De Onde Vem a Aversão ao Preto e Branco?

Por Philippe Leão

 

Existe um número considerável de pessoas que, infelizmente, tomaram para si uma repulsa no que se refere à fotografia em Preto e Branco no Cinema. Muito além da já conhecida resposta para essa questão – seria essa repulsa fruto de uma indústria cultural que dita regras e gostos, que de fato existe – os motivos vão além ao analisar a cinematografia em si.

O Cinema, como se sabe, é a arte do século XX. Sua essência captura todas as outras artes para trazer algo completamente diferente. Em especial, a sétima arte guarda características
similares à fotografia, a não ser por um único motivo que o torna diferente: o movimento, melhor, a projeção ao movimento.

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O Cinema é composto por uma série de fotografias que ao serem colocadas em sequencia criam o movimento

O Cinema é composto por uma série de fotografias que ao serem colocadas em sequencia criam o movimento em, geralmente, 24 frames por segundo. Também os espaços entre um frame e outro diferenciam essa arte das demais por estes proporcionarem o corte, a montagem e a capacidade de esculpir o tempo.

Pois bem, na fotografia existe uma projeção de algo estático, uma memória do passado. Algo que aconteceu, uma narrativa do passado que nos está sendo apresentado agora como memória. Percebe-se como consequência que a aversão do preto e branco não se faz presente na fotografia, ao contrário, para muitos a “ausência das cores” (definição por si só problemática) traz certa glamourização as foto-memórias. No Cinema é diferente. Apesar de ter como uma das bases essenciais a fotografia, o movimento cria uma projeção ao espectador de que os fatos estão acontecendo no momento em que estão sendo apresentados, não em um mundo real, obviamente. Mas se as fotografias criam a ideia de narrativas do passado, o Cinema cria a sensação de que estão sendo contadas narrativas do presente, tendo como causa o movimento. Mesmo que o Cinema também seja em sua essência capturas de memórias do passado, a sensação que transmite é oposta à medida que esculpe o tempo.

É, portanto, justamente essa a causa da aversão do preto e branco no Cinema. Ao utilizar o P&B como técnica fotográfica nos filmes, o movimento veste uma máscara que subverte, para os não iniciados nesta arte não apenas como puro entretenimento – o que é também compreensível – a percepção de que as narrativas que estão passando na tela acontecem no presente, agora, e passam a remeter ao passado. A fotografia, porém é estática assim como o passado ao senso comum, já o cinema move-se entrando em conflito. Portanto, a aversão ao preto & branco no cinema nada mais é do que a aversão ao antigo.

Deve-se ter em mente, porém, que nem passado, futuro ou presente existem. São construções temporais para melhor análise dos acontecimentos. Passado e futuro nada mais são que ideias, imagens – justamente por isso que fotografia e cinema são artes da memória, transportam um tempo para outro – de acontecimentos que não existem. O presente, no momento em que é pensado já não o é, tornando-se passado. Portanto, a arte e a vida acontecem nos momentos, projetando uma ideia temporal que não existe mais e portanto é uma narrativa, uma interpretação de acontecimentos.

 

 

 

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