Crítica: Sully – O Herói do Hudson

Por Matheus Petris
Direção: Clint Eastwood
País: Estados Unidos
Ano: 2016
Elenco: Tom Hanks, Aaron Eckhart, Laura Linney, Anna Gunn, Autumn Reeser, Holt McCallany, Mike O’Malley.

Logo em seus planos de abertura, Sully mostra exatamente aquilo que se espera de um diretor da magnitude de Clint Eastwood, um dos poucos que, nos tempos de hoje, ainda se importam em fazer um cinema real. O rosto de Tom Hanks fatigado, à beira de um ataque de nervos, mostrado em primeiro-plano, denota justamente aquilo que fez de Clint um dos maiores atores da história do cinema, além da sua notória direção de atores, pela qual podemos ver Hanks em sua melhor forma – algo que Steven Spielberg certamente teria invejado. Embora creia que não haja melhor ator para o protagonista-título do que o próprio Clint, este não poderia fazê-lo. Sendo assim, a escolha de Hanks foi extremamente assertiva, ao contrário do filme anterior, Sniper Americano, marcado pela má atuação de Bradley Cooper. O olhar de Hanks (Sully), vazio e apaixonado ao mesmo tempo, mostra seu poder como ator, além de encarnar, com um certo fetichismo, uma espécie de signo ‘clintiano’ que tenta resgatar aquilo que se espera de um grande ator.

Como um piloto de avião acostumado ao domínio completo de tudo em sua cabine, ele acaba por deixar esse controle fugir após uma tragédia que também esgota sua sanidade. Ao alucinar em determinados momentos e sonhar constantemente com outras tragédias possíveis, Sully perde o controle de sua vida e de todos à sua volta. Seus relacionamentos são afetados diretamente, além da chance de perder um emprego que exerce há mais de quarenta anos. As acusações relacionadas à investigação do acidente lhe permitem repensar seus atos, e mesmo assim ele se mostra um exímio e singular ao chegar à sua conclusão, a qual fará com que lute até o fim para que sua inocência seja provada, algo também do feitio de Clint: acreditar em si mesmo.

A cena do acidente é como um ponto de ebulição. Tão bem dirigida que chega a impressionar em pleno 2017, quando poucas coisas conseguem fazê-lo. Sem ser melodramática ou estilizada, é uma cena crua, realista e visceral. Até mesmo a sua repetição em determinados momentos não faz com que fique óbvia nem cansativa, especialmente por adotar curiosos pontos de vista,  tais como o relacionamento entre alguns dos passageiros, capazes de nos transmitir angústia e preocupação, apesar de superficialmente abordados.

O plano/contra-plano de Sully com o controle aéreo no momento da queda é particularmente uma das melhores cenas do filme, tanto pela direção de Clint como também pelas duas figuras centrais da atuação que se entregam ao máximo, demonstrando seus sentimentos de forma minimalista, com foco na voz e nas expressões faciais, sem nenhum tipo de artifício ou muleta. Somos surpreendidos pela dedicação de ambos, na tentativa de não apenas se ajudarem, mas sim no que toca a preocupação do coletivo. Isso demonstra um certo otimismo de Clint com a sociedade ou apenas condiz com a veracidade da história? Eis a dúvida que paira. Mesmo assim, a entrega deixa clara: ambos querem que o destino seja a salvação de todos. Há mais aspectos que mostram não só a eficiência do Capitão Sully, mas também sua total perseverança e devoção ao trabalho e, principalmente, ao resgate, mostrando em planos abertos e gerais o desespero tomando conta dos passageiros do avião e a prevalência do instinto sobre a razão nesses momentos – felizmente, não com todos. Partindo desse princípio, os mais treinados ajudarão a tripulação, confirmando o que o próprio Sully dirá no discurso final: não fiz isso sozinho. Com o resgate tendo chegado ao fim, a preocupação não acaba: 155 é o número. Sully faz questão de só demonstrar alívio e tranquilidade ao saber que todos os passageiros e tripulação sobreviveram.

Passado as tensões e preocupações, a atenção se volta às acusações e à possibilidade do pouso no rio ser uma escolha equivocada, o que mexe ainda mais com os nervos dos envolvidos. Demonstrando ainda mais sua falta de controle e total apego ao trabalho, em uma cena em que seu co-piloto já tomou banho e se encontra de roupão, Sully é questionado por ainda estar de uniforme. Por mais que a resposta seja óbvia, ela não vem à sua mente.

Aquilo que faz com que os questionamentos apontados por Sully mudem a trajetória do julgamento é também algo óbvio, mas que precisa ser dito: o fator humano sempre deve ser levado em consideração algo que as simulações não fizeram. Quem melhor para fazer sua própria defesa do que o próprio Sully? Experiente e perito naquilo que exerce. O resultado também é óbvio.

Se o filme não possuí nenhum toque de humor, a frase final mostra que o resultado gera uma espécie de alegria e faz que todos sintam-se aliviados.

Sim, o filme termina como uma piada, mas com uma ótima piada.

★★★★☆

Um comentário em “Crítica: Sully – O Herói do Hudson

  • 25 de setembro de 2017 em 15:05
    Permalink

    Muito boa crítica. Pessoalmente eu adorei o filme pelo elenco. Eu sempre gosto de assistir dos filmes de Tom Hanks. Definitivamente esse ator é uma das azoes pelas quais o filme teve resumos positivos, ele trabalha muito para se entregar em cada atuação o melhor, sempre supera seus papeis anteriores. Eu acho que Sully mais que filme de drama biográfico, é um filme de suspense, todo o tempo tem a sua atenção e você fica preso no sofá. É um dos melhores filmes de drama biográfico, tem uma boa história, atuações maravilhosas e bons efeitos especiais. Se alguém ainda não a viram, eu recomendo amplamente.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *