Crítica: Tenebre

Por Matheus Petris

Direção: Dario Argento
País: Itália
Ano: 1982
Elenco: Anthony Franciosa, Giuliano Gemma, John Saxon, Daria Nicolodi, Giuliano Gemma.

Tenebre é um filme insólito em meio ao restante da filmografia de Dario Argento. Mesmo se tratando de um giallo, ele o rege de forma tão fleumática que, em alguns momentos, é possível esquecer que se trata de uma obra sua. Porém, rapidamente nos lembramos pelas marcas do próprio subgênero que abarca o filme. Ainda que comedido, sua competência se torna clara e objetiva, o que torna Tenebre um filme díspar, mas tão eficiente como os outros.

Esse diferencial pode ser também exemplificado em uma comparação feita por Ruy Gardnier (da extinta Contracampo) entre Argento e Chabrol quanto a essa simplicidade que faz a narrativa fluir naturalmente. Paralelo esse que também aconteceu nos filmes mais recentes de Chabrol, que manteve sua potência apesar de se distanciar de suas características.

O design de produção também é ponderado, conforme notamos, por exemplo, na distribuição parcimoniosa dos objetos cênicos e de figurino vermelhos, presentes em praticamente todas as locações. Tais elementos são trabalhados de maneira hábil, como bom giallo que é, a criar um clima de suspense logo de pronto. A apresentação da personalidade do assassino é feita de forma natural e compassada, mesmo que suas intenções sejam ostensivas.

A psicopatia é inerente ao giallo. A busca por sangue, pelo prazer alcançado somente por meio do assassinato.  A visão subjetiva do assassino intriga e espanta enquanto ele manipula suas luvas de couro, as quais, além de ocultar pistas, tentam esconder seu verdadeiro ser. Em Tenebre, principalmente, pois o assassino não quer reconhecer sua própria insanidade enquanto um problema, mas como solução. Talvez diferentemente da literatura que influenciou e criou esse subgênero, sendo as luvas utilizadas apenas como uma característica em comum.

As justificativas para cometer um assassinato são verdades absolutas aos assassinos seriais. Seus métodos deixam claras suas reais intenções e o ódio que nutre seu desejo em matar e que, principalmente, lhe traz prazer. Ao fazer com que suas vítimas se sufoquem com páginas do livro que ele julga subversivo, ele sente um prazer dobrado. O assassino julga a obra como depravada e imoral. Ao cometer esses atos, age como que por vingança.

Em uma cena inexplícita, a relação de subversão e depravação por parte do protagonista é simbolizada por uma adolescente que adentra o local onde ele está hospedado com a função de ajudá-lo nos problemas que ali podem ocorrer. A roupa que lhe é escolhida é sensual, com a mise-en-scène buscando justamente chamar a atenção do protagonista e nos fazer questionar suas reais intenções com ela. Relações essas que são escrachadas pelo jornalista e crítico, que parece não suportá-lo, demonstrando um preconceito com raízes no seu próprio extremismo religioso.

A relação da arquitetura é também uma curiosa característica de Tenebre, que em determinados momentos nos transporta a uma Roma inabitual, que de tão estranha, não nos permite identificar em qual época se passa. Em algumas arquiteturas futuristas, com prédios sempre chamativos, Argento consegue provocar uma sensação de estranheza também pela cenografia.

Há também um momento inesquecível no filme em que, utilizando esses mesmos prédios vulgares e excêntricos, somos apresentados a um dos melhores usos de grua na história do cinema. Adentramos em um prédio juntos a câmera, e como bons ‘voyeurs’, conhecemos mais um pouco daqueles que ali habitam e de suas escolhas como seres. É urgente a relação entre espectador e personagens, o que preconiza ainda mais a tensão – embalada por sua trilha inesquecível.

Se o “O Cão dos Baskerville” é citado, é também metaforizado nesta cena que amplifica ainda mais o instinto violento e animalesco do filme. Instinto que muitas vezes é utilizado como justificativa. Por mais que sejamos racionais e “desenvolvidos” em teoria, as ações do assassino provam o contrário – e elas não são ligadas só a ficção, estão também presentes em nossa sociedade.

“Comportamentos aberrantes”, “perversão humana”: trechos de diálogos citados durante o filme sintetizam muito bem a personalidade do assassino que percorre a história. Os diálogos acima citados não justificam o contexto em que foram expostos. Fazem o contrário: corroboram para a fundamentação de um outrem.  Outro trecho que comprova a relação entre a psicopatia e o pseudo-naturalismo: “Não sentia ansiedade nem medo, mas liberdade. Cada humilhação que lhe barrava o caminho, podia ser varrida por um ato simples de aniquilação: o homicídio”.

É curioso como a troca do objeto a ser usado nos assassinatos demonstra uma outra faceta do assassino. A brutalidade toma conta daquele que demonstrava ser apenas metódico e frio.

O tom onírico é frequente na carreira de Argento, não sendo diferente em Tenebre. Aquilo que pode soar como uma justificativa, é também um mistério. A mulher que é morta inúmeras vezes em uma lembrança ou sonho, que usa sapatos vermelhos, que parece buscar a depravação, afeta o assassino de forma ao levá-lo a loucura.  O que seria ela?

Os gritos ecoam, o desespero toma conta do recinto, as cortinas se fecham, e não sabemos ao certo quem era realmente insano. “O improvável, neste caso, mais uma vez, como no livro…  É certamente estranho, inacreditável. Mas possível. ”

★★★★★

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