Construção Poética em “O Corvo” de Edgar Allan Poe

Por Leonardo Carvalho

 

Confira uma lista de filmes inspirados em Edgar Allan Poe!

Edgar Allan Poe, em “A Filosofia da Composição”, levanta alguns aspectos sobre versificação, originalidade, grau de emoção. O texto, que possui um caráter crítico-teórico com um viés literário, baseia-se em um de seus maiores escritos, o poema “O Corvo”, que no português ganhou traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis. Alguns desses elementos abordados na obra teórica serão aqui desenvolvidos, observando alguns aspectos peculiares percebidos na leitura do poema.

Ilustração de Gustave Doré

“A Filosofia da Composição” deixa claro que fazer poesia é, antes de tudo, um trabalho que se divide em várias etapas e pequenos meios até que ela seja concluída. No mesmo texto de Poe, o escritor expõe críticas negativas a alguns tipos de métodos, mostrando, por exemplo, que o poema não é proveniente de inspiração, como muitos leitores ou não, acreditam. Além disso, ele apresenta recursos essenciais para que um poema seja construído.

Por outro lado, com um modo de pensar ligeiramente diferente, o russo Roman Jakobson afirma que, para versos serem construídos, há todo um meio para que cause os efeitos desejados. Em sua descrição sobre a função poética, discorre sobre a caracterização das expressões literárias. Ainda com essa visão, Jakobson fala sobre as outras funções da linguagem que, assim como a visão de Edgar Allan Poe, existe, sim, uma espécie de regras para o desenvolvimento de um poema. Na função emotiva, por exemplo, ele diz que as interjeições traduzem representações verbais em um texto. Vemos mais uma vez, portanto, que a poesia não é feita apenas pela base da inspiração.

Em uma análise de “O Corvo”, Jakobson mostra que há uma repetição durante o poema, no refrão mais especificamente, a expressão “Nunca mais” (Never more). Posteriormente, o pensador russo encontra a palavra “corvo” (raven) (RVN), em que explica que ela é a “inversão fonológica perfeita” de Never (NVR). Com isso, a palavra “Never” trabalha como um processo de inversão de “Raven”.

A cadência dos versos, sua elaboração e a escolha lexical servem como suporte para a aproximação entre texto e leitor. A construção dos períodos, a repetição de termos e o jogo de palavras são outros recursos técnicos que Poe exibe. A escolha lexical e a distribuição nas orações revela um cuidado na composição dos versos. A obra, em sua língua origina, utiliza fatores como continuidade, dada pelo prefixo “ing”, que nas traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis privam por manter essa longevitude e dinamismo na escolha das palavras, principalmente no gerúndio.

“O Corvo” pode ser observado como um poema através de uma gradação. A loucura do eu-lírico vai sendo mostrada conforme o passar das estrofes, com isso, faz com que o leitor se ambiente na história. A repetição de alguns versos deixa claro que, além de criar esse clima de loucura, observa-se um pouco de aflição. As rimas, muito bem trabalhadas, são fatores essenciais para a construção de uma ótima poesia. O clima sombrio, além de ser mostrado na história, é também evidenciado nelas.

O tom melancólico observado na expressão “nunca mais”, repetida ao final das estrofes, expõe que a morte possui esse caráter sombrio, ao mesmo tempo poético. É interessante observar que o enredo tratado em “O Corvo” é simples, mas muito bem trabalhado, levado a um nível muito alto de complexidade e reflexão. Um corvo, depois de fugir de seu dono, no meio de uma tempestade, entra pela janela de um quarto, onde vive um homem que sonha com a amada morta. Há, sem dúvidas, um toque romântico, mas que, como foi citado anteriormente, o modo como o poema foi construído, providencia uma atmosfera de trevas, característica marcante em outros trabalhos de Edgar Allan Poe. Todas essas técnicas, ao lado da ótima estruturação do poema, provocam o “grau de efeito realmente poético” e a “intensidade” que o poeta cita em “A Filosofia da Composição”.

Ilustração de Gustave Doré

A ideia da conclusão para se fazer uma história também é citada pelo autor norte-americano. Segundo ele, é preciso que haja total conhecimento sobre a obra, ou seja, saber o que vai acontecer até a última palavra. Outro fator a se destacar, citado por Poe, é que o poeta precisa de uma inspiração, mas não trabalhada de modo usual. Ele considera que “O Corvo”, de forma geral, foi feito com passos tão rígidos e complicados como um problema matemático. Por isso, a inspiração é algo quase que secundário.

Em uma analogia interessante, para percebemos o efeito do trabalho com as rimas e a composição em si do poema, por exemplo, podemos destacar o curta-metragem de Tim Burton, “Vincent”. A narração em voz over feita por Vincent Price, que também recitou “O Corvo”, tem um jogo de palavras que, ao lado da trilha sonora, obtém musicalidade. Na poesia, o trabalho feito sobre os termos, os versos e as rimas, expõe ritmo e musicalidade também. Burton, sem dúvidas, se inspirou na obra de Poe para trabalhar cada palavra do seu roteiro, já que tem fortes e claras citações ao poeta estadunidense.

O que percebemos, portanto, é que há uma mescla de um tom melancólico, graduado pelo conteúdo, e outro de tom poético, tomado pela musicalidade da essência da poesia, capturados (os tons) pela forma com que o poema foi composto, que por sua vez, essa estrutura projeta uma melhor visão e captação do poema. “O Corvo” é, sem dúvidas, brilhante, um dos maiores poemas da história da litetura, senão o maior, pelo menos dos últimos séculos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *