Edgar Morin e a Massificação da Cultura no Cinema

Por Fernando Boechat

 

Edgar Morin trata da cultura de massas e afirma ser um reflexo do desenvolvimento capitalista- não só pelo surgimento dos meios de comunicação em massa, como rádio, tv e cinema- como pelas novas condições de vida em países capitalistas mais desenvolvidos.

Aonde antigamente o trabalhador tinha um expediente que variava entre 12 a 16 horas de trabalho por dia, hoje, em muitos países, temos uma carga horária em torno de oito horas por dia com direito a férias e fim de semana.

As melhores condições de vida do trabalhador proporcionaram a estes mais tempo livre. A vida de trabalho é, em geral, menos penosa do ponto de vista do desgaste físico, mas mais burocrática e despersonalizante. Isto leva a uma contrapartida de uma busca por uma vida subjetiva mais rica e ao desenvolvimento da individualidade.

Ao se livrar do jugo da necessidade, o indivíduo burguês passa a ter outras preocupações, como o que fazer com seu tempo livre, como alcançar a felicidade…

Nos programas de televisão, com seus cultos à personalidades e nas telas de cinema, há várias mensagens audiovisuais de modelos ideais de comportamento. Heróis como o personagem de James Dean em “Juventude Transviada” ou James Bond.

Do jovem rebelde sem causa ao quarentão destemido e galanteador, a cultura de massas oferece um modelo pronto para consumo para todo tipo de público. Mais que isso, fornece modelos de projeção e identificação.

Devemos entender o homem moderno como um indivíduo que recalca a sua agressividade. Pela psicanálise, quando o sujeito recalca um desejo, este vira uma espécie de fantasma; e o sonho é o espaço para que se possa realizar esses desejos reprimidos.

A cultura de massas funciona como uma indústria de sonhos que sonha por você, realizando assim seus desejos não realizados. Seus desejos de expulsão da violência retida são exibidos na caricatura de heróis de faroeste como Clint Eastwood e John Wayne, o que permite ao telespectador se projetar nesses heróis e nas suas aventuras violentas e/ou eróticas, de um modo que não poderia viver em sua vida real, apenas na imaginação.

Clint Eastwood
“Seus desejos de expulsão da violência retida são exibidos na caricatura de heróis de faroeste como Clint Eastwood e John Wayne, o que permite ao telespectador se projetar nesses heróis e nas suas aventuras violentas e/ou eróticas, de um modo que não poderia viver em sua vida real, apenas na imaginação.”

Há também os gêneros que pretendem a empatia com o telespectador, mostrando realidades possíveis (mas sempre com um glamour ou fantasia a mais) como novelas e filmes de romance. Que permitem ao telespectador ter uma relação de identificação com a história e seus personagens.

A “Indústria Cultural”, para Morin, tudo tem a ver com o aumento da técnica e a possibilidade de novas mídias e o impulsionamento para busca do lucro capitalista. A arte como finalidade de lucro. Uma produção com essa finalidade tende fatalmente a reduzir a qualidade de seu produto.

Não há o interesse de se dedicar uma vida inteira a fim de se produzir uma obra-prima, e sim, o de se produzir rápida e massivamente a fim de se conseguir o maior lucro possível.

O autor toma o devido cuidado de não reproduzir um elitismo aristocrático ao fazer sua crítica, e denuncia o mesmo por sua vez. Não caindo assim na tentação de reproduzir um discurso que fala da ‘alta arte” e da ‘baixa arte”. Sendo assim, investiga o que é produzido,  para que é produzido e para quem é produzido.

No sistema capitalista, a indústria cultural, busca- como qualquer mercado- demanda para sua oferta. Isso afeta o conteúdo do que será produzido e o modo de sua produção.

O autor percebeu uma tendência interessante das grandes produções cinematográficas, a saber, as co-produções. Como essa indústria tem um caráter imperialista globalizante, é importante que o maior número de pesoasse se sintam representadas pelo que será exibido. A co-produção garante esse sincretismo que permite uma identificação mais global.

Dentro ainda da perspectiva de se ter um público mais amplo, a imprensa, de uma forma geral, produz voltada ao público de cultura mediana, nivelando por baixo sua programação. Pouco adiantaria exibir programas com debates entre Chomsky e Foucault, pois muito poucos teriam capital cultural para serem público de tal programação.

Nessa lógica, os jornais e telejornais utilizam, de maneira geral, uma linguagem simples, evitando entrar em temas muito complexos.

Os filmes blockbuster podem ser assistidos tanto por crianças quanto por adultos. Esse nivelamento da cultura de massa produz efeitos interessantes, como o amadurecimento precoce de crianças e adolescentes, e a infantilização da vida adulta simultaneamente.

