A Agressão Estética no Cinema

Por Leonardo Carvalho

 

Baseando-me na lista que fiz recentemente para o site, aprofundarei a questão da agressividade pela estética no cinema. Trarei exemplos novos, mas também alguns já citados na postagem que citei acima.

Eu poderia intitular esse texto como o incômodo no cinema, mas partindo da visão de que qualquer tipo de estranhamento em obras de arte são essenciais para que o espectador sinta qualquer tipo de emoção – Freud já dizia que “A obra de arte se caracteriza pela transgressão, por não obedecer a gramática -, desde que essas obras sejam voltadas para a arte, não para o entretenimento, preferi nomear a discussão como “agressividade”.

Como eu já havia deixado bem claro na lista, não estou preocupado com temáticas apelativas no estilo “A Centopeia Humana”, “Um Filme Sérvio” ou longas tarantinianos, mas, sobretudo, com a estética, e caso o conteúdo – violento, pesado, agressivo – seja casado com a estética também violenta, pesada e agressiva, será muito bem-vindo.

Contextualizando o leitor, tudo isso começou no cinema de vanguarda, nos anos 1920, quando a montagem soviética de Sergei Eisenstein agrediu o espectador pelo seu conhecido cine-punho. O “punho” na nomeação composta é exatamente isso que você deve estar pensando, com a intenção de conferir um soco no público.

Isso era obtido com a montagem, aspecto tão valorizado pelo cineasta russo. A exemplo, a cena da escadaria em “O Encouraçado Potemkin” é um tipo de agressão. É também em relação ao conteúdo, pois a situação, de acordo até mesmo com seus momentos históricos, é trágica, mas se não fosse pela estética do cine-punho, isso não seria possível.

Encouraçado Potemkin
Encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein

O legado foi tão grande que ela foi evoluindo com o passar do tempo. Quase um século depois, mais especificamente em 2000, “Réquiem para um Sonho”, trazendo mais uma vez um conteúdo incômodo, agride o espectador com o a hip hop montage, uma espécie de repetição e ultravelocidade dos quadros.

Pensando também no lado estrutural, três exemplos devem ser destacados: “Psicose”, “Irreversível” e “Violência Gratuita”. O primeiro traz sua agressão através da quebra no desenvolvimento, quando a protagonista morre com mais ou menos trinta minutos de duração, enquanto o segundo, obra de Gaspar Noé, inverte toda a narrativa, contando-a de trás para frente. Finalmente, o terceiro, contém uma ideia curiosa, pois quando pensamos que os indivíduos do bem venceram, há uma volta na narrativa, como rebobinar uma fita cassete, concedendo a vitória aos “vilões”. É interessante notar que as três tramas citadas aqui são fortes.

irreversivel
Irreversível – Gaspar Noé

Saindo um pouco do lado roteiro-montagem, a trilha musical também serve como um aspecto carimbador da agressão, “127 Horas” pode ser um bom exemplo. É verdade que a obra é um tanto razoável, mas serve como um modelo interessante. Na cena em que o personagem de James Franco está prestes a tirar seu braço da pedra, uma imagem bastante realista entra em campo para causar uma agonia enorme. O principal trabalho, porém, vai para a melodia composta em pitacos sonoros muito agudos, ela grita sobre o público pela agressão melódica.

Em exemplo de fotografia, muito baseado pelo conteúdo também, temos “Anticristo”. Um clima claustrofóbico é instalado, e ao lado de um ritmo lento, oposto ao que Aronofsky e Eisenstein fizeram respectivamente em “Réquiem para um Sonho” e “O Encouraçado Potemkin”, Lars von Trier concede uma agressão visual que faz o espectador querer sair da poltrona. As imagens, já fortes por natureza, ficam ainda mais fortalecidas graças ao trabalho praticamente neutro do ritmo, servindo de impulso para a agressão.

Em casos mais isolados, mas que contribuem demais para a narrativa, devem ser destacados alguns quadros de impacto. No mexicano “Heli”, as partes íntimas de um homem sendo queimada prioriza um golpe no público, diferente do choque, ainda mais agressivo, de uma cena de “Saló ou 120 Dias de Sodoma”, quando há um estupro feito sobre uma criança. O mais interessante de tudo é a composição das cenas, extremamente cruas e realistas.

Salò
Salò ou os 120 dias de Sodoma – Pier Paolo Pasolini

Há muitos outros exemplos, como a atuação de Harriet Andersson em “Gritos e Sussurros”, o trabalho de gênero de “Holocausto Canibal” e as caracterizações bizarras e sanguinárias de “Mártires”. O incômodo/agressão no cinema ainda tem muito a ser descoberto, difícil de ser taxado, mas é amplo, riquíssimo de qualidades que complementam as narrativas.

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