Crítica: La La Land

Por Philippe Leão

 

Direção: Damien Chazelle

País: EUA

Ano: 2016

Elenco: Emma Stone;

La La Land: Cantando Estações

 

Nasce um novo clássico. A afirmação que acabo de fazer não está necessariamente vinculada com a qualidade do que é apresentado. La La Land traz o que a indústria – em especial hollywoodiana – adora, uma metalinguagem sobre si. Soma-se o aspecto de musical cheio de referências aos clássicos do passado e uma direção vez ou outra diferenciada, pronto! Temos La La Land.

Dirigido pelo prodígio Damien Chazelle – que surpreendeu na premiação de 2015 com Whiplash que, para muitos (inclusive eu) merecia o prêmio de melhor filme – La La Land compõe uma estrutura tradicional dividida em cinco atos, as quatro estações mais o retorno a primeira delas, o inverno. A partir desta estrutura, o filme se divide em dois núcleos que se encontrarão em um único. O primeiro de Mia Dolan (Emma Stone), uma atriz que tenta espaço no estrelato em meio ao fracasso em uma série de audições. O segundo de Ryan Gosling, que dá vida ao personagem Sebastian, um pianista de Jazz muito talentoso e saudosista que, porém, amargura o fracasso à medida que a música se moderniza.

A demarcação dos cinco atos, porém, estabelece as fraquezas. Algumas estações são extremamente desequilibradas em relação as outras. Em especial, há de se citar o primeiro inverno, justo o momento em que os personagens devem se construir. A colisão dos dois núcleos se estabelece pela primeira vez aqui através de uma montagem que apresenta os acontecimentos precedentes ao encontro em um restaurante, onde Sebastian está a tocar, a partir do ponto de vista de ambos os personagens, um seguido do outro.

A construção é correta, mas banal, o que provoca este contraste com os mais exitosos atos posteriores. Vale citar ainda a tão bem falada cena de abertura, onde um flash mob acontece em meio a um trânsito em um viaduto qualquer em Los Angeles. Talvez seja proporcionado pelo plano sequencia na cena musical, mas será que isso basta? Já esta na hora de saber, plano sequência é uma técnica, e nem sempre ela funciona (aliás, mesmo que haja montagem no plano, essa histeria em volta do plano sequencia como a maior das técnicas só rebaixa o cinema e sua diferenciação para as demais artes, o vazio proporcionado pelo corte). E vamos lá, descontraidamente, a cena parece um flash mob de líderes de torcida mascarada pela técnica tão valorizada atualmente.

Pois bem, o filme melhora depois do primeiro ato. Apesar do desconforto provocado pelo musical – do qual não sou fã – é interessante perceber o conflito dos núcleos proporcionado não apenas pelo individualização dos personagens, mas também da junção do Cinema com a Música, o Jazz. Há aqui uma nostalgia provocada pela essência de ambas as artes que estariam esvaindo seus pilares em função do advento da modernidade e da técnica em movimento incontrolável. As artes se completam.

Por trazer a arte e, em especial a música para o núcleo narrativo, La La Land proporciona uma musicalidade à imagem que se traduz a uma originalidade no adorado gênero hollywoodiano. Os momentos de cantoria, muitas vezes, passam despercebidos. Acontece que não são daqueles em que absolutamente do nada ocorrem – ok, existem alguns momentos, mas em essência as coisas parecem natural. Aliás, La La Land é um musical com bem menos canções do que se costuma, as sequencias de música instrumental são também constantes, elegantes e divertidas. Esse equilíbrio cria uma atmosfera menos massante para aqueles que não curtem o gênero e aumenta a experiência aos que gostam pela musicalidade que Chazelle sabe dar à montagem. Contudo, apesar de muito bem entrosados e com boas atuações quando não estão dançando, a coreografia é dura e repetitiva. É inegável o talento de ambos os atores quando estão contracenando, mas a escolha não parece ser a mais adequada quando se refere a suas habilidades na dança.

Fotograficamente o filme alterna em bons e maus momentos. Parece não saber que filme e qual estética adotar. O visual clássico e colorido dos musicais parece reinar, mas se mistura com uma composição dura e cheia de sombras em outros momentos (como no flash mob inicial). No geral, é um filme bonito.

A montagem, contudo, é o maior dos acertos e o que faz o filme se tornar diferenciado. Apesar da fragilidade provocada pela divisão dos atos – mesmo que fosse necessário faze-lo – a inegável qualidade de Chazelle em provocar musicalidade à montagem de um filme (já apresentada em Whiplash e agora comprovada em La La Land) torna este um  trabalho diferenciado. E é justamente essa montagem muito bem explorada que provoca o clímax do filme, o qual você precisará assistir.

La La Land chega forte na disputa para o Oscar de 2017. É inegável que sua força se consiste, em especial, em sua temática metalinguística. Contudo, o filme carrega em sua montagem e direção o fator diferencial para as demais obras do gênero. La La Land, com certeza, irá entretê-lo.

★★★☆☆

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