Crítica: O Chicote e o Corpo

Por Matheus Petris
Direção: Mario Bava
País: Itália
Ano: 1963
Elenco: Daliah Lavi, Christopher Lee, Tony Kendall, Ida Galli

Chicote e o Corpo

whip-and-the-bodyO cinema de horror italiano figura entre os principais e mais inventivos em seu gênero, sendo Mario Bava um cineasta fundamental para entender o peso deste cinema. “O Chicote e o Corpo”  é uma obra expressiva dentro do gênero, e contém elementos que o fazem se sustentar não apenas como cinema de gênero, mas também como cinema puro. Os créditos iniciais que são compostos de uma cortina vermelha em background, sintetizam a obra que veremos: estejam prontos ao sangue e obsessão.

O suspense ronda a trama, assim como ronda os pensamentos dos personagens que ali habitam. Antes mesmo do desencadear extenuante, a desconfiança e receio entre todas as relações é ostensiva e perturbadora. Quando o horror é literalmente embutido à trama, todas as características mencionadas acima são potencializadas, e ainda mais quando uma espécie de “maneirismo” é adicionada à composição, o que faz com que tudo aquilo seja imensurável, e o pavor de todos os envolvidos se alastre, corroendo não só os habitantes daquela ilha misteriosa, mas também que chegue até nós, que por uma visão privilegiada, mesmo não sabendo a real verdade por trás de tudo, sabemos das inseguranças e preconceitos que rondam os personagens.

O maneirismo é também um aspecto sinuoso da trilha, que constantemente se mostra diegética, aquilo que faculta a ambuiguidade da protagonista, que reprimida, acaba tentando se afastar do limite impostos pelos terrenos da ilha, e no piano se sente distante e parece sentir prazer, algo que só o sexo e sadomasoquismo lhe provocará. Por mais ela tente se mostrar alheia aos acontecimentos ali vívidos, seu amor e paixão que não foram revelados no passado, se mostram fortes o suficiente para corroborar com uma amplitude na trama. Sentimentos estes que são fruto de um passado frustrante, uma escolha equivocada.  Caminhos sinuosos também são trilhados pela família, que mostram ter verdadeiras duplas facetas, que são evidenciadas no decorrer da trama, algo bem intensificado pela fotografia que divide o rosto entre luz e sombra, de todos os personagens que ali habitam. O ódio diante da fissura provocada pela morte e pelas sensações extremas em que foram expostos, intensifica as relações já conturbadas e o desprezo mutuo que se estancia sobre a ínsula. A família é corroída por essas relações e acontecimentos, não que ela antes fosse um elo exemplar, pelo contrário, mas a situação em que foram postos consegue deteriorar o pouco que restava.

Aproveitando a deixa do título original do filme, La frusta e il corpo, para elucidar aquilo que rodeia a protagonista: latência em essência. Seja ela um sentimento latente ou um simples prazer sexual utilizando de meios não convencionais à época que habitava. O chicote: aquilo que lhe traz prazer. O corpo: O corpo que não lhe é permitido, a pessoa que não lhe é palpável. A morte poderia trazer esses desejos à tona? Em sua mente, talvez. Ao ser chicoteada, o prazer instantâneo ultrapassa à tela, ainda aliado a pessoa obtentora de tal objeto, que, com a junção destes dois elementos rudimentares à essa mente frustrada, não só intensifica, como prova que seu sentimento aprisionado lhe impedia de viver de forma natural. Sua recusa em aceitar esse sentimento mostra o quão complexa é seu personagem, ao afirmar que o odeia e jamais sentiu algo por ele, ela apenas demonstra a fraqueza que esse assunto pode provocar a ela. A questão em si não é o sadomasoquismo, é o sentimento não permitido, é sua vontade não cumprida, é também uma escolha errônea feita no passado, escolha essa que comprometeu a tudo e todos.

Há um outro objeto que intriga e é utilizado como forma libertadora: a adaga. Com ela, é possível liquidar a vida daquele que a impede de seguir em frente. Liquidando esse, talvez seja possível cumprir seus reais desejos, nem que eles sejam manifestados através do pós-morte. A manifestação é viabilizada por espectro ou fantasmagórica, o que provoca desconforto e receio, porém, dessa forma é possível que todos seus desejos sejam saciados, pelo menos em um plano mental, diga-se.

O ódio do cinema de Bava é manifestado como horror, é aterrorizador e estonteante. O sobrenatural insere à justificativa do horror, não que fosse necessário no contexto desta trama, mas é engenhoso utilizá-lo da forma como foi, e não só produz uma sensação irresoluta, como de fim consumado e auto explicado, essa ambivalência pode ser lida como ponto crucial para a possível interpretação básico deste filme, caso isso seja possível.

★★★★☆

One thought on “Crítica: O Chicote e o Corpo

  • 1 de dezembro de 2016 at 11:11
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    Ou, lega esse cartaz aí XD

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