Crítica: Animais Noturnos

Por Emily Almeida

Direção: Tom Ford

País: EUA

Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson

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O uso da metalinguagem no cinema pode ser de grande valia, já que trata-se de um recurso que dinamiza a trama ao trazer elementos de fora que, ao mesmo tempo, dizem respeito à ela. Um bom exemplo recente de emprego da metalinguagem se encontra em Birdman (2014) e em sua crítica à indústria cultural, sendo ele mesmo um produto essencial de Hollywood e daquilo que reprova nas telas. O que encontramos em Animais Noturnos, no entanto, é uma história que conta uma história, com a utilização de um artifício – o de contar algo – que o filme, em sua camada exterior, já carrega consigo.

Sete anos após o lançamento de seu primeiro longa-metragem, Tom Ford aposta na adaptação do livro Tony & Susan, de Austin Wright. Na trama apresentada inicialmente, Susan Morrow (Amy Adams) é uma mulher bem sucedida e dona de uma galeria de arte. Em um de seus dias comuns, ela recebe um manuscrito intitulado Animais Noturnos, enviado por seu ex-marido – quem havia deixado há 20 anos – e dedicado à mesma. Acompanhamos, a partir da chegada do livro, três histórias paralelas: a de Susan atualmente, a história enviada por seu ex e a trajetória dos dois no passado.

Jake Gyllenhaal dá vida à Edward Sheffield (ex-marido de Susan) e Tony Hastings (protagonista do livro escrito pelo primeiro). O protagonismo em tela acaba sendo do universo criado por Edward, que ganha forma através da leitura de Susan. Nele, quando Tony parte em uma viagem com sua filha (Ellie Bamber) e esposa (Isla Fisher), a família é abordada em plena estrada por um grupo de jovens desequilibrados que têm como líder o lunático Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson).

Ainda que Susan seja bem exibida por Amy, em certos momentos ela soa avulsa na medida em que boa parte de seu tempo em cena serve para que vejamos suas reações enquanto folheia o manuscrito. A artista surge quase sempre vestida de preto, com os olhos carregados de maquiagem e os cabelos ruivos cobrindo metade do rosto, o que forma uma figura misteriosa, soturna, que se encontra inabalável ao olhar dos que a acompanham em sua vida culta e luxuosa, mas que se mostra cheia de arrependimentos e inseguranças em relação ao passado quando na companhia somente do espectador.

Já Gyllenhaal parece viver duas pessoas que compartilham a mesma personalidade: tanto Tony quanto Edward são indivíduos aparentemente calmos e sensíveis que buscam estimar as relações familiares e amorosas em suas vidas. A voz baixa e a expressão serena, como se nada fosse capaz de perturbá-los, prevalece, com uma passividade quase que natural em suas ações, mas que não é posta como regra ao decorrer.

O ponto de maior acerto do filme encontra-se na maneira como a obra literária é tomada. Mesmo que constituída no universo fílmico, Tom Ford insiste em evocar o fato de que se trata de algo em texto, alterando sua dinâmica na medida em que a leitura feita pela personagem de Amy se dá – com pausas nos momentos mais sufocantes, por exemplo. A lembrança mais clara de que se trata de uma leitura se vê no momento em que um personagem do livro está prestes a morrer e escutamos seus batimentos cardíacos gradualmente diminuindo. Mesmo que estejamos acompanhando a história de modo personificado, é como se a sequência fosse um texto que descreve, lenta e calmamente, o modo como o coração foi parando.

O apreço estético, como era de se esperar, fica bem destacado, com sua singularidade exibida logo nos primeiros minutos da produção. É incrível, no entanto, a maneira como ambientes tão distintos são expostos: a casa e a galeria de Susan, com seu tom minimalista e obscuro; e o deserto do Texas, em um clima western amarelado e vazio em relação ao lúgubre anterior. Vale destacar, ainda, a ironia dramática inserida em um momento de suspense, onde sabemos algo que a vítima não sabe, dando mais forma à categoria de thriller da trama.

O longa de Tom Ford agrada, num sentido geral, principalmente pelo modo como o ambiente de suspense é construído – com um desenvolvimento que não é facilmente entregue ao público e que desperta, de fato, interesse. Sendo assim, Animais Noturnos caminha por alguns gêneros – romance, drama e o próprio suspense – sem se perder e carrega um desfecho autêntico que só reafirma a inclinação do ser humano por alcançar a plena satisfação, ainda que isso signifique, para o outro, um real padecer.

★★★★☆

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