Crítica: O Sal da Terra

Por Philippe Leão

 

Direção: Wim Wenders; Juliano Ribeiro Salgado

País: Alemanha; França; Brasil; Itália.

Ano: 2016

O diretor alemão Wim Wenders continua sua jornada em mostrar a arte de algum dos maiores artistas do mundo. Depois de Pina – sobre a coreógrafa Pina Bausch – Wenders chega ao fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e seus projetos ao redor do planeta.

O documentário se utiliza de uma estrutura bastante interessante à medida que narra os grandes projetos do artista intercalando com sua vida pessoal e projetos ambientais e sociais. Os relatos de Sebastião frente à câmera e em preto e branco nos faz sentir inseridos dentro do mundo da fotografia, onde os movimentos são criados de maneira bastante específica. Wim Wenders, naturalmente, sabe como lidar com imagens fotográficas, tendo dirigido um dos filmes mais incríveis relacionados ao processo da memória: Alice nas Cidades.

No primeiro ato temos uma exposição rápida da vida de Sebastião, sua vida pessoal, o casamento, carreira antes de se tornar fotógrafo e suas relações políticas em um período conturbado no Brasil, a ditadura civil-militar. Contudo, assim como toda a estrutura do filme, não trabalha de maneira cronológica cada acontecimento de uma vez só, intercala com outros processos em fase embrionária neste primeiro ato. Assim, vemos as terras secas do que viria se tornar um dos projetos do Instituto Terra, fundado por Sebastião, em Minas Gerais.

Há uma ligação intrínseca de Sebastião Salgado com o solo. Seus projetos ambientais e apresso pelo que a terra pode oferecer o torna um geógrafo natural, tradicional, mas transcendental. Este apresso, contudo, não se fixa em um só lugar. Sebastião é, também, um aventureiro, um explorador romântico ao estilo Humboldt e Herder, buscando as culturas e os valores originais. O globo é sua ethos, sua casa. Este espírito aventureiro comprova ainda mais sua aderência à geografia, mas não para por aí. O romantismo de Salgado não mascara as coisas como ele são, demonstrando um espírito crítico ao mundo moderno.

No segundo ato Wim Wenders entra a fundo nos trabalhos do fotógrafo em suas expedições ao redor do planeta. Alguns dos trabalhos mais fantásticos do artista são mostrados apresentando as fotografias e os relatos de Sebastião sobre estas, simplesmente imperdível apreciar a obra dita pelo artista.

 

Trabalhadores, Serra Pelada, Outras Américas, Êxodos, África e Gênesis são alguns dos trabalhos citados e narrados por Sebastião. O impacto das fotografias somados com os relatos e ausência de trilha sonora são emocionantes, tanto em seu aspecto mais romântico de admiração pelo que é natural como por sua natureza crítica e condenatória das explorações trabalhistas e das memórias do subdesenvolvimento.

Por fim, no último ato de um belíssimo documentário, o Instituto Terra como é hoje, recuperando áreas degradadas e, finalmente, instituindo Sebastião Salgado como homem da terra, ligado aos acontecimentos dessa e imortalizado por suas fotografias. Um brasileiro necessário, que o espectador precisa conhecer.

★★★★★

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