Crítica: Cães Raivosos (Mario Bava)

Por Matheus Petris
Cães Raivosos (Cani Arrabbiati)
Direção: Mario Bava
País: Itália
Ano: 1974
Elenco: Riccardo Cucciolla, Don Backy, Lea Lander, Maurice Poli, George Eastman, Maria Fabbri.

Existe uma espécie de contradição Baviana proposital nos planos iniciais de Cani Arrabbiati (Rabid Dogs): Bava inicia seus filmes, quase sempre, como uma carta-resumo; aqui, isso acontece e não acontece ao mesmo tempo. Diferente, portanto, dos momentos iniciais de La frusta e il corpo (The Whip and the Body) (de que falei aqui), e da denotação de “caminho sem volta” ou de “novo percurso”, exemplificados pelos planos do avião chegando, no início dos filmes La ragazza che sapeva troppo (The Girl Who Knew Too Much) e Gli orrori del castello di Norimberga (Baron Blood).

O primeiro plano do filme é um plano fixo: uma cortina rosa avermelhada esconde o corpo de uma mulher que, de costas, parece gritar por socorro, um grito de dor e agonia. A câmera se afasta lentamente, até que uma janela é revelada: a mulher também está “protegida sob uma janela” – ou, sendo vigiada. Sem cortes, o plano volta a se fixar, enquanto os créditos percorrem a tela. Mesmo que exista uma natureza agonizante, o plano nos passa um tom de mistério e de quietude; porém, seremos expostos justamente ao contrário nos planos que se seguirão.

O motorista (protagonista da trama) é indicado rapidamente, de puro relance. Feito isso, um plano-detalhe é feito de seu relógio, criando um raccord de movimento – tão comum no cinema de Bava – ao extremo oposto, o relógio do líder da gangue de assaltantes. Em ambos os casos, há uma urgência no tempo, uma conotação de pressa, e nenhum tipo de serenidade ou quietude pode ser vislumbrada. A relação entre tempo e espaço é clara, os opostos irão colidir em algum momento. Pensemos por um segundo em outro exemplo: um raccord similar foi usado em Baron Blood, no aperto de mão entre professor e protagonista, que sintetiza o obstáculo que ele enfrentará; a troca de posições do plano no raccord denota também essa colisão. A urgência do tempo é claramente retratada na cena do assalto, com cortes extremamente rápidos (incomum em Bava): temos uma peculiar cena de ação.

A natureza humana – ou a falta dela – é outro ponto essencial para entender o cinema de Bava. Neste filme, em específico, temos certeza disso. Enquanto a fuga se mostra mais dificultosa do que os assaltantes imaginavam e pessoas inocentes são feitas como reféns, eis que surge o momento da primeira barreira rompida. Somos enganados, as expressões dos personagens são de pavor, mas o pavor será por eles mesmos conferido.

Os inocentes que percorrerão o caminho a seguir, são inseridos ao mero acaso de uma espécie de “destino”, e não por um plano por eles arquitetado.

A primeira mulher sequestrada irá até o final do caminho, junto ao personagem que nos foi apresentado no início. Eis o momento da colisão: o sequestro dele e do carro. Nesse momento é que o caminho começa, esse percurso sinuoso e cheio de obstáculos que está por vir, que obviamente terá um fim, seria o fim ou uma tragédia?

O terror psicológico que emana dos personagens é potencializado conforme o caminho é percorrido. Quando o perigo aumenta – seja na visão dos assaltantes ou dos reféns –, mais terror é provocado e distribuído, entre os passageiros daquele enxuto carro. Em um dia de muito calor, com o carro lotado, os nervos estão acima dos limites. A escolha pelos closes, durante as cenas internas no carro, provoca ainda mais agonia.

O motorista se mostra esperto, além de persuasivo; e aos poucos consegue ditar determinadas ações, falando diretamente com o líder, que em teoria seria o cérebro da gangue (tendo em vista que os outros seriam como o corpo, só que um corpo sem cérebro). O pouco de sanidade que resta aos malfeitores aos poucos se esvai, junto ao caminho que segue e continua ardilosamente terrível.

A ruptura da sanidade também chega aos reféns: a primeira mulher sequestrada chega a seus limites. Em um momento oportuno, tenta fugir. Em uma sequência extremamente claustrofóbica, novamente com rápidos cortes, ela corre aos milharais: perceptível é sua luta, mas também será em vão visto que não chegará a lugar algum. Quando é raptada novamente, ela é obrigada a urinar na frente dos dois comparsas. Neste momento, fica clara que a insanidade já tomou conta dos dois personagens e que, provavelmente, ela não sairá ilesa desse percurso.

Sob a constância do percurso, o motorista continua tentando exercer certa influência sob o líder e, em certa medida, alcança mais alguns feitos, feitos estes que fazem com que uma briga interna seja iniciada. A tensão paira no ar, aliada aos conflitos internos, o intérmino do percurso, o clima abafado. É chegado o embate entre eles mesmos. Mais mortes estão por vir. Mais corpos serão reunidos.

Em outro obstáculo, eis que surge um posto – onde entrará mais um corpo sob seus caminhos. Corpo esse, que será desovado junto ao outro: plano geral, ligeiro plongée, o afastamento lento da câmera mostra a imensidão do local e a relação corpo/espaço, relação que tomou conta de todo o percurso e filme.  A urgência do tempo e a pseudo-serenidade apontadas no início do filme se chocam aqui novamente, talvez como justificativa. Enquanto que as vítimas aumentam, os locais de desova se mostram sempre mais abertos, mais espaçosos, assim como os próprios planos. A reflexão final, mesmo que aliada a uma surpresa, sinaliza que os corpos demorarão a ser encontrados, o tempo correrá de forma inversa, ou seguirá seu fluxo natural.

★★★★★

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