Crítica: Beleza Americana

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 1999

Direção: Sam Mendes

Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Mena Suvari.

Crítica: Beleza Americana

 

 

Os primeiros momentos de “Beleza Americana”, obra ganhadora do prêmio máximo do Oscar, mostra como o personagem de Kevin Spacey (Lester) está deslocado da vida. Através de uma rápida voz over temos informações de que a vida dele está uma verdadeira porcaria, e que só vai piorar naquele dia que indica.

Com essa breve informação, alguns enquadramentos conseguem impor significados gigantescos com rápidas imagens de rotina, como tomar um banho. Seu cotidiano parece banal, mas fica diferenciado ao vermos a câmera captando um quarto, ou uma sala de trabalho, muito grande para a sua existência. Ele está no meio dela, sendo que o espaço é amplo demais, como se o homem fosse insignificante naquele meio.

Será que existe esperança para esse tipo de pessoa? Ele mal consegue ter uma boa relação com a esposa, tendo um casamento desgastado desde muitos anos, além de ter uma filha em uma fase rebelde da vida, daquelas que não adianta se esforçar para explicar que só piora com o passar do tempo. Por isso, o protagonista nem perde tempo em fazer isso.

Como já foi dito acima, ele está deslocado, e deslocado também das conversas da esposa, das atividades que a filha precisa realizar na escola. É em uma dessas atividades, no entanto, que ele fica ainda mais deslocado de toda a família, mas é preciso reconhecer que o mesmo ganhou uma esperança. Como Lester mesmo diz, parece ter saído de um coma de vinte anos.

A vida medíocre do homem ganha um significado após ficar obcecado, sexualmente, pela amiga e parceira de dança da sua filha. Ele fantasia diversos momentos com ela, em que a mesma dança olhando para ele ou toma banho de pétalas jogando os pedaços da flores sobre ele. É bom reparar que, mesmo nas ilusões, há uma distância entre ambos, o que afirma a ideia ilusória, apenas ilusória.

Seu desfoco sobre a família é ainda mais intensificado. Em um plano conjunto em que está a mãe, a filha, ele e a menina, percebe-se, durante uma rápida conversa, o olhar fixo do personagem sobre a garota desejada. Agora, cada vez mais, a cada dia que passa, ele fará de tudo para que possa se aproximar dessa forma ilusória da amiga de Janie, sua filha, e consiga solidificar a fantasia.

Os fatores passam a se inverter naquele meio. Lester ganha uma confiança de gradação crescente, enquanto todo o resto da vizinhança parece estar em uma declinação sem igual, tudo por causa de pensamentos medíocres sobre seres medíocres, sobre seres comuns da classe medíocre. “Beleza Americana” nada mais é do que o retrato do homem comum.

O homem comum aparece na amiga de Janie, que não quer ser comum. Na própria Janie, que nada tem a ver com isso, e ela não liga em não ser comum do ponto de vista da sociedade medíocre, já que possui um biotipo que não é o comum da beleza americana, ou melhor, da beleza ocidental. O mesmo acontece com a mulher de Lester, quem quer ter autoconfiança, como uma pessoa comum, mas como uma pessoa comum, ela não consegue ter. Finalmente, o protagonista, quer mais é ser essa pessoa comum, embora tenha sofrimentos de uma pessoa comum, por não ser atraente, por não ter um casamento sustentável.

Em paralelo a isso, dois outros indivíduos comuns – um artista e traficante, e seu pai, um militar homofóbico – entram em um segundo núcleo para completar a estrutura necessária para que o filme ganhe um caráter genial. Por mais que saibamos que Lester morrerá, já que anuncia isso no começo, há toda uma climatização misteriosa sobre o final, sobre quem o matou, e por qual razão.

O mais legal de tudo é que Sam Mendes nos despista, faz apontamentos para que acusemos um personagem, mas tudo isso é contrariado, embora não seja algo muito difícil de descobrir. “Beleza Americana” parece ser previsível, parece que será arrastado, mas é surpreendente, emocionante pelo contato direto da última frase do filme com o público, é uma verdadeira obra de arte.

★★★★★

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