Crítica: Fences

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 2016

Direção: Denzel Washington

Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson.

Crítica: Fences

Baseado numa peça homônima dos anos 1980, “Fences” conta a história de um homem, já aos quarenta anos, que tinha o sonho de ser um jogador de beisebol. Ele é um protagonista recheado de conflitos entre o seu presente e o seu passado, interpretado e dirigido com maestria por Denzel Washington: a boa atuação e autodireção se casam perfeitamente, pois o ator-diretor sabe escolher bem os planos com a limitação do cenário, além de haver uma representação física coerente sobre as escolhas dos planos, com as atitudes paradoxais do personagem, ora calmo, ora explosivo.

Ao lado do protagonista está a sua esposa, bem representada por Viola Davis – quem levou o Globo de Ouro e deve levar o Oscar na categoria disputada por ela – por dominar sua personagem em diferentes tipos de emoção sem cair na banalidade, sem cair no clichê de uma mulher que arrecada sofrimentos de todos os lados. Viola, na verdade, possui um bom equilíbrio entre uma personagem que sai de uma atmosfera mais leve em um primeiro momento e parte para um alvo de conflitos em um segundo momento. Ao lado do protagonista também encontramos seus filhos, representados por atores igualmente competentes. Tudo isso não seria possível sem a boa coordenação de elenco de Denzel.

Voltando ao enredo, devido à realidade pela qual o protagonista passava, em ser um negro pobre no início do século XX – isso é deixado claro através do figurino e da direção de arte, competentes em seus quesitos por ambientar o público na história -, ele não consegue virar uma estrela do beisebol. Em consequência de um sonho frustado, ele acaba trabalhando como um coletor de lixo, torna-se um pai rígido, ao mesmo tempo que é um indivíduo engraçado e falador quando as coisas vão bem.

É interessante a analogia feita pelo roteiro do longa-metragem, através dos diálogos com o beisebol, já que o esporte está ligado com a vida do personagem principal. As comparações são boas, sempre ligadas a escolhas ou momentos em que a paciência do pai com o filho vai se esgotando conforme as atitudes deste de enfrentamento – este momento é comparado com o número de strikes que o rebatedor não pode levar, três total.

Há também outras alegorias curiosas que enriquecem o mesmo roteiro e, consequentemente, a narrativa. A palavra “fences” significa “cercas”, e uma espécie de muro com cercas é levantado pelos personagens principais do filme. As cercas, no entanto, não são apenas denotativas, mas conotativas de acordo com os personagens, são limites alegóricos em um plano de representação de muitas lutas suadas e decepções armadas pela vida.

Para o protagonista, elas significam o bloqueio do pai em relação às escolhas do filho com seu sonho de ser um esportista profissional. Para a personagem de Viola, elas contêm a mensagem de uma mãe que quer proteger a família, como um amigo de Troy (Denzel Washington) diz. Para um dos filhos, o citado neste parágrafo, é mais um dever que deve ser cumprido dentro de casa, pois seu pai o obriga a levantar o muro, além de ser o impedimento de ser um jogador de futebol americano, como também foi falado neste parágrafo.

A obra trabalha em seu script uma gradação de acontecimentos que a deixa cada vez mais séria, o protagonista está cada vez mais cercado, tal como sua família. Mais ao final, um clímax de seriedade vai tomando conta, o presente amigo de Troy já não aparece mais por lá, cargas ainda mais dramáticas são acionadas. O filme ganha mais variações. Mesmo assim, não é o suficiente para que o longa-metragem não seja cansativo. Isso acontece pela razão de não haver variações até a chegada do clímax, ou um pouco antes disso, e faz com que o ritmo monótono, cheio de diálogos, empate a fluência da montagem. É verdade que esses diálogos são  bem compostos, mas chega uma determinada hora que cansa.

Voltando aos pontos positivos da narrativa, encontra-se uma trilha musical pouco presente, o que é ótimo para que nada fique muito forçado em relação à emoção. Além disso, os planos, muito estáticos, de pouco movimento, fora as poucas trocas de cena, concedem uma naturalidade muito grande, o que é bom para a narrativa, sem fazer com que haja moralismos forçados. O destaque, porém, vai à forma como Denzel trabalha o espaço fílmico. Há uma valorização muito grande sobre um ambiente que, mais do que qualquer personagem, é o verdadeiro protagonista. Aquela casa pulsa sentimentos, emoções, é uma verdadeira guia sobre todos os acontecimentos, quase que uma personificação da discórdia. Tudo o que envolve aquela residência, seja nos cômodos ou na parte externa, é envolvente, um belo fator de ambiência, como “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, ou “Mar Morto” , de Jorge Amado, fizeram na literatura, concedendo vida ao próprio cortiço e ao cais baiano respectivamente.

O ponto ruim, que já foi deixado claro acima, é extremamente prejudicial por fazer com que toda a boa composição fique exaustiva. Mesmo assim, “Fences” possui alguns bons pontos e pode ser considerado um belo filme, surpreendente por não conceder moralismos de maneira forçada, mas, sim, um retrato singelo de uma etnia em uma época e em um lugar.

 

★★★☆☆

 

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