Crítica: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Por Leonardo Carvalho

Romênia – 2007
Direção: Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov.

 

Nos anos 1980, duas companheiras de quarto decidem alugar um quarto de hotel para que uma delas possa abortar. Sabemos que estamos em uma época mais antiga pela construção simples, mas muito positiva, de uma direção de arte que apresenta objetos importantes na sugestão, como telefones, televisões, entre outros.

O ambiente não é dos melhores, elas precisam buscar empréstimos para que possam pagar o homem que será responsável pelo aborto. Isso não acontece de maneira fácil, pois antes disso, mal conseguem arranjar um local para que o ato seja realizado. Hotéis estão cheios, e quando acham um local, precisam pagar ainda mais, pois só há vaga em quartos com duas camas, ou seja, são mais caros.

Tudo isso fica nas costas de Otilia, a companheira da jovem que está prestes a abortar. Ela é quem vai resolver todos os problemas. Pensando que tudo está resolvido após conseguir uma vaga em hotel, pensando que agora o alívio finalmente chegará depois de inúmeras grosserias com as atendentes no hall dos hotéis, o homem que será o responsável pelo aborto é outro grosseiro, além de ser chantagista.

A construção desse personagem é muito interessante, pois afunda, ainda mais, a situação de ambas. Uma delas por estar tensa, prestes a abortar, e a outra, além de preocupada com a amiga e ter passado por estresses, terá que fazer algo contra a sua vontade. O homem não quer dinheiro, mas o corpo das duas meninas como uma forma de pagamento.

Otilia faz o sacrifício para amiga depois de insistir em pagar muito dinheiro ao homem, quem não aceita. A partir daí, uma gradação decrescente sentimental vai tomando conta do filme. A protagonista – Anamaria Marinca -, que atua com maestria em toda as duas horas de duração, concede expressões nada felizes, melancólicas, e fisicamente apresenta um domínio sobre a sua figura, esgotada, mas tendo que se esforçar para agradar, por exemplo, seu namorado.

Nessa ocasião, ela vai a uma festa de aniversário da sogra, sendo que não conhece a família do namorado, e pior, precisa deixar a amiga, recém-abortada, por algumas horas no quarto do hotel. Sua preocupação transborda, quase uma personificação da ansiedade, louca para ir embora, mas lança sorrisos de canto para não parecer rude às pessoas na que estão comemoração.

A cena da casa é tensa, agonizante, pois tenta pegar o telefone para ligar para a amiga e saber se está tudo bem: ou a menina não atende, ou Otilia não consegue pegar o telefone. A tensão também parte de toda a comemoração na festa de aniversário, já que sabemos da situação horripilante pela qual a menina está passando. Tudo parece ser fútil perto disso.

O filme todo, aliás, possui um nível de tensão sobre o drama que é impressionante. Muito disso vai em conta aos enquadramentos estáticos, que valorizam as atuações, o espaço está sendo trabalhado para limitar o espectador de informações; e os diálogos, originados de cantos em que não vemos os atores, apenas suas falas com tons raivosos ou preocupados.

O outro ponto é a ausência de música, colocando-nos como bisbilhoteiros de todo o meio dramático. Um quadro que mostra o feto da criança, cheio de sangue em contraste com o chão claro do banheiro, choca em não haver melodia para confortar. Mais no final, um nível de suspense altíssimo é acionado em ruas frias e escuras, quando Otilia está procurando um local para depositar o feto e parece que está sendo perseguida por um homem. O silêncio, neste caso, aumenta ainda mais o medo por apenas escutarmos os sons dos passos e da respiração.

Vencedor do principal prêmio no Festival de Cannes, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, que provavelmente indica o tempo da gravidez, é uma obra-prima do interessante atual cinema romeno. Cristian Mungiu acerta em todas as camadas, na tradução de um roteiro brilhante, explora a mise-en-scène de forma exemplar e coordena o elenco naturalmente.

★★★★★

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