Crítica: Dodeskaden

Por Matheus Petris
Direção: Akira Kurosawa
País: Japão
Ano: 1970
Elenco: Yoshitaka Zushi, Kin Sugai, Toshiyuki Tonomura, Shinsuke Minami, Yûko Kusunoki, Junzaburô Ban, Kiyoko Tange.

Dodes’ka-den (1970)

 

Relações humanas sempre permeiam as obras de Akira Kurosawa, em algumas mais (Ikiru, Donzoko) do que em outras (Yojimbo, RAN); mas nesta, em específico, (Dodeskaden) fica claro o quão isso é importante para o entendimento do cinema de Kurosawa. O tema central é justamente voltado a isso e, se suas relações são problemáticas, não são só relacionadas ao local em que vivem – obviamente que isso intensifica – mas não somente. O teor pode soar denunciativo para alguns, mas o ponto não é esse – nunca foi –, Kurosawa está preocupado em filmar a verdade, a realidade de seu país. Realidade essa, que muitas vezes não é mostrada (e isso não se aplica apenas ao Japão), mas sim, mascarada. Kurosawa já retratou o Japão feudal, marginal, contemporâneo, de basicamente todos os prismas possíveis. Aliado a Mizoguchi e Ozu, fez parte de um grupo de cineastas que estiveram realmente interessados em fazer cinema e que realmente amavam seu país, não patrioticamente, geograficamente falando.

Dodeskaden possui muitos personagens inseridos em diversas tramas, e em nenhuma situação é permitida uma espécie de protagonismo. Todos seguem com seus papéis com tempo de tela similares, vivendo cada qual com seu cotidiano, e nos permitindo conhece-los um pouco mais e intimamente. Entramos em suas vidas, em suas casas, nos seus dilemas, assim nos sentindo totalmente ligados àquela comunidade.

O personagem que inicia o filme também o encerrará: ele é nosso elo ao imaginário, ao mais puro cinema. Ele, jovem, se imagina um maquinista, enquanto sua mãe ora pedindo pela sua recuperação ou cura. Ele afirma ter muitas viagens a fazer no dia e sai para trabalhar; a locação é composta de desenhos infantis e, justamente, de trens. A nossa imaginação é fértil, desde muito novos. Ao chegar no “trem”, ele o prepara com o maior cuidado e amor possíveis, nos permitindo também imaginar como seria aquele trem. A “insanidade” dele pode muito bem representar a criatividade dos cineastas, ao pensarem em seus filmes: afinal, isso também é uma das características da arte. Se crianças o hostilizam por pilotar um trem imaginário, não é por maldade, e sim por ignorância. A subjetividade da imaginação é um caso à parte. Então, isso seria criatividade ou infantilidade? Ainda creio que isso é o mais puro cinema, o cinema da invenção, da realidade composta do imaginário. O som também faz parte da dança, faz com que dancemos conforme a música, com a imaginação. Ao ouvirmos os sons emitidos pelo trem podemos, junto ao personagem: imaginá-lo.

Enquanto alguns personagens seguem suas monótonas vidas, outros buscam um sentido para ela, enquanto outros se entregam ao alcoolismo, bem como na própria vida, novamente: na realidade. O alcoolismo é uma doença geralmente atrelada às classes mais baixas, pelo seu fácil acesso e seu rápido poder de fuga do real. Justamente por isso, o crime também o é. Na relação do crime pela necessidade, a urgência de viver. Outra cena simboliza o puro, mas me refiro à pureza humana, que está quase extinta: Enquanto o ladrão invade a casa de um dos personagens, o mesmo acorda e diz: “Não leve minha caixa de ferramentas, eu uso-as para trabalhar. Pegue esse dinheiro e, se precisar de mais, volte. E na próxima vez entre pela porta”. Esse mesmo personagem luta bravamente pela sua sobrevivência, pois consegue ser seu próprio patrão, portanto não precisando buscar emprego. Enquanto outros, não conseguirão o emprego em hipótese alguma, tendo em vista justamente sua condição. E existe o outro personagem que simboliza justamente essa incapacidade: o morador de rua que vive junto a seu filho em um carro abandonado. Seu filho é pedinte de comida e, assim, eles vivem. A imaginação também ali reside: enquanto que eles sonham com sua própria casa, vislumbram-na em sua mente. Só que, dessa vez, podemos literalmente enxergar seus desejos, podemos assisti-los nessa construção da casa imaginária. Outra amostra do cinema, de suas possibilidades, da arte máxima.

A arte de Kurosawa também é viabilizada pelo plano fixo. Ao concentrar algumas cenas justamente nesses tipos de planos, com uma grande profundidade de campo, nos atemos em tudo a sua volta e em todas as dificuldades comunitárias. Se o filme possui poucas movimentações, é por escolha de Kurosawa que, nesse caso, consideramos mais do que assertiva.

Antes que o leitor questione: obviamente há mais personagens e mais conflitos, cada um com sua particularidade e intensificação do real, mas este presente texto não possui pretensões de dissecar cada um dos núcleos, pois pensa que isso deve ser feito pelo próprio espectador e, também, com sua própria visão de mundo e subjetividade artística.

Dodeskaden dificilmente será esgotado e nunca envelhecerá, a realidade por ele apontada sempre estará presente em nossas vidas.

 

★★★★★

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