Como Baruch Spinoza me ensinou Cinema?

Por Philippe Leão

Muito me perguntam:

– Philippe, quais livros de Cinema posso ler para aprofundar minha compreensão?

Por mais que sempre lhes indique os clássicos da leitura sobre a Sétima Arte, tais como, entre outros:

Explico-lhes que uma base filosófica se faz necessária. Heidegger, Schopenhauer, Hegel, Merleau-Ponty e o próprio Deleuze podem lhe ensinar Cinema sem nem falar sobre ele (a maioria desses filósofos são anteriores ao nascimento do Cinema). Nesta matéria em especial lhes mostrarei como exercitar o pensamento sobre a imagem e como Spinoza pode te ajudar nesse desafio.

Ética
O livro “A Ética” de Spinoza é referência para este artigo. Em especial o livro III.

Spinoza, em seu livro III de A Ética, nos traz um de seus conceitos mais valiosos: A Teoria dos Afetos.

Sua teoria discute a existência do livre arbítrio que, segundo Spinoza, é uma impossibilidade. Se mais tarde Nietzsche lançaria a máxima “Es denkt in mir” – Em mim algo pensa – sua influência é Spinozana. Ao dizê-lo, Nietzsche afirma não sermos senhores de nosso pensamento, de nossas ações. É a genealogia do pensamento.

Este algo em Spinoza chama-se Deus. Antes que confundamos, porém, Deus para Spinoza somos nós, vive dentro de nós, uma força, uma potência. O Deus que pensa dentro de mim sou eu. Deve-se dizer, portanto, que Spinoza não é Platão. Se para o filosofo grego há dois mundos – material e o inteligível – em Spinoza há um só.

O pensamento não é uma força autônima ao corpo. Em Platão nossas ações corporais são impedidas pela alma, supõe-se que a alma deveria controlar o corpo: Não comeriamos o último pedaço do bolo porque a alma, autônoma ao corpo, nos impede.

Em Spinoza isso se explica pelo afeto. Não há divisão entre a alma – ou Deus – e o corpo, são nossos afetos que controlam nossas vontades. Em momentos de raiva não matamos nossos inimigos pelo medo, o afeto, quando a Vontade de Agir supera os afetos, a moral, matamos. Somos todos assassinos em potencial.

Se, portanto, nossa consciência não controla nossos pensamentos, isso só pode ser chamado de inconsciência. Somos o que somos fruto dos encontros com o mundo, encontros estes que não podemos controlar (e por isso não existe Livre Arbítrio, temos a ideia enganosa de que podemos aferir nossas escolhas). Ao tempo em que existimos já estamos nos encontrando com o mundo. Ao nos relacionarmos, o mundo nos modela. Em cada encontro um novo afeto está se construindo e já não somos mais o anterior, modificados que fomos pelo encontro. Não há como fugir do mundo, senão a morte.

A vida é uma sequencia ininterrupta de encontros com o mundo. Portanto, ao relacionar-se, A afeta B e B afeta A. O mesmo acontece no Cinema. Em primeiro lugar, nem espectador nem obra são senhoras de seu próprio pensamento. Os encontros da obra com o espectador produzem um novo espectador e uma nova obra. Assim como o filme não será o mesmo ao ser assistido pela segunda vez – ou por duas pessoas diferentes – modificado que foi pelo afeto, o que assiste também não será. Pode-se dizer, então, que há forças vitais na arte que permitem um estudo não só de seu corpo, como de sua alma, de maneira inseparável.

O Sentido do Filme
Eisenstein se utiliza do Materialismo Histórico dialético em sua teoria. Uma transposição pode torna-la, também, interessante

Platão, ao separar dois mundos, separa a alma, o pensamento do corpo. Há, ao contrário do que se pensa no senso comum, uma desvalorização do corpo em prol da razão. Tentamos explicar de forma racional nossas ações corporais, como se ambas fossem separadas. Eis a diferença com Spinoza (e Nietzsche). A estima pelo corpo parte da ideia da valorização de nossas vontades, que rejeitam o controle.

