Filme de Janeiro: Doutor Jivago (David Lean)

Por Philippe Leão

Direção: David Lean

País: Reino Unido – 1965

Elenco: Omar Sharif; Alec Guiness; Geraldine Chaplin; Julie Christie; Rod Steiger; Tom Courtenay e outros.

CONHEÇA O DESAFIO:

 

Filme de Janeiro: Doutor Jivago

Um clássico em todos os sentidos da palavra, assim pode ser definido Doutor Jivago. O épico dirigido pelo mestre dos épicos, David Lean, é um romance adaptado da obra que valeu o prêmio Nobel da Literatura para o russo Boris Pasternak. O cineplot revisita esta obra que precisa ser redescoberta para o especial 12 Meses, 12 Filmes – Janeiro.

O filme conta a história de Yuri Jivago, médico e poeta russo, um homem dividido entre duas mulheres. Sob pano desta paixão envolvendo os três personagens está a revolução russa que, a todo instante, quebra as expectativas dos personagens. São justamente essas expectativas que carregam os conflitos, são condutor narrativo a medida que Lean as usa como aberturas para novas possibilidades que apontam tanto ao passado como para o futuro.

Tendo o livro abominado na antiga URSS e sendo o filme uma visão ocidental do livro – mesmo que seja bastante fiel a temática – o longa é duramente criticado por parte da esquerda. A primeira crítica está relacionado a atenção dada à Revolução. A Revolução Russa é comunicada, mas em segundo plano, como suporte para o desenvolvimento dos reais conflitos, ligados a individualidade (conceito execrado pelo coletivismo da esquerda).

As motivações da revolução recebem especial atenção no primeiro ato. É interessante observar que neste primeiro momento do filme o personagem principal trabalha quase como um coadjuvante na história. A escolha é evidentemente um artifício narrativo para desenvolver, em primeiro lugar, personagens importantes e suas relações filosóficas com a revolução. O interesse está em como o evento histórico modifica as personas, os faz trocar as máscaras. Dessa forma conhecemos, entre outros, Yevgraf (Alec Guinness), irmão de Yuri Jivago (Omar Sharif) e narrador da história contada por flashbacks a partir da busca da filha do doutor poeta. Os antagonistas Victor Komarovsky (Rod Steiger) e Pasha Strelnikoff (Tom Courtenay), ainda um jovem sonhador nesse primeiro ato, sugado pela ideologia coletivista nos atos seguintes. Conhecemos, também, Tonya (Geraldine Chaplin), noiva do personagem principal e uma das envolvidas no triangulo amoroso conflituoso e impulsionado pelas mazelas da revolução. Em especial temos a presença de Lara (Julie Christie), motor principal deste primeiro ato motivado pelo estupro cometido pelo detestável Komarovsky.

A polícia Czarista massacra a massa que luta por igualdade. As causas da revolução ganham espaço, mas decaem a medida que demonstra-se a vontade de poder e o circulo na alternância do mesmo.

É importante perceber o desenvolvimento de personagem ligado a ambos os antagonistas. O primeiro, Pasha, começa um jovem cheio de sonhos e ideais de igualdade, mas se torna um tirano das paixões em nome das ideologias. O segundo, Komarovsky, é, inicialmente, um abominável político que se transforma em um elemento de fuga para os personagens principais com o desenvolvimento da trama – é importante, porém, dizer que sua execrável presença jamais é apagada, mas sua funcionalidade se modifica a partir dos encontros.

Os personagens são introduzidos, em um primeiro momento, em um contexto de pré-revolução, permitindo com que se elabore suas causas e suas filosofias. Contudo, as motivações da revolução pouco importam como conflitos daquela que é a verdadeira motivação de Doutor Jivago nos atos seguintes. As relações individuais diante de uma coletividade imposta como discurso oficial é o verdadeiro conflito. Assim, as problemáticas envolvendo a falência das relações entre indivíduos é a real motivação, o que engrandece a obra ao desvincular-se do contexto historiográfico e adentrando na poesia e sua morte institucionalizada.

A Revolução Russa serve de alavanca para os conflitos narrativos, não suas causas, mas as consequências dos caminhos adotados. Entende-se, portanto, o motivo pelo qual este filme é tão criticado pela esquerda em geral – por um lado também por ser uma versão americana em meio a guerra fria, mas isso pouco importa se analisarmos a obra fora do contexto político em que foi criada. Doutor Jivago é um filme atemporal.

Jivago demonstrava, em especial no primeiro ato, embora não fosse um grande entusiasta da Revolução, as discussões políticas. Entendia que a Rússia necessitava de profundas reformas e até mesmo admirava o movimento que culminou na revolução. Com o tempo, porém, os revolucionários parecem papagaios de ideias hierarquicamente prontas, propagavam como robôs memorizados o que escutavam. Portanto, aqui se estabelece mais uma crítica de Doutor Jivago, o clássico ataca o coletivismo imposto por determinado grupo, no caso, o Estado, um discurso oficial.

A poesia do médico e poeta Jivago eram consideradas sentimentais, individualistas demais, perigosas ao Estado. E era!

A verdade é que Jivago demonstrava maior apresso aos indivíduos. Justamente esse romantismo que alimentaria seu amor dúbio e irracional – e portanto ligado as paixões, as emoções individuais – por Tonya, um amor mais racional, e Lara, sua paixão mais romântica.

As paixões e potências de Jivago seriam logo assassinadas com a cristalização da ideologia soviética do coletivismo exacerbado e, portanto, a morte das paixões. Yuri Jivago não seria capaz de sobre-viver como indivíduo na URSS. Não é difícil trazer essa ideia para os artistas soviéticos do Cinema. Tarkovski e Parajanov, importantes cineastas – o primeiro russo, o segundo armênio – inseridos no contexto da antiga União Soviética, tiveram problemas relacionados à suas obras. Considerados individualistas e distantes do considerado “Realismo Soviético”, os cineastas eram nocivos ao Estado e perseguidos pela censura. Parajanov, inclusive, foi preso e subjugado a trabalhos forçados.

Jivago e Lara já acabados em seu isolamento. O filme mergulha em uma fotografia fria em uma decadência gradual a medida que se intensifica a perseguição.

No novo Estado em que deve sobreviver os homens não são tratados como indivíduos, mas como uma unidade, de muitos. Seu pensamento, de um poeta cheio de paixões, pouco importa para a legitimidade de um grupo.

Doutor Jivago é um filme intenso, repleto de camadas a serem desmembradas e re-descobertas. Um filme sobre como uma ideologia anula as individualidades – por acaso se trata da antiga URSS, mas a transposição pode ser feita a qualquer – em prol de uma ideia de unidade coletiva, mecânica.

Sobre a aniquilação das paixões primitivas e a exclusão de qualquer particularidade. Um filme para ser relembrado.

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