Festa de Família e o Dogma 95

Por Fernando Boechat

 

Direção: Thomas Vinterberg

Dinamarca/ Suécia – 1998

Elenco: Ulrich Thomsen; Henning Moritzen; Thomas Bo Larsen; Paprika Steen

 

 

Festa de Família e o Dogma 95

Estamos falando do primeiro filme do Dogma 95, movimento dinamarquês que surge com o manifesto escrito por Thomas Vinterberg e Lars Von Trier em 1995, defendendo uma postura mais realista e menos comercial do cinema. Qual o objetivo do movimento? Os diretores, que levaram pouco mais de 40 minutos para redigir seu manifesto, almejavam um resgate cinematográfico.  O contexto no meio dos anos 90 é o de uma proliferação de filmes blockbuster, Waterworld, Duro de matar 3, Jumanji, etc. Como contraponto às apelações cinematográficas que estavam em voga, resolvem limitar os recursos técnicos na busca de um purismo, na lógica de que menos pode ser mais.

O excesso de efeitos especiais e trucagens eram vistos pelos criadores do movimento como recursos que, além de favorecer os filmes ligados a grandes produtoras (pela enorme quantia de dinheiro envolvida na produção dessas películas), contribuíam para uma captura fácil da atenção pelo espectador, que muitas vezes se contentava com uma trama pobre, desde que recompensado por efeitos inovadores. A inauguração do movimento deve ser visto como um ato de resistência frente ao crescente poder das produtoras hollywoodianas que vinham inclusive cooptando diretores alternativos e independentes para produções mainstrean.

Buscando estabelecer critérios objetivos que impedissem a produção apelativa da qual contestavam, estabelecem originalmente 10 regras:

1 – As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2 – O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3 – A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos (ou a imobilidade) devidos aos movimentos do corpo. O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada, são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar.

4 – O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

5 – São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6 – O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, armas, etc. não podem ocorrer).

7 – São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme deve ocorrer na época atual).

8 – São inaceitáveis os filmes de gênero.

9 – O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.

10- O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

 

Ao observarmos as regras criadas, podemos perceber a ênfase em tomar a natureza como matéria-prima, assim como o privilégio pela dimensão ficcional interna ao filme (a dimensão externa seria, por exemplo, a trilha sonora, que afeta o espectador sem fazer parte da realidade dos personagens). O primitivismo proposto pelo movimento é controverso e por vezes arbitrário, mas carrega uma transgressão que marcaria sua filmografia.

No auge da busca de uma realidade pura para ser filmada está inserido Festen, inaugurador e uma das obras-primas do movimento. A trama tem como epicentro, Helge (Hemming Moritzen), patriarca rico que desfruta de prestígio e influência entre familiares e amigos por sua posição social elevada e articulação com os negócios que administra. Apesar de sua posição central é em sua órbita (seus filhos) que encontramos o privilégio da narrativa que, muito bem executada pelo roteiro, se aprofunda em seus conflitos internos e encaminha-se de modo a dar vida a seus dramas e amadurecer os personagens ao longo do filme. O evento motriz é o sexagenário de Helge, o que acarreta na odisseia de seus filhos (Christian, Michael e Helene) à mansão e aos desdobramentos psicológicos que se desenrolam a partir do evento da festa com suas inúmeras lembranças do lugar onde passaram boa parte de suas vidas.

A propositura naturalista do movimento traz algumas contribuições para o tipo de história que pretende ser contada. O filme se inicia de modo brusco, não encontramos aqui os típicos planos de ambientação que situam geograficamente e contextualizam o espectador antes de se iniciar a ação. Ao invés de um plano fixo bem trabalhado, temos como abertura a imagem tremida de um homem (Christian) caminhando em uma estrada de terra. O que mais chama atenção nos minutos iniciais do filme é a presença do cinegrafista, que gera um incômodo visual com as imagens trêmulas capturadas pela câmera em seu ombro. Sentimos junto com ele a dificuldade de carregar a câmera enquanto este tenta enquadrar os personagens junto à paisagem. Esse amadorismo explícito, além de transgredir certas convenções cinematográficas, gera uma estranha empatia e, principalmente, um clima de intimidade que faz com que o espectador se sinta convidado a entrar junto com os demais personagens na mansão do patriarca.

Dentre as propostas dos realizadores do movimento estava a vontade de realizar filmes impessoais; filmes que a partir de uma trama particular possuíssem um conflito moral universalizante. Há diversas ambiguidades que permeiam as propostas do movimento, tal qual a omissão do diretor nos créditos. A omissão do nome do diretor, ao mesmo tempo em que é uma referência que se contrapõe à política dos autores defendida pela nouvelle vague, mostra-se ambígua ao notarmos que o manifesto do Dogma95 é assinado pelos dois diretores, Viterberg e Lars Von Trier. Ainda assim, Festen consegue ser “impessoal” ao abordar um caso particular de uma família da alta burguesia e fazer com que seus conflitos possam ser pensados de forma generalista para qualquer família burguesa. Mas a universalidade alcançada não impede de marcar pelo estilo e atmosfera auferido, o traço fortemente autoral de Vinterberg.

A ambiguidade se apresenta também no desenrolar de acontecimentos e situações vividas pelos personagens, que por vezes não sabemos até que ponto seus conflitos internos são frutos de alguma paranoia fantasiosa ou se apresentam forte lastro com a realidade. Desfrutamos de situação muito próxima à de Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, onde convidados, também da alta burguesia, não conseguem manter o disfarce de suas máscaras sociais frente aos inesperados acontecimentos que se sucedem. Em Festen, aquilo que era para ser uma simples comemoração de aniversário de um homem ao completar 60 anos, vira pano de fundo para analisar toda a hipocrisia que ronda o ambiente familiar. Eventos comemorativos e outras situações que envolvem a ideia de um vínculo com a tradição, parecem ser o terreno ideal para a abordagem da repressão dos sentimentos e o desmascarar de hipocrisias. É na clausura de buscar uma aparência de normalidade e não frustrar a expectativa da figura dominadora do patriarca, que os sentimentos de seus filhos entram em conflito e os traumas da convivência passam a emergir, em um ritmo crescente que nos sufoca até o término da obra.

Para concluir, é bom que tenhamos em mente que as contradições não são sinal de falha, muito pelo contrário, parecem ser justamente a base deste movimento que deve ser compreendido à luz da própria ironia de seus idealizadores. Um “dogma” é um axioma divino e, portanto, inquestionável. Só a escolha da palavra, somado à velocidade da formulação de suas “leis sagradas” pelos dois fundadores já nos dá altos indícios do nível de sarcasmo empregado em todo processo de elaboração até à conclusão dos filmes. Desta maneira, é bom que cultivemos um olhar crítico e afiado para estarmos à altura dessa obra de arte e de outras que perpassam o movimento.

 

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