Crítica: Elle

Leonardo Carvalho

 

França – 2016

Direção: Paul Verhoeven

Elenco: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Laurent Lafitte, Alice Isaaz, Anne Consigny.

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elle_usposter“Elle” foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e foi escolhido como o representante da França na tentativa de uma vaga para o Oscar 2017. É interessante notar que a obra é dirigida por Paul Verhoeven, um diretor holandês muito reconhecido que está em sua primeira direção num filme de língua francesa.

O enredo é construído de maneira complexa acerca do suspense. Se estivéssemos assistindo a uma obra popular, muito provavelmente teríamos um assunto sendo debatido de maneira rasa, em que o assassino estaria na perseguição da vítima, e no máximo cobraria uma atenção do público para que tentasse descobrir quem é o agressor.

“Elle”, antes de fazer com que o espectador descubra quem é o tal agressor, pede para que ele acompanhe com detalhe os distúrbios psicológicos da protagonista, sobre suas reações acerca do estupro em que é vítima. Não é por menos que o roteiro escolhe o encaixe da revelação do indivíduo antes do clímax, uma posição clara de que esse mistério é apenas um recheio.

Diversos laudos podem ser feitos nesse acompanhamento. Um deles é que a mulher sofre, fortemente, de algum distúrbio psicológico. Ela parece carregar algum trauma hereditário, já que seu pai, no passado, havia sido um psicótico que causou diversas complicações quando ela era ainda uma criança.

Sua mente parece ser uma confusão, dificilmente consegue pensar nas desvantagens sobre o ocorrido na primeira cena do longa-metragem. Para isso, Paul Verhoeven volta diversas vezes nesse trecho, mas com pontos de vista diferentes, até mesmo sobre a visão do gato que convive com a mulher. Além disso, há uma versão em que a mesma consegue matar o agressor.

Na hora da revelação existe uma enorme surpresa acerca do gosto da brutalidade, e ela pensa no estupro até de maneira positiva, pois gosta desse tipo de jogo. Pensamos até na Síndrome de Estocolmo, em que a vítima se apaixona pelo agressor. Isso acontece quando ela tem a necessidade de afirmar sua beleza o tempo inteiro, dando fronteiras à bipolaridade, já que se desafia o tempo inteiro, justamente para que haja essa afirmação da beleza. O estupro, portanto, pode ser visto como uma visão de que ela está sendo desejada. Como a música de Iggy Pop, tocada duas vezes ao longo da narrativa, diz: “Lust for life”, ou “Desejo de Vida”.

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No meio disso tudo, diversas coisas acontecem para preencher o cenário caótico na mente da mulher. Seu filho acaba de ser pai de uma criança que claramente não é sua; sua mãe está saindo com um homem quarenta anos mais novo; seu ex-marido está com uma mulher mais jovem, que ameaça a sua reputação; fora que a protagonista trai a confiança da sua melhor amiga.

Muita bagunça em seus pensamentos. Para isso, o cineasta holandês aciona um clima de obsessão e dúvidas já encontrado em seus filmes antecessores. Os planos estão um pouco tremidos, tortos, os diálogos remetem à ironia ao lado dos atos feitos pelos personagens, criando uma atmosfera duvidosa acerca das vantagens e desvantagens de acontecimentos. O estupro é o principal desses acontecimentos, mas é preciso reconhecer a importância sobre o lado da traição, do ceticismo sobre a verdadeira paternidade de uma criança e até sobre confiança. Por isso o deboche é tão carregado – bota carregado nisso.

Não é somente por esses aspectos que “Elle” está entre os melhores filmes ano, mas também pela atuação fria e brilhante de Isabelle Huppert, uma gigante atriz da história do cinema mundial. A posição de dona de empresa da protagonista é contrária à tempestade de coisas que estão acontecendo em sua vida, basta ver a programação feita em sua própria empresa – de videogames – em que ela é colocada na representação gráfica de uma personagem sendo estuprada por um monstro fictício. Bizarro, grotesco e incômodo, Paul Verhoeven merece essa indicação ao Oscar.

★★★★★

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