Crítica: A Chegada

Por Emily Almeida

 

Direção: Denis Villeneuve

País: EUA

Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg

A Chegada

021583Mesmo através de um longo período de transformação e de sua marca fundamental na vida em sociedade na qual nos encontramos, o ato da comunicação – por meio da linguagem escrita/falada – ainda surge como uma troca incompleta. Até que ponto o que eu digo chega a você sem que fique nada pelo caminho? Baseadas em um vocabulário generalista, essas trocas geram uma compreensão limitada, sem essência, se é que possível atingir, em um patamar metafísico, tal nível de percepção. A palavra sempre vai ser o símbolo de algo, nunca o algo em si.

Este é um dos pontos abordados em A Chegada, novo filme de Denis Villeneuve. Depois de longas como Incêndios e Os Suspeitos, as expectativas correspondentes a suas obras tornam o ideal estado de imparcialidade difícil. Sua presença autoral permanece evidente, embora seus estilos mais marcantes – narrativo e fotográfico – tenham encontrado, aqui, um cunho diferente. O gênero ficcional-científico é custoso de ser trabalhado por seu caráter passível a deslizes devido ao embasamento no fantasioso, e Villeneuve teve como ponto de partida em sua carreira tramas muito focadas no âmago do homem, no cotidiano, na crueldade inerente à nós, mas em situações tangíveis, sendo, esta, uma fuga à seu usual.

Baseado no livro Story of Your Life, de Ted Chiang, o roteiro adaptado por Eric Heisserer tem como protagonista a linguista e tradutora Louise Banks (Amy Adams). Quando naves alienígenas pousam em doze lugares diferentes da Terra, aparentemente sem nenhum propósito imediato, a personagem é convocada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para auxiliar militares no entendimento e tradução do que os visitantes têm a dizer.

Conhecemos Louise por intermédio de sua forma mais vulnerável em um prólogo que, em pouquíssimo tempo, entrega uma premissa chave. Ela perde sua filha adolescente para uma doença rara, o que justificaria sua vontade de fazer parte de algo superior, já que a melhor parte de sua vida se foi. É o que encontra, então, quando a “invasão” acontece e seu conhecimento é requisitado. No entanto, sua figura é constituída por várias camadas minuciosas, sendo estas expandidas por meio da elucidação que Adams confere à linguista, que se refaz de modo constante.

Jeremy Renner vive o físico Ian Donnelly, convidado, também, a ajudar na  descoberta da razão que levou à visita exterior iminente. O ator faz dele uma pessoa cativante, um bom complemento à imagem aflita da personagem de Amy Adams. Ele se mostra bastante entusiasmado com o objetivo de uma maneira essencialmente racional, ao passo que Louise é constituída, não só no psicológico como no seu porte durante a missão, através da sensibilidade. No entanto, ainda que baseada no emocional, o protagonismo da personalidade feminina em um cenário geral é fantástico, visto que não diminui – mas pelo contrário, reafirma – sua importância no âmbito profissional.

A fotografia de Bradford Young é marcada pelo uso da luz natural, mesmo entre muitos cenários noturnos, mostrando-se espantosamente hábil no uso que faz de silhuetas e de formas geométricas contra a luz. Com um tom misterioso atraído pelas sombras que cobrem as telas, a junção com as composições sonoras lúgubres de Jóhann Jóhannsson dá forma à sequências completamente imersivas. Diferente de outras produções de Villeneuve, os planos são, na maioria dos frames, fechados, sem o distanciamento e enfoque no cenário em torno de que estamos acostumados.

A Chegada

O filme tem um tom sensível – tanto em relação às feições de Louise quanto ao desenvolvimento narrativo geral – e essa aproximação fotográfica é justificada na medida em que o conjunto vai se estabelecendo como unidade circunstancial. Destaque, ainda, para uma das cenas finais, onde a tradutora encontra-se centralizada em um fundo completamente branco, num tom celestial, no que pode ser a representação visual mais extraordinária e sutil do longa.

Apesar de possuir certa complexidade construtiva, os elementos que revelam a natureza final da trama se encontram em um belíssimo foreshadowing textual, encontrado em frases, à primeira vista, triviais, e até mesmo em um nome. Não é o tipo de filme que deixa vazios a serem preenchidos depois, mas brinca com o uso da memória do espectador da mesma maneira em que utiliza a própria memória como foco de desenvolvimento da protagonista.

O que torna A Chegada um filme tão incrível é que Villeneuve transforma uma trama simples e vulgar no âmbito cinematográfico – a de invasões alienígenas – em algo muito maior do que imaginamos se tratar, aliás, maior do que considerava possível até aqui. Mas eis a beleza do cinema. Assim como 2001, traz a abordagem acerca da natureza humana, revisa nossos conceitos de tempo e espaço e levanta, em pouco menos de duas horas, um questionamento e interesse que raras obras têm o prazer de despertar. Mais do que sobre o medo do desconhecido e das reações humanas em meio ao inexplicável, constrói-se, nele, ligações sobre confiança, amor, relação com a perda, tudo a partir da ideia de que nos encontramos dentro de um grande círculo. E, neste círculo, tudo pode vir a se repetir.

★★★★★

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