O Abraço da Serpente e a Questão da Técnica

Por Philippe Leão

 

Em 2016, o cinema colombiano surpreendeu a todos com um filme indicado entre os melhores filmes estrangeiros do Oscar. A surpresa parte de sua presença e não de sua qualidade, uma vez sendo um dos melhores filmes deste século. Não há demagogia, O Abraço da Serpente é um filme mitológico que trata dos limites da ciência e da técnica. Em uma narrativa composta por uma montagem paralela o filme acompanha a vida do xamã Karamakate e seu encontro com o homem branco em dois momentos diferentes.

Em um primeiro momento nos é apresentado um xamã misterioso, experiente, em contato com aquilo que faz parte de si, sua natureza. Logo, à encontro do experiente xamã, o botânico americano Evan chega em busca de uma planta curandeira que teria estudado em escritos de Theodor Koch-Grunberg. Karamakate já havia visto aquilo antes, visível em seus olhos. O homem é cético, a planta é apenas uma coisa passível de ser cientificada. A planta, então, torna-se um elemento catalizador entre dois mundos, o homem querendo medi-la e a poesia da natureza e suas narrativas.

O Abraço da Serpente
Karamakate e Evan, ao fundo.

Assim, o longa colombiano se mostra a partir de uma ontologia heideggeriana. A metafísica da subjetividade acusada pelo filosofo parece ser o cerne do filme. Para o botanico que naquele mundo chega, tudo é feito para o homem que manipula tudo, Sendo pertencente desse todo, porém, o homem torna-se objeto manipulável por ele mesmo. Tudo se banaliza, transforma-se em coisa, as águas, a árvore, a planta curandeira. Tudo é passível de ser mesmistificado, mensurado e, através das técnicas coisificantes, retirar dos elementos seu aspecto poético.

Karamakate já conhecia a doença metafísica ocidental. Já sabia que, levada ao limite, esta filosofia humanista transforma os homens em máquinas, de guerra. Por experiência própria o xamã havia visto seu povo e irmãos terem sido desimados por tal filosofia, suas narrativas fadadas a morrer.

A consciência do xamã, antes vista em sua decepção com o homem branco através do olhar e do texto muito bem escrito, agora é apresentada de maneira temporal. A montagem intercala os momentos de Karamakate velho e jovem. Enquanto velho, complacente, sábio, já o jovem é impulsivo, raivoso, inteligente a sua maneira. Os dois momentos do filme se mostram semelhantes. O jovem Karamakate também encontra-se com um homem branco, cientista, o etnógrafo Theodor Koch-Grunberg que, doente, está em busca também da planta curandeira. A partir desse momento é possível analisar a importancia da montagem paralela para o filme em questão. Há uma comparação clara entre os dois encontros do homem branco com o nativo. O experiente xamã o é modificado que foi pelo seu primeiro encontro.

O Abraço da Serpente
Karamakate jovem e o etnólogo Theodor

Chegamos então a representação fotográfica do filme que de maneira mais aparente é a primeira grande impressão que a película transmite. Pois bem, dentre outras coisas que iremos ainda descorrer durante o texto, a fotografia transmite todos os conflitos que acima foram mensionados. Em uma interpretação simples, o P&B seria referencia apenas aos filmes antropológicos, o que já faria todo sentido, mas não é só isso.

Em um aspecto mitológico e científico, a floresta ganha um sentido dialético:

De um lado, o Preto e Branco se refere à antropologia e os filmes antropológicos, a ciência do homem branco. De outro, o preto e branco penetra a alma da floresta, buscando suas narrativas e poesia do Nativo.

A fotografia age, assim como o filme no todo, de maneira dialética monista, os opostos acabam se equilibrando. Em especial o contato do homem branco com o desconhecido, uma vez que o nativo já havia tido a experiência com seu oposto. Dessa forma, os conflitos presentes no longa-metragem se dão a partir do movimento provocado pela diferença, o filme está em constante mudança, assim como seus personagens, remando sobre as águas amazônicas que, assim como Heráclito já havia dito, jamais será a mesma duas vezes.

O Abraço da Serpente
“Dessa forma, os conflitos presentes no longa-metragem se dão a partir do movimento provocado pela diferença, o filme está em constante mudança, assim como seus personagens, remando sobre as águas amazônicas que, assim como Heráclito já havia dito, jamais será a mesma duas vezes.”

É estranho, incomum e raro o uso da fotografia em preto e branco em florestas, em especial uma com a densidade da amazônica que proporcionaria uma explosão de cores, em especial o verde. Contudo, ao sugar as cores entrega-lhe novas, suga o verde e entrega o vazio, preenchendo-o de sentidos. Para o homem branco o niilismo perante aos mitos da floresta, ao nativo, mais uma vez, uma floresta que guarda significados, mas que vê suas histórias sendo extintas por aqueles que desejam transforma-la em técnica. O preto e branco não faz nossos olhos escaparem às cores. Ele nos faz penetrar no espírito da floresta e dos personagens, mas também da Ciência que acredita tudo poder medir.

Por fim, como já dito, é justamente o encontro dos opostos a todo instante que cria o movimento, as diferenças demonstram suas igualdades. Como em uma análise circular, o frio em seu extremo torna-se quente e a floresta acaba se tornando parte deles. O último frame prova. A natureza é, também, o homem.

2 thoughts on “O Abraço da Serpente e a Questão da Técnica

  • 22 de novembro de 2016 at 11:22
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    Bom dia. Caro amigo, você aceitaria sugestões de filmes para futuras resenhas? Muito obrigado.

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    • 22 de novembro de 2016 at 14:18
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      Manda pra gente Antonio, sempre analisamos os casos 🙂

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