Mesmo assim devemos evitar os fatalismos, pois sempre há os pontos fora da curva (nesse ponto o autor é bem mais flexível que os autores da Escola Frankfurt). Mesmo no cinema, arte massificadora por excelência, Morin identifica autores que fogem da lógica estritamente comercial e que conseguem produzir obras bem contestatórias, com uma estética e conteúdos diferenciados, pode-se citar, por exemplo, Antonioni e Bergman. Mais recentemente, poderíamos citar David Lynch e Lars von Trier.

A Aventura
“Mesmo no cinema, arte massificadora por excelência, Morin identifica autores que fogem da lógica estritamente comercial e que conseguem produzir obras bem contestatórias, com uma estética e conteúdos diferenciados, pode-se citar, por exemplo, Antonioni e Bergman.”

De todo modo, via de regra, é a produção que dita os moldes de como vai ser produzida a arte. No cinema isso se dá no campo das produtoras, estas investem o dinheiro na produção do filme e querem que este valha o investimento feito com seus devidos lucros, tolerando poucos riscos e tolhendo eventuais excentricidades do diretor de cinema. Filmes que choquem a moral de muitos espectadores ou que introduzam temas muito complexos seriam mal vistos pelos produtores pois representaria muito provavelmente menos público para assistir ao filme e, consequentemente, menos lucro em sua exibição.

A cultura de massa tende a ser moralista, não por natureza intrínseca, mas justo e apenas porque a maioria do público o é. Como sua função é agradar ao público, ela reproduz também seus preconceitos.

Numa análise histórica, se torna um espelho interessante de seu tempo. Podemos notar o machismo nos anos 50, a forte diferença entre os gêneros e os papéis desempenhados pelos dois sexos, assim como o conflito geracional dos anos 60, e assim por diante…

Vale lembrar que existem outras culturas que dividem espaço com a cultura de massas, tal como a “alta cultura”, como a ópera, balé, artes plásticas, etc., também temos a “cultura negra”, o “underground” e outras. O que elas tem em comum é que elas possuem um recorte mais observável em relação a qual cor, classe social, idade e sexo estão contidas em seu interior. Ou seja, se inserem numa lógica de estratificação social, não absolutamente rígida, mas perceptível.

Já a cultura de massa se democratiza de uma forma jamais vista. Se estrutura de uma forma a manter elementos de todos os tipos que possam de algum modo em sua exibição poder contemplar o maior número de pessoas. Uma novela ao retratar tanto pobres quanto ricos, pode criar uma identificação para ambas as classes, e projeções para ambas também, no tocante à realidade apresentada em que estes não vivem, mas se sentem tentados de algum modo.

Ou seja, a cultura de massas transcende a classe social, a cor e o sexo. E o faz consciente disso, utilizando uma estratégia de sincretismo de diversos elementos culturaise de apropriação, visto que “pega emprestado” clássicos da literatura mundial para lançar blockbuster nos cinemas. Ou produzir livros em massa se tornando “best seller” com estratégias de marketing tanto na venda quanto na produção dos conteúdos.

Lembrando que muitos livros que são sucesso de venda hoje, são basicamente cópias de mitologias e histórias foclóricas, mas adaptadas ao público adolescente, público este cada vez mais largo em sua amplitude etária, dada essa infantilização da vida adulta. O exemplo do mito é duplamente importante, porque o autor nos diz que a estrutura da programação cinema/tv se dá muito por adaptação mitológica trazida ao tempo presente e com uma função similar apesar de suas particularidades.

Agora que o homem está liberto dos grilhões da necessidade, cabe cuidar de um problema novo, desenvolver sua vida pessoal, privada. Seus heróis não serão Hércules nem Odisseu. Estes sempre arrastados pela tragicidade do destino.

Seus heróis hoje representam o homem livre que escolhe o seu próprio destino, que se constroem de acordo com seus desejos. Mais ainda, são mostrados como se tivessem nascidos prontos, como se não tivessem que ter passado por nenhuma privação para alcançar o grau de ousadia e sagacidade que possuem, como se viesse de sua essência ser bom em tudo que fazem. E saciam seus desejos sem medo das proibições e de suas consequências, suas vontades geram a legitimidade de suas ações.

Estes heróis ao estilo James Bond, entram na categoria que o autor denomina de “Olimpianos”. Ao qual, como já foi dito, existe toda uma projeção por parte do público.

A mitologia é então reproduzida com uma nova ética, mas aproveitando os arquétipos do inconsciente coletivo para aumentar a identificação.

Mas essa vida privada não são só flores, a angústia, a solidão e a melancolia podem estar à espreita. Esses problemas não são encarados de modo maduro. A solução encontrada é a quase regra de ouro do “happy end” que serve como uma dose de esperança aos desperados e também como alienação dos problemas da vida privada. Recalcando assim a angústia e a tristeza que fogem do ethos da cultura de massa.

É neste momento que o autor profetiza que as frestas da decadência burguesa podem se desenvolver para fendas profundas.

Referência:

MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX- Volume 1: Neurose. 10° Edição- Ed. Forense

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