio composto por uma mulher e dois homens, no meio disso surge uma odalisca. Helena conduz uma mulher que sustenta a casa enquanto o casal gay planeja inserir uma odalisca na relação, possibilitando uma fuga. Obra extremamente experimental tanto na narrativa quanto em suas atuações totalmente espontâneas, onde a direção de Bressane possibilita total liberdade de expressão e criação de cenas e ações.

Conta com uma presença memorável de Grande Othelo, marcando uma cena belíssima entre ele e Helena, um momento de extrema nostalgia e junção com a grande estrela das Chanchadas ao lado da “musa” do Cinema Marginal.

 

 

Feio, Eu?

Direção: Helena Ignez

Ano: 2013

País: Brasil

Um filme manifesto realizado a partir de uma oficina realizada com atores, além de utilizar imagens de outros países e misturar diversos formatos de captação de mídia.

Obra experimental de extrema força e personalidade, que transpõe uma Helena Ignez diretora que sempre existiu e que passa a se mostrar.

 

Ralé

Direção: Helena Ignez

Ano: 2016

País: Brasil

Uma ode ao cinema marginal, uma das obras de maior valor estético do ano de 2016. Helena Ignez como diretora e atriz, incorpora o que resta do marginal e encarna em seus personagens a partir das atuações de Simone Spoladore, Ney Matogrosso, José Celso Martinez, Djin Sganzerla e ela própria, Helena Ignez se incorpora em Sonia Silk, criando um ciclo temporal de história e evolução.

 

MENSÃO HONROSA:

Cara a Cara (1967)

Barão Olavo, o Horrível (1970)

O Signo do Caos (2005)

A Miss e o Dinossauro (2005)

 

 

CITAÇÕES:

[1] SGANZERLA, Rogério. O Pasquim, no33, Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 1970.

 

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA:

MULVEY, Laura. Visual Pleasure and Narrative Cinema. Original Published – Screen,

v.16, n. 3, p. 6-27, Autumn, 1975

BAECQUE, Antoine de. Cinefilia. São Paulo. Cosac Naify. 2011

TRAD, Tatiana. Helena Ignez: Descolonizando olhares – Estratégias de invenção na representação da mulher no Cinema Marginal Brasileiro. 2016. 149 f. Tese (Mestrado). Instituto de Humanidades, Artes de Ciências, Universidade Federal da Bahia. 2016.

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