Crítica: A Garota Desconhecida

Por Catarina Almeida

Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

País: Bélgica – 2016

Elenco: Olivier Gourmet; Adele Haenel; Christelle Cornil; Jérémie Renier; Frabrizio Rongione; Olivier Bobbaud.

Crítica: A Garota Desconhecida

 

Veteranos e muito estimados por construir um cinema autoral onde a realidade se põe como o grande condutor dentro do personagem, Jean-Pierre e Luc Dardenne não tiveram uma boa repercussão de seu último longa “A Garota Desconhecida” na 69° edição do Festival de Cannes. Apesar de trazer um plot que se encaixaria muito bem em um thriller psicológico, os diretores deixaram se levar para o um drama com um caminho beirando ao desesperador, não só pelas ações, mas também por um roteiro repleto de falhas dramáticas indicando uma ausência grotesca de veracidade, já que se trata de um filme onde as ações acontecem em um tempo real.

Adèle Haenel faz Jenny, uma médica atenciosa que em um final de expediente que, irritada com seu estagiário, resolve não atender um chamado pela campainha. Tragicamente a pessoa que pedia por ajuda é encontrada morta no dia seguinte. Jenny se compadece e passa a uma busca desesperadora para descobrir a identidade dessa pessoa.  A partir desse ponto o filme passa a se desenvolver de forma arrastada e quase sem criatividade, vendo que todas as ações se seguem a partir de planos quase sempre ligados a Dr. Jenny recebendo ligações pelo seu celular. A frieza e falta de carisma na atuação de Adèle ajuda muito na construção vazia do filme, até mesmo a presença de personagens “chaves” para a investigação, nada parece se conectar, pois beira ao exagero a busca de Jenny, deixando o percurso não crível, com diversos elementos sendo jogados de forma exagerada.

Apesar dessa falta de intensidade dramática, o filme tenta trazer um sentimento de culpa reflexivo, deixando questões mais profundas de até onde uma pessoa pode ir para se sentir em liberdade com uma falha que cometeu. Contudo esse sentimento de culpa não é expresso pela atriz Adèle, que usa de uma frieza que não convence mesmo que se esforce. A opção por esta interpretação relembra a frieza essa que vemos no personagem de Lee (Cassey Affleck) em “Manchester À Beira-Mar”, apesar de, nesse caso, ser bem sucedido ao usar uma interpretação crua e rígida, levando o personagem pra um lugar desconfortável e amargurado de forma transparente.

“A Garota Desconhecida” começa muito bem. A proposta de uma câmera íntima nas ações de Jenny, apresentando diariamente o exaustivo trabalho de uma médica jovem, onde a tensão em não se envolver com os pacientes é uma eterna luta. Os elementos iniciais foram muito bem realizados, mas o desenvolvimento da narrativa se perde a partir do momento em que a histeria toma controle de forma exagerada e vazia. O filme acaba deixando a sensação de que não te levou a lugar nenhum, apesar de ter um grande potencial em sua primeira hora, deixando os outros 58 minutos se tornarem um grande nada.

★★★☆☆

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