Falando em seu corpo, sendo o Cinema um processo de esculpir o tempo através da montagem, podemos dizer que as partes de um filme se encontram em afetos. Sergei Eisenstein teoriza sua montagem-rei a partir de uma dialética (A+B=C), mais próxima ao pensamento marxista. Se, ao meu ver, essa filosofia é menos profunda para esse caso, o fato não desqualifica a teoria de Eisenstein ao transpô-la para Spinoza.

Se uma parte de um filme (A) encontra-se com outra (B), (A) já não é mais (A) modificada que foi pela (B). No plano (A) apresentamos um rosto assustado, sem (B) o (A) não passa de hipóteses. Contudo, ao justapormos a imagem de uma faca erguida em close-up, o rosto assustado já não é apenas um rosto, agora teme a facada. Ao mesmo tempo o plano (B), a faca, não é apenas uma faca, é a arma do crime, ganha sentido.

Pois bem, e se não houver o corte, a justaposição?

O fim de uma cena ou de um filme pode trapacear com a ideia narrativa de final, mas ele existe no último frame. Se, por exemplo, a película terminar com o olhar assustado, o que vem depois? Onde está o encontro com o mundo? o que vem a seguir? Os encontros continuam pela livre associação de ideias, na mente de cada espectador aquela narrativa abre possibilidades para novos encontros. E mais! Assim como nossos encontros com o mundo, um pedaço de filme não pode ser compreendido fora do todo. A foi modificado por B que modificará C, C é, portanto, fruto do movimento provocado pelo encontro entre A e B, não como uma soma, mas como consequência dessa interação. Essa associação, encontros, caminham até sua morte, seu fim. A dialética monista de Heráclito é mais adequada, portanto, que a Marxista utilizada por Eisenstein (só uma questão de opinião e não desmerecendo toda a contribuição de Eisenstein, que fique bem claro). O encontro das partes, dos opostos, proporcionam o equilíbrio necessário para criar o movimento.

Esquema
Os encontros entre as partes fazem com que estas ganhem sentido entre si. Deve-se, portanto, analisar a montagem de um filme pelo seu todo.

Apenas com a morte paramos de nos encontrar com o mundo (talvez por memória). Um filme, quando acaba, morre. Mas a arte tem essa capacidade poética da imortalidade em memória e, no momento em que desejada, revivida pelo Play dado pelo espectador que re-viverá uma narrativa completamente nova.

Se existem forças vitais em nós, se em mim algo pensa, se há um Deus pensando inseparável dentro de mim,

Que Deus pensa dentro do Filme?

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2 comentários em “Como Baruch Spinoza me ensinou Cinema?

  • 8 de fevereiro de 2017 em 11:02
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    Excelente artigo. Resumiu muito bem uma parte do pensamento de Spinoza. E vou procurar esse livro de Eisenstein para ler.

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  • 19 de março de 2017 em 11:35
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    Interessante, mas a questão no final acerca da dialética de Heráclito ou a marxiana, tem um erro ao meu ver, a dialética em Marx não é soma, sei que você até foi prudente nisso depois, mas ela não se esgota no final C, na verdade, A incide em B e B incide em A, o C vem a ser a síntese dessa relação, mas logo após o C que seria o ultimo momento, volta a posição de A, para mais uma jornada dialética hahhha, você exemplificou exatamente isso no final, inclusive com a foto, posso até estar sendo redundante, mas o ponto é que a diferença que você coloca entre Heráclito e Marx, nessa interpretação é falha, pois a marxista não se diferencia dessa forma que ce contrapõe a ela. O caminhar para o fim parece nunca chegar nesse sentido, como você coloca, pois o fim do filme, a partir do afeto no telespectador gera uma nova experiência né? um novo A a partir da relação! Gosto muito do seu site e das análises, continue assim 😀

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