Crítica: A Cidade Onde Envelheço

Por Emily Almeida

 

Direção: Marília Rocha

País: Brasil

Elenco: Elizabete Francisca Santos, Francisca Manuel, Paulo Nazareth, Jonnata Doll

Crítica: A Cidade Onde Envelheço

 

Ir para um lugar irremediavelmente significa deixar outro. Como bem sabemos, a vida não é um acúmulo de ganhos: para cada escolha que fazemos, uma possibilidade é deixada para trás. Ainda que satisfeitos com nossa escolha, a ideia do que ficou lá, do que foi abandonado, nunca nos deixa por completo. É o que mostra o primeiro longa-metragem de ficção de Marília Rocha, diretora de três documentários. Apesar de ficcional, A Cidade Onde Envelheço não deixa de ser um registro da nossa sociedade atual, com personagens ligados à busca pelo novo e que se encontram na tentativa de acostumar-se com a rotina, criá-la, ou fugir dela.

Francisca e Teresa são portuguesas e costumavam viver em Lisboa. Agora, a primeira leva seu dia-a-dia em Belo Horizonte há um ano; a outra está chegando na cidade mineira e será recebida no apartamento da conhecida. Durante seu decorrer, acompanhamos o cotidiano de ambas: Francisca em seus relacionamentos, trabalho, ou seja, no cotidiano já usual, e Teresa, recém-chegada, interessada em desvendar o novo universo que se encontra a sua frente.

As atrizes Francisca Manuel (Francisca) e Elizabete Francisca Santos (Teresa) conferem às mulheres um tom extremamente intimista. O caráter documental percebido se dá, em boa parte, por conta de suas performances. Não existem reações exasperadas – que são, muitas vezes, erroneamente atribuídas à boas atuações –, nem mudanças visuais grandes – outro sinônimo falso para performance exemplar –, seus estados comuns e constantes, no entanto, são o que atraem atenção.

Na captura de Ivo Lopes Araújo, diretor de fotografia das obras nacionais Tatuagem, Ausência e O Grão, a cidade ganha forma de maneira simplista em seus prédios, parques e ruas, seja no movimento ou em sua constância. O modo como a trilha sonora é posta também é digna de destaque, encaixada não ao fundo, em meio a acontecimentos, mas como um elemento dependente dos personagens em cena para surgir, com canções sendo tocadas em um rádio ou durante um show, tornando-se parte “física” da narrativa.

Francisca e Teresa são, em certa medida, opostas, mas algo que a própria trama se encarrega de elucidar – por meio de roupas, onde uma se exibe peças sem cor, a outra sempre carregada de estampas; em um diálogo sobre relacionamentos onde uma não vê sentido em rotular algo como eterno, enquanto a outra ainda acredita, por exemplo. No geral, uma no ceticismo, outra ainda esperançosa com o que pode vir a acontecer, afinal, tudo ainda é novo.

Sendo assim, ao mesmo tempo em que seguimos o evoluir da relação das duas, caímos na dúvida acerca do que realmente se passa: estão longe de casa ou este ambiente agora é o lar? De maneira sensível, A Cidade Onde Envelheço é uma obra que reafirma a beleza do simples e traz às telas um olhar distanciado do cotidiano, realçando que não há lugar ideal a não ser o que se deseja estar, mesmo que isso possa – e vá – mudar a qualquer instante.

★★★★☆

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