Crítica: Invasão Zumbi

Por Philippe Leão

 

Direção: Sang-Ho Yeun

País: Coréia do Sul

Ano: 2016

Elenco: Gong Yoo; Kim Soo-Ahn; Ma Dong-Seok; Choi Gwi; Choi Woo Shik; Jung Suk Yong; Jung Yu-Mi; Kim Eui-Sung; Kim Jae-rok; Lee Joo Shil; Park Myeong-Sin; Soo-hee Ahn; Ye Soo-Jung

Título Original: Busanhaeng (Train to Busan)

Seow-woo (Gong Yoo), personagem principal de Train to Busan. Um dos melhores filmes do gênero.

O ano de 2016 marca, definitivamente, o retorno do terror e seus subgêneros. Boa Noite Mamãe, A Bruxa e agora Invasão Zumbi (que péssimo nome para se adaptar) são obras irreverentes e diferentes em suas particularidades. O novo filme, dirigido pelo diretor sul coreano Sang-Ho Yeun, porém, trabalha com um dos subgêneros mais difíceis do terror: o Zumbi.

O filme conta a relação entre um pai ausente pelo seu trabalho – um investidor, profissão que já estabelece a individualidade do personagem que é reforçada por alguns gestos no inicio do filme – e sua pequena filha sempre esperançosa para que o pai realize as promessas feitas, em especial um passeio à Busan.

Não há muito tempo para sentimentalismos nesse início, logo ao estabelecer os personagens a narrativa já nos insere no trem para Busan – finalmente o desejo da filha será realizado. É justamente esse trem que será ao mesmo tempo sua salvação e seu martírio. Alguns relances do que está para acontecer começam a serem soltos. Este elemento narrativo trabalha muito bem a tensão, ansiedade e curiosidade do espectador pelo que está por vir. Até que, enfim, se estabelece o problema. Um vírus afetou a cidade e algumas pessoas foram afetadas, acontece que estas pessoas se transformam em uma aberração que, ao morder outras pessoas, as contamina, transformando-as em zumbis, criando um efeito dominó (o nome zumbi não aparece durante o filme, é tratado como uma mutação, mas nós sabemos).

Diferente da maioria dos filmes de zumbis, a transformação é quase instantânea, criando um tom de imediatismo às cenas e tornando cada vez mais crítica a ameaça. Pensando dessa forma, a construção do personagem zumbi (pensando-o como um) é bastante funcional a medida que é veloz em todos os aspectos. Tal característica amplia a tensão em que se propõe estabelecer no filme. Invasão Zumbi não para! Desde o momento em que as transformações começam a acontecer o filme não para um segundo sequer. Há também uma sonorização interessante com relação a ameaça constante dos zumbis. Mesmo nos momentos em que estes estão presos – eles enxergam apenas quando há luz – mas sabem da presença dos humanos, o barulho provocado é constante, não nos fazendo esquecer da ameaça (como se isso fosse possível) não nos deixando relaxar nem mesmo nos instantes estáveis.

Os zumbis, como força única, são construídos a partir de um imediatismo que não deixa o espectador respirar!

Eis que surge a dúvida, como construir personagens nessa loucura que é estabelecida pela narrativa? O filme se contenta com a construção apresentada no primeiro ato? Não, os personagens são multifacetados, suas personalidades se modificam a cada ameaça que surge, vestindo arquétipos a cada situação. O mérito do filme, sobretudo, está aqui. Assim como Mad Max fez em 2015, Invasão Zumbi consegue construir personagens complexos durante a ação com pequenos elementos substanciais.

O subgênero é subvertido por completo. Em primeiro lugar temos um personagem principal (Seow-woo, vivido por Gong Yoo) egocêntrico, individualista e apático. Inicialmente não temos qualquer afeição a essa persona, até mesmo abominável. A filha, por outro lado é boa e, juntamente a outros personagens envolvidos na trama, cria o embate que desenvolve os conflitos pessoais de Sok-woo, tudo isso em meio a ação, sem tempo para respirar.

Outros personagens merecem destaque na trama. Um casal esperando um filho ganha destaque em especial mesmo que em sua condição coadjuvante. A mulher, grávida, surge quase como um fardo, mas se constrói de maneira a subverter sua condição. O homem, por outro lado, assume a condição que seria do personagem principal. É um ser corajoso, impetuoso, com motivações extremamente convincentes. Porém, apesar de arma, é um escudo. Um membro de uma equipe de basebol e sua namorada constituem uma relação amorosa muito bonita que, por assim dizer, criam uma das cenas mais belas do longa.

Por fim, o antagonista. O interessante no vilão de Invasão Zumbi é justamente a sua condição unidimensional, o que poderia ser contraditório se não o pensasse com o todo construído, com os outros personagens. O vilão é a imagem semelhança do personagem principal, a diferença entre ambos está em como os acontecimentos, como o encontro com a barbárie mudou suas personalidades.

Kim Soo-Ahn, atriz revelação do ano

Invasão Zumbi é um filme de um subgênero complicado que, porém, quebra paradigmas. Ao final todas as nossas expectativas são destruídas e, como em um dos “Sonhos” (de Akira Kurosawa) temos um túnel que te fará emocionar, sentir – em especial devido a atuação de Kim Soo-Ahn, uma atriz mirim fantástica, revelação do ano – em um filme de zumbi, pode acreditar.

★★★★☆

2 thoughts on “Crítica: Invasão Zumbi

  • 27 de dezembro de 2016 at 05:47
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    Assisti ontem e não esperava muito de mais um filme de zumbis. Não é que ele te prende de alguma forma, há diálogos e cenas que instigam, visualmente cativa e, em meio a personagens comuns que sofrem, no fim o longa dá nó naqueles que pensam que orientais são mais racionais, é pura trilha sonora romanceando um final estonteantemente emocional. Mais um Trash de zumbis, porém com algo a mais.

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  • 4 de janeiro de 2017 at 16:06
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    Estava aguardando ansiosamente pelo filme por se tratar da temática “zumbi” o qual me atrai bastante, porém não achei grande coisa, o filme é bem dramático fugindo do terror, apesar que na sala que estava todo mundo caiu na gargalhada até nas partes tristes, o filme tem uma pitada de humor que foi o que salvou muitas vezes a história. Por fim, gosto muito trash oriental por isso nesse filme senti muita falta do horror, o sangue e as bizarrices, vale a pena pra quem quer rir ou chorar um pouco já para quem é fã de zumbi ficou a desejar.

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