Crítica: Sonata de Outono

Por Leonardo Carvalho

 

Suécia – 1978

Direção: Ingmar Bergman

Elenco: Liv Ullman, Ingrid Bergman, Gunnar Björnstrand.

Sonata de Outono

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A vida de um casal que vive numa casa isolada e banhada pelo silêncio dos arredores é apresentada ao espectador. Os diálogos do apresentador, marido de Eva – a dona da residência junto a ele -, indicam que aquele ambiente é tranquilo, digno da leveza apresentada nas cores neutras da direção de arte.

Tudo começa a ser modificado radicalmente com a morte de Leonardo, um companheiro de longa data da mãe de Eva. A mulher, então, decide visitá-la depois de muitos anos sem vê-la. De início, percebe-se que Charlotte (a mãe), já com uma idade avançada, é bastante ativa, cheia de diálogos prontos e ideias fortes sobre o que conta, ou seja, com um posicionamento de muita força na presença. Não é por menos que narra, com detalhes, os últimos momentos de Leonardo, quando estava no hospital.

Os quadros que vemos neste momento, aliás, sobre o homem deitado em uma maca, no estabelecimento hospitalar, são geniais. São curtos inserts – pequenas passagens do tempo no passado – que vemos como costura para que a locução da mulher não fique monótona e estática somente nas falas, por isso Bergman joga um tipo de deslocamento, as rápidas idas ao passado, justamente para que haja mais movimentação no interior da narrativa; os mesmos inserts sugerem um trabalho brilhante na mudança da temperatura das cores que indicam a gradação da vida, da vida de Leonardo, de uma maneira decrescente.

Pensamos, num primeiro momento, se Bergman estaria sugerindo uma tentativa de emoção por parte do público por tudo o que a mulher estava narrando, mas não é isso. Logo somos surpreendidos com a personalidade forte de Charlotte, e os diálogos detalhados no começo, como foi dito acima, mostravam nada mais que sua ativa forma de ser. Não é por menos que, posteriormente, veríamos a sua forma de agir e de se vestir, formas um tanto hiperbólicas naquele ambiente calmo e soturno, o que acaba marcando, pelo figurino, uma personalidade bastante chamativa.

Isso, por exemplo, pode ser visto, também, nos cigarros, que traduzem sua impaciência, ou até mesmo em seus gestos, na ideia de que ela é enérgica demais. Nas falas de Eva, entendemos que ela possui problemas relacionados à insônia, mais uma ideia de que a mãe é cercada de um nível de energia sem limites. Já o vestido que ela usa, de um vermelho brilhante, lembra sua personalidade fortíssima, afiada, sem filtrar o que pensa, de chamar a atenção.

Quando ela descobre que sua filha, com doenças mentais, está na casa de Eva, a atmosfera torna-se mais enjoada. Todo o início de calmaria, de um encontro que remete à saudade entre as duas mulheres, vai se transformando em uma relação complicada com o passar do tempo. Essa questão da outra filha é apenas uma incômoda apresentação, quem causa a reação/relação agitada entre as duas principais personagens da película.

Em uma cena memorável, após ter um sonho esquisito, Charlotte acorda Eva e ambas começam a ter uma conversa que entra, profundamente, em questões passadas, em relações conturbadas. Para isso, Bergman permite ao filme acionar, novamente, os inserts, mas desta vez com certo nível de identificação sobre as personagens, pois mergulhamos na dramaticidade vivida pela infância de Eva.

A composição das cenas, muito pelas atuações formidáveis em contraste das atrizes, é brilhante. Ingrid Bergman, no papel da mãe, está perfeita numa atuação de poucos gestos, mas muitas energias nas falas e nas expressões. Já Liv Ullman, na pele de Eva, brilha sob os muitos gestos bruscos e expressões somadas a berros. É interessante notar, também, a função paradoxal entre as duas personagens o tempo inteiro, até mesmo na conclusão, quando as consequências do encontro fazem uma Eva melancólica, enquanto Charlotte sofre mais, calada, mas sofre muito mais.

Entende-se, outrossim, em uma cena ao longo do desenvolvimento, que Eva tem seus olhos brilhando ao ver seu mãe tocando piano. Ela possui uma admiração muito grande por Charlotte desde criança, quando via que a mulher era de uma beleza muito grande, enquanto ela possuía constrangimentos sobre seus traços finos no corpo. A grande questão, aqui, é colocar uma oposição, ou um conflito, entre as duas mulheres, isso é nítido, mas há o resgate de tempos remotos nessa relação, o que intensifica ainda mais a problematização sobre elas.

Um ponto não tão positivo, que acaba sendo ligeiramente forçado no meio da trama, é a questão do filho morto de Eva, aos quatro anos, ampliando ainda mais o ambiente dramático da mulher, sofrido desde quando era pequena.  Além de a ideia não ser muito desenvolvida, a fala de Eva que traz essa questão é vaga e antiespontânea, fica isolada e não serve como um elemento tão hábil à película.

Tudo isso está no interior de um ambiente de cores que lembram uma palheta gradual, colocadas num espaço cênico matemático dentro da coloração. Isso, somado com o ritmo lento, lembra as tardes/noites de outono, estação das folhas secas, que não são claras, nem escuras. Parece calmo, leve, mas o clima é quebrado por pensamentos profundos sobre fantasmas do passado entre as duas protagonistas.

★★★★★

Um comentário em “Crítica: Sonata de Outono

  • 28 de novembro de 2016 em 03:02
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    É uma obra-prima absoluta, um dos mais valiosos duetos de atrizes que já pude assistir.

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