Literatura: A Paixão Segundo G.H

Por Philippe Leão

 

Autora: Clarice Lispector

Ano: 1964

Brasil

Páginas: 180

 

Clarice Lispector

Clarice Lispector, uma autora que vem desde a transgressão existencialista às citações soltas (muitas vezes não vinculadas a sua escrita) de facebook. Não é por acaso, Clarice é uma eterna aventureira do interior, a busca do ser é quase instintivo na autora. Contudo, essa busca se da pelo ser que está sendo, o entendimento do eu como algo que não se pode entender o explicar.

A Paixão Segundo G.H conta a história desta mulher em profundo conflito existencial. Sua aventura épica dentro de sua própria cabeça – uma aventura no consciente e inconsciente contado em primeira pessoa – vislumbra os vazios de sua essência em busca de uma transgressão humana. G.H busca ser além do que é.

Em meio aos conflitos, G.H é motivada a limpar sua casa depois que sua empregada resolve não aparecer mais. Por algum impulso instintivo, a personagem resolve começar sua limpeza pelo quartinho da empregada. Durante o processo resolve abrir o armário e, ali, no meio de sombras, vislumbra uma barata. Este ser abominável que, até mesmo G.H, sente escarnio, nojo profundo.

Eis que surgem algumas das características mais marcantes da autora. O foco microscópico cria algumas das partes mais hilárias do livro. Clarice vai descrevendo a barata com uma ironia bastante peculiar, as antenas, as perninhas se mexendo e o líquido branco que vai se amarelando com o tempo. Com o desenvolvimento da narrativa, essas microscopia irônica deixa de ser engraçada e vai se tornando indigerível, incômodo. Clarice é incômoda desde os acontecimentos até sua escrita.

O encontro com a barata aponta, também, a autora dos acontecimentos banais que desmoronam os personagens. Apesar dos conflitos existenciais já existirem em G.H, o encontro com o ser asqueroso provoca um sentimento que ínsita a quebra cotidiana e o contato com o estranho. De maneira internalizada a barata, nojenta, aflora em G.H a busca pelo seu ser sendo e a quebra de seus medos que não a faz sentir, seguir, transgredir. G.H precisa que aquele ser apavorante faça parte dela.

Ao fazer a barata ser pertencente a si, G.H tem o intuito de desnudar-se de uma máscara moral que a impede de entrar em contato com as experiências existenciais mais profundas em prol de uma segurança cotidiana. G.H troca os prazeres, as vontades e suas potências pelo que é convencional, naturalmente imposto.

A Paixão Segundo G.H é um livro intenso, indigerível, incômodo que, porém, não da vontade de parar de senti-lo. Surpreendente. Clarice transforma uma história banal e nojenta em um épico do inconsciente e das vontades humanas.

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