2001 – Uma Odisseia Heideggeriana

Por Philippe Leão

Iniciemos com a famosa elipse temporal de 2001: Uma Odisseia no Espaço. O macaco, que antes era atormentado por não poder se defender de seus predadores, descobre no osso a possibilidade da arma. É a primeira aparição da técnica no filme de Kubrick. Em um primeiro momento usado como meio de defesa, a mesma arma passa a ser um instrumento de poder, territorial ao defender a poça de água, sob outros macacos. A maior elipse da história do cinema vem apenas confirmar a questão da técnica em 2001. Em um corte a arma do macaco torna-se a arma do homem do futuro. Uma bomba apontada para o planeta, esperando um comando.

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A técnica é descoberta. O osso transforma-se em arma e, agora, o macaco não é mais indefeso aos predadores. Somado a isso, a arma passa a ser técnica de defesa de território. O Macaco protege sua poça de água assim como o homem, ao redor de uma mesa, defende-se através da diplomacia.

Contudo, eis que surge, poucos minutos depois, a verdadeira arma moderna. Assim como o osso fora jogado aos céus e a bomba flutuava pelo espaço, em uma rima visual, uma caneta entra no ballet de gravidade zero no interior da nave. Reunidos ao redor de uma mesa – mais uma rima visual criada por Kubrick, tendo a poça dos macacos se tornado a mesa – o jogo político pode decidir o rumo do planeta com apenas uma assinatura, a bomba dispararia após meros rabiscos no papel. O contexto de Guerra Fria ajuda, mas o filme, porém, supera qualquer questão temporal. A sobrevivência do planeta depende da assinatura de um botão (Kubrick ironiza a situação em Dr Fantástico).

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A arma do passado e do futuro. A elipse temporal marca a evolução da técnica e acusa o seu processo evolutivo a medida que transforma os homens em máquinas feitas para guerra.

Assim como 2001: Uma Odisseia no Espaço, Heidegger assume uma crítica a modernidade e a filosofia de seu tempo, mais, diz ser seu tempo e os que estão por vir os da ciência e, portanto, da técnica. Seria, então, o tempo da não filosofia, mas a modernidade assume uma filosofia específica: a metafísica.

Para Heidegger, a metafísica da modernidade é especial, fundamentada na ciência e na técnica, a qual o pensador chamará de metafísica da subjetividade. Como toda metafísica, ela procura um ponto de apoio absoluto para que todo conhecimento possa decorrer deste. Como o nome já diz, a metafísica da modernidade buscaria seu ponto de apoio no sujeito, na subjetividade. Por sua vez, ao falar de sujeito, logo a relação deste com o objeto, uma vez estamos no tempo da técnica.

Assim 2001: Uma Odisseia no Espaço se estabelece. A técnica nos é apresentada do início (a descoberta do osso como arma) ao fim (a bomba atômica, a caneta e, até mesmo, Hall 9000), e nos parece ser um aspecto evolutivo.

Se a tecnologia se desenvolve, de maneira positiva enxergamos no senso comum. Heidegger, contudo, acusará que vivemos em um mundo dominado não só pela Metafísica, mas também pelo Humanismo. Dessa forma, todas as coisas são voltadas ao sujeito e portando ao homem, assim sendo, tudo é manipulado e manipulável uma vez a técnica sendo o cerne moderno. Tudo é feito para o homem e ele manipula tudo. Contudo, sendo o homem pertencente a esse todo, este também torna-se objeto, passível a manipulação, tornando-se mais um objeto manipulável por ele mesmo. Tudo se banaliza, transforma-se em coisa, tudo se coisifica. E no limite do usufruto da técnica há a banalidade da violência, a interpretação da guerra como algo normal, como extensão da manipulação. Eis esse o momento que o humanismo veste sua máscara obscura da qual não queremos admitir, perceber. Na base da violência e da guerra está a nossa metafísica da subjetividade que sustenta a técnica no limite do manipulável. A ideia de que a guerra é natural, faz parte do processo de pacificação, é mais um elemento do que é o exercício da técnica e da tecnologia.

Portanto no limite do humanismo e da manipulação da técnica, o homem torna-se técnica dele mesmo. Em 2001 são diversos os momentos em que Kubrick demonstra em imagens as ideias de Heidegger. Quase imperceptível, um homem joga xadrez com a máquina e esta testa o homem ao anunciar uma jogada e avançar em outra, sem que o humano pudesse perceber. Hall 9000 testa a inteligência de seus tripulantes a todo instante. No limite do usufruto percebemos que os atores de Kubrick não tem qualquer expressão facial, são mais máquinas que Hall 9000. Mesmo diante da morte de um de seus colegas, o homem se mantém apático dentro dos limites da técnica, de uma racionalidade cega.

Hall, por outro lado, apresenta-se mais humano que os homens. Assim como disse Heidegger, a essência do homem está na angústia que sente. Angústia, sentimento descrito pelo filósofo como a percepção da finitude, a percepção perante a morte, inerente ao humano e exclusivamente deste. Mas os humanos de 2001 não se angustiam, a máquina sim, morre como um humano, deixando todas as suas memórias.

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O momento em que Hall 9000 é desligado é percebido como o momento de sua morte. Isso acontece porque Hall sente-se angustiado, sente a presença de sua finitude, de sua morte. Hall apresenta-se mais humano que os homens.

A máquina transforma-se em homem e o homem em máquina. O limite da técnica acusado em Heidegger, que o transforma em homem criado para guerra, nos fazendo voltar se entender todo processo evolutivo proposto pela grande elipse do Osso à Caneta.

2001 e Heidegger condenam os limites da técnica e da razão humana. Através da razão estamos convencidos de nossas ações. A razão, porém, achou sua morada em uma metafísica que a divinifica, é posta em um pedestal onde nada pode atingi-la. Esta aura seria a essência, o que nos torna humanos para os iluministas e, ainda hoje, esse pensamento não entrega à razão qualquer sentimento de culpa.

4 comentários em “2001 – Uma Odisseia Heideggeriana

  • 5 de dezembro de 2016 em 20:54
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    Muito bom esse texto. Hoje vcs animaram com kubrick hein auhaeuh

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    • 5 de dezembro de 2016 em 22:57
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      Não tinhamos nada, agora dois de uma vez 🙂 ahahaha

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  • 9 de dezembro de 2016 em 09:16
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    Foco de resistência: arte, poesia!

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