Crítica: A Noite dos Mortos Vivos

Por Matheus Petris
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A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead)
Direção: George A. Romero
País: Estados Unidos
Ano: 1968
Elenco: Duane Jones, Judith O’Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman, Keith Wayne, Judith Ridley, Kyra Schon, Charles Craig.

Um carro faz um caminho contrário, o enfoque nas curvas e no caminho percorrido deixam claras as intenções de Romero: será um caminho sem volta. O destino: um cemitério. Os dois personagens dentro do carro, discutem incansavelmente, sob assuntos banais e obsoletos, que poderiam serem resolvidos com as mais simples das conversas, mas não, a natureza humana vibra, não consegue viver em harmonia, ou pelo menos encara como uma tarefa árdua. Assim se inicia Night of Living Dead, de forma sintética e simples, diga-se, porém, de forma inteligente, já nos preparando para tudo que viria a ocorrer.  Os mortos-vivos (ou Zumbis, como queiram), são apresentados logo nesse início, se mostrando mais vorazes e inteligentes – inclusive utilizam maçanetas – daqueles que a cultura pop “recentemente” moldou. Para aqueles que só conhecem esses “zumbis”, acharão deverás estranho. Como todos seus “parentes” e “descendentes”, os zumbis possuem um único objetivo, e correrão – literalmente – atrás deles. Com exceção deste início, o filme se passa inteiro dentro de uma casa. O que já denota uma clara sensação de impotência, e que ali, independente do que aconteça, se travaria uma guerra. E é o que acontece, mas seria essa uma guerra de humanos x zumbis? Sim e não.

O suspense e a tensão provocados por Night of Living Dead, possuem um efeito soberbo e eficiente, efeito esse, que faz-me lembrar de filmes como Rope de Hitchcock e 12 Angry Men de Lumet. Ambos os filmes que possuem basicamente um cenário e um “simples” roteiro. Porém, como todos estiveram na mão de excelentes diretores, foram eficientes e nos fizeram sentirmos completamente absorvidos pelo decorrer da trama.

Os personagens são apresentados aos poucos, de forma paciente e ao mesmo tempo ágil. Detalhes que filmes de horror geralmente não conseguem fazer de forma coesa. Mas esse, é o oposto, faz de forma não só coesa, como nos permite descobrir juntamente aos personagens. Cada um deles, representando certo grau social e levando consigo suas próprias falhas, que são mais evidenciadas que as qualidades. A junção de tantas falhas, forma a sociedade. Uma sociedade pequena, dentro de uma casa, correndo perigo e buscando a sobrevivência. A palavra zumbi ou morto-vivo nunca é proferida, visto que, o não conhecido precisa ficar cada vez mais evidente. O pouco do contato exterior que eles possuem, são com aparelhos eletrônicos, que no final das contas, nada ajudam. Afinal, ninguém sabe o que está ocorrendo ao redor do mundo. O jogo de sombras de Romero – que é o diretor de fotografia não creditado –, lembra e muito o trabalho de Tourneur e seu fotógrafo em I Walked With a Zombie. Jogo esse, que elucida ainda mais o conflito vivido na referida sociedade. O estado de choque traumático que um dos personagens apresenta, também dificulta os planos e o convívio entre eles, personagem este, que beira a ponte entre a sanidade e a insanidade. O desconhecido amplia essa sensação, esse pavor. Este ignoto que atinge a todos, causando aflição em todos.

Como em quase toda obra apocalíptica, seja no cinema ou literatura, o instinto de sobrevivência sempre ressoa aos personagens, sempre demonstrando suas verdadeiras índoles. Um deles, se demonstra egoísta desde o início, ele, como uma personificação do mal, um pai de família, “um homem de bem”. Esse instinto corrobora para ampliar a tensão, pois ele, faz com que as pessoas passem a pensar no seu próprio bem, esquecem do coletivo, o que, obviamente, atrapalha a sobrevivência do grupo. O humano, um ser “racional”, não possuí “inteligência” suficiente para viver em grupo perante um grande risco, diferente dos animais, que são hábeis neste quesito. Seríamos nós, realmente tão evoluídos assim?

A coletividade que em teoria é inerente a nós, não se mostra suficientemente produtiva, diferente das dos “zumbis”, que simbolizam os animais irracionais. Em uma cena específica, isto fica bem claro: eles partilham o alimento, cada um com sua parte, dividem conforme as possibilidades. Seriam eles os racionais? A forma voraz como buscam seus objetivos podem soar similares as nossas, mas suas ações coletivas se mostram bem mais eficientes. A ineficiência do coletivo humano, também pode estar relacionado ao egoísmo, que por sinal acaba por desencadear uma série de erros que será trágica para o desfecho do plano. “Errar é humano”, em determinados momentos, isso fica cada vez mais óbvio.

A ruptura do desastre está justamente na falta de coletividade e no egocentrismo humano, que por não conseguir aceitar o próximo, acaba por encontrar seu próprio fim. Se o final do filme é pessimista e niilista para alguns, para outros pode soar como verdadeiro, ou, como um vislumbre de um futuro próximo.

★★★★★

Um comentário em “Crítica: A Noite dos Mortos Vivos

  • 23 de fevereiro de 2017 em 12:00
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    Assisti a esse filme quando era criança. Naquela época, já fascinado por filmes de terror, me lembro que assisti com minha família e a tensão que o filme passava se refletia em cada cena em que eu levantava o cobertor até a metade do rosto, a fim de cobri-lo. A minha torcida era para os humanos! Ano passado, novamente assisti a esse filme. Novamente com a minha família, mas agora com novos membros: sobrinhos. Aliás, alguns membros da família já não estavam presentes. Meus sobrinhos repetiam meu papel de torcer pelos humanos e cobriam o rosto nas cenas mais tensas. Com um olhar diferente, mas sem perder o entusiasmo de assistir a um bom filme, minha torcida, agora, era para os zumbis.